Com o propósito de tornar Flávio Bolsonaro um candidato mais palatável e moderado, o ex-governador mineiro Zema desceu ao inferno dantesco da extrema direita com a defesa do trabalho infantil, uma praga que o Brasil tenta abolir, em definitivo, desde a Constituição de 1988.
A mazela é persistente: entre 2023 e 2025, o governo Lula teve que retirar 6,3 mil crianças exploradas por empresas e agricultores em todo o país. Eram meninos e meninas sem infância e sem escola. Diante de qualquer descuido ou desabrigo social, esse crime volta a ocorrer.
A defesa de Zema veio embalada com a nostalgia de herdeiros que passaram pelo balcão de empresas familiares e agora exaltam o valor moral desse tipo de “trabalho”. A apresentadora Leda Nagle, com o seu álbum sépia de recordações românticas, reforçou a ideia do pré-candidato do partido Novo.
“Aqui no Brasil parece que a esquerda criou essa noção que trabalhar prejudica a criança. Lá fora, nos Estados Unidos, criança sai entregando jornal. Aqui, proibido, você está escravizando crianças. Então, é lamentável”, disse.
Em pouco tempo, a corrente fofa do reacionarismo nacional estava na ativa, com fotos de rosadas crianças em balcões de armazéns de secos & molhados, boticas, fábricas e outras firmas hereditárias.
O bloco do Zema não faz ideia ou finge não saber o que seja de fato o trabalho infantil que a Constituição Cidadã (ainda) deseja abolir definitivamente.
Essa turma de bacanas nunca ouviu falar, por exemplo, da geração de mutilados dos canaviais do Nordeste, como registrei em reportagens para a Folha de S. Paulo, nos anos 1990.
Uma pesquisa do Centro Josué de Castro (Recife), em convênio com a fundação inglesa Save The Children, revelou que a criançada da palha da cana-de-açúcar estava condenada a uma expectativa de vida em torno dos 46 anos, 17 anos abaixo da média brasileira da época.
Somente em Pernambuco, onde a pesquisa foi concentrada, cerca de 54 mil crianças – entre 7 e 13 anos de idade – já estavam armados de foice, trabalhando 44 horas por semana. Mais da metade deles (57%) eram vítimas de acidentes graves, provocando cortes no corpo.
“É o retrato do Brasil mais arcaico, onde predominam a mutilação física e da cidadania ao mesmo tempo”, dizia a socióloga Teresa Wanderley Corrêa de Araújo, coordenadora do estudo.
É esse Brasil de infâncias perdidas em canaviais e carvoarias que a turma do Zema quer de volta. O tipo de discurso que serve para amaciar a imagem extremista de Flávio Bolsonaro, mas não desperta um pingo de saudade em quem viveu ou testemunhou os horrores dos meninos e meninas decepados no corpo e na ideia de ser “gente” um dia.



