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terça-feira, 10 fevereiro, 2026
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o Dia das Crianças e os desafios de brincar longe das telas — Brasil de Fato

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No bairro Palmital, em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o riso ecoa e a criatividade pulsa entre as casas próximas. Beatriz, Eduarda, Nicolas, Geovana, Luan, Henrique e Alícia, todas crianças com idades entre 5 e 12 anos, correm, pulam e se escondem. O pique-cola, a amarelinha, o pular corda, o futebol e o rouba-bandeira ainda vivem por ali, entre gritos, alegria e pequenos arranhões.

Em Belo Horizonte, porém, a rotina de Marcelo, de 4 anos, é bastante diferente. Sua mãe, a jornalista Eliziane Lara, mora no bairro Nova Suíça e sabe que manter o filho longe das telas é um dos desafios mais complexos de criar uma criança atualmente.

“As famílias estão muito reduzidas, muito nucleares. Fica a responsabilidade da mãe e, no melhor cenário, do pai, de entreter a criança. E, quando você precisa cozinhar, trabalhar, cuidar da casa, é difícil manter o menino longe da televisão ou do celular”, conta ela, que cria o filho único ao lado do pai, Carlos, na capital mineira.

Infâncias com fronteiras diferentes

No Palmital, as crianças vivem perto umas das outras. As ruas são mais vazias e os pais se conhecem. 

“Eu gosto de brincar de pique-cola e pular corda”, conta Beatriz da Silva Batista, de 9 anos. Ela explica, animada, as regras do jogo: “quando a gente é colado, tem que ficar parada até alguém vir e descolar a gente. É bem legal”.

Para Beatriz, brincar “na vida real” é muito mais divertido do que no celular.

“No celular a gente joga, mas às vezes é com pessoas que a gente nem conhece. Quando é com os amigos, a gente encosta, conversa, ri”, alegra-se. 

Eduarda, de 12 anos, prefere o rouba-bandeira na rua. “A gente faz dois times e tenta pegar a bandeira do outro lado. É mais divertido, a gente corre, grita. No celular a gente fica muito grudado, vicia”, diz.

Luan, também de 12, conta que só mexe no celular depois de cumprir as tarefas do dia. O que ele mais gosta é jogar bola. 

“Quando estou brincando com outras crianças, eu esqueço o celular. É diferente, a gente interage”, afirma. 

Essas falas revelam uma relação mais orgânica com o brincar, que sobrevive onde o espaço e o tempo ainda permitem que a rua seja extensão da casa.

Brincar e planejar

Para Eliziane, a brincadeira do filho precisa de um roteiro quase tanto quanto um trabalho. 

“A gente tenta limitar o tempo de tela. Ele assiste um pouco antes da escola e um pouco à noite, umas uma hora e meia no total. Depois, tentamos brincar ou envolver ele nas tarefas da casa. Mas, com 4 anos, ele ainda não brinca muito tempo sozinho”, lembra. 

A rotina de Marcelo, como a de muitas crianças das grandes cidades, é marcada pela ausência de espaços públicos adequados para brincar. 

“Aqui perto não tem pracinha, os brinquedos das poucas que existem estão quebrados. A gente mudou de apartamento procurando um lugar com mais área, mas não tem essa dinâmica de comunidade. Cada família no seu corre”, chama a atenção.

A jornalista diz que, na tentativa de oferecer algo além das telas, passou a levar o filho a parques e atividades culturais. 

“Tem um programa da prefeitura chamado A Rua é Nossa, na avenida Silva Lobo. A gente já foi com o Marcelo. Para você tirar uma criança da tela, você vai recorrer aos recursos antigos”, completa. 

Imaginação e a tela

Mesmo com as dificuldades, Eliziane reconhece que as telas também podem trazer ganhos. 

“A gente seleciona o conteúdo: contação de histórias, vídeos sobre folclore, coisas educativas. O Marcelo aprende muito, faz conexões com o que vê no teatro ou nos livros”, diz.

Ela diz que o equilíbrio é a chave, ainda que difícil de alcançar.  “A tela é confortável, porque a criança fica quieta. Mas criança quer explorar, quer bagunçar, quer companhia. A gente tenta achar o meio-termo”, observa. 

Entre o ontem e o agora

Enquanto isso, no Palmital, as crianças seguem inventando mundos sem precisar de Wi-Fi. 

“A gente criou uma brincadeira chamada do papai e do cachorro”, diz Nicolas, 10 anos, orgulhoso da própria criação. “A gente inventa tudo na nossa mente”, continua.

Essas invenções talvez sejam o que ainda mantém viva a ponte entre gerações. De um lado, mães como Eliziane, que equilibram o trabalho, a maternidade e a criatividade mesmo em meio às atribulações do dia a dia. Do outro, crianças como Beatriz, Eduarda e Luan mostram que brincar, seja com corda, bola ou chinelo, ainda é um dos maiores presentes que uma infância pode ganhar.

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Fonte: Brasil de Fato

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