Em um texto antigo, afirmei que o Brasil deu certo. Mas que Brasil? O país projetado pelos homens do poder para ser excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador e grosseiro. Esse Brasil que manifesta o horror em chiliques raivosos ancorados no argumento canalha de defesa da pátria.
De minha parte, quero distância desses sicofantas enrolados em bandeiras, brandindo bíblias e bazucas nos púlpitos e alpendres de casas grandes.
Não abro mão, todavia, de me dizer patriota. A minha pátria, porém, é o chão que piso, a língua encruzada que falo, a canção que escuto. Se a razão é internacionalista; meu coração balança numa rede bordada na terra da minha avó.
A minha pátria navega no encanto dos ijexás, no assombros dos transes dos caboclos e nas mãos calejadas que seguram a corda de Nossa Senhora de Nazaré. É ela que ribomba em mim como sensação de pertencimento. Vez por outra faço promessa a São Longuinho quando penso que perdi o Brasil. Ele me ajuda a achar de novo.
O que fazer quando o repique anuncia a entrada da bateria, quando o sax fraseia Pixinguinha, quando o baque dos tambores misteriosos desperta a hora grande e o rum vira para Oyá domar o afefé e pairar, soberana entre relâmpagos, sobre o resto do mundo?
Mais de ritos que de fé, uma canção praieira de Caymmi restaura em mim a crença na minha terra. Basta Luiz Gonzaga para que a beleza intangível do fole no resfolego me reconcilie com o que parece perdido entre a noite que não se acaba e o dia que não chega.
A minha pátria, bem distante do reduto dos canalhas raivosos, é um delírio que conforta entre o gole e o gol. É aquilo que ilumina meus olhos, comove meu peito e rega as minhas palavras, para que eu conte as histórias que ouvi da minha avó ao meu filho, no contínuo descortinar da vida; arte maior de tremer o chão com o ixan e reverenciar o mistério intuído dos ancestrais.
É ela que me aconchega, é nela que eu moro e dela ninguém me tira. E é só por estar entranhado nela que, paradoxalmente, me arvoro a ser um cidadão do mundo.



