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Após mais de 40 dias fora de casa, Gabriela Tolotti (Gabi), presidenta do Psol no Rio Grande do Sul, retornou ao estado nesta quinta-feira (9) após participar da Global Sumud Flotilla, missão humanitária internacional que tentou romper o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza. Ela foi uma das 14 brasileiras integrantes da flotilha, formada por cerca de 500 ativistas em 44 embarcações, que levaram ajuda humanitária e denunciaram o cerco ao território palestino. Durante a ação, Tolotti e os demais participantes foram interceptados e detidos pelo Exército israelense. A militante passou seis dias presa.
Emocionada e visivelmente cansada, e ainda com as roupas da prisão, com uma hatta (lenço), símbolo da resistência Palestina no pescoço, Tolotti chegou no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, por volta das 16 horas. No local foi recebida pela sua sobrinha, seu namorado, o cachorro Seu Vabgem, por militantes do Psol, representantes de sindicatos, movimentos sociais e partidos aliados, como o PT e o PCdoB. Também estiveram presentes figuras políticas como o ex-deputado Raul Carrion.
“À presença de todos vocês, muito obrigada. Desde os primeiros dias da flotilha eu dizia que o sucesso da missão dependeria do apoio fora dos barcos. E conseguimos isso. Nossa missão era abrir um corredor humanitário e levar os olhos do mundo a Gaza, e conseguimos romper o cerco, chegando a 26 milhas náuticas da costa”, afirmou.

Interceptação e prisão
Segundo Tolotti, o barco em que estava chegou a 75 milhas náuticas da Faixa de Gaza antes de ser interceptado. Outro barco conseguiu avançar até 26 milhas. “Fomos interceptados com metralhadoras e laser apontados para a testa, não com jatos d’água, como disseram em alguns jornais. Estávamos em uma missão humanitária e não violenta, mas mesmo assim eles vieram com armas. Ficamos doze horas sob ataque e resistência. Demos muito trabalho a Israel”, relatou.
A presidenta do Psol detalhou as condições da prisão em que foi mantida, localizada no deserto, próxima à Faixa de Gaza, uma unidade destinada a detentos classificados como “terroristas”. “Eu estava em uma cela com cinco mulheres: quatro italianas, uma francesa, uma americana e uma espanhola. Foi a cela mais combativa que aquele exército já teve. Havia quatro mulheres menstruadas, e recebíamos apenas um absorvente por dia. Quando pedimos mais e eles recusaram, fizemos um protesto. Só voltamos para a cela depois que trouxeram uma caixa de absorventes. Até na prisão, só a luta muda a vida”, disse.
Tolotti destacou que, nos últimos dois anos, 70 pessoas morreram sob custódia do Estado israelense na mesma prisão. “Um deles era um menor de idade, que morreu de fome. Quando fizeram a autópsia, ele estava severamente desnutrido. Isso mostra o nível de violação que o povo palestino enfrenta. Não é um caso isolado. É um sistema de extermínio”, denunciou.
A ativista também relatou que, ao desembarcar, foi obrigada a permanecer ajoelhada por mais de uma hora sob sol forte, até a chegada do ministro da Defesa, Itamar Ben-Gvir. “Ficamos de joelhos no concreto, como se estivéssemos rezando, enquanto ele tirava fotos dizendo que estávamos sendo tratados como terroristas. Esse é o retrato do Estado sionista.”
Segundo ela, houve uma polêmica entre o ministro das Relações Exteriores e Ben-Gvir, sobre o destino dos prisioneiros da flotilha. “O Ben-Gvir queria que a gente ficasse encarcerada pelo resto da vida”, contou. “Mas o ministro das Relações Exteriores, pressionado pela mobilização internacional, começou a exigir nossa libertação. Foi a pressão dos protestos no mundo inteiro que venceu a linha dura de Ben-Gvir. A gente está aqui hoje, sã e salva, porque a solidariedade internacional nos garantiu isso.”

“Gaza vive e resiste”
Para Tolotti, a Global Sumud Flotilla cumpriu seu papel ao atrair atenção internacional e fortalecer o apoio à Palestina. “A população de Gaza conseguiu pescar naquele dia. Isso é simbólico. Eu acho que é simbólico porque a flotilha não precisa existir, a gente não precisa levar alimentos para Gaza se eles não etiverem sobre custódia militar. Eles têm os seus alimentos. Eles pescam, eles trabalham, eles se organizam. Eles precisam da nossa ajuda porque um Estado sionista está matando eles todos os dias.”
Durante o voo de retorno ao Brasil, a militante soube do acordo de cessar-fogo anunciado no conflito. “Não é a libertação da Palestina, mas é um passo importante. As pessoas puderam dormir com a certeza de que não seriam bombardeadas. Se fosse por Netanyahu, Gaza já teria sido exterminada. O cessar-fogo é fruto da resistência palestina e da pressão internacional. Gaza respira, Gaza vive e Gaza resiste”, declarou.
Questionada sobre a continuidade do tratado, Tolotti afirmou que ele precisa avançar para garantir o direito histórico dos palestinos à terra. “Desde a Nakba, o povo palestino tem o direito de retornar. Precisamos criar condições para que isso aconteça, para que sejam donos do território que é deles há séculos”, disse.
Dias sem comunicação e resistência internacional
Sobre os dias que passou sem contato com o exterior, o que aumentou a angústia de familiares e companheiros, falou: “Foi muito difícil, porque sabíamos o que estava acontecendo lá dentro, mas o mundo aqui fora não. Nossos advogados não puderam entrar. Todas as violações de direitos humanos que existem, jurídicas, privação de sono, de alimentação, cachorro dentro da cela, metralhadora, todas essas coisas, mas estamos aqui”, contou.
Tolotti recordou um episódio em que autoridades israelenses tentaram forçar as italianas a assinarem a deportação voluntária durante o Shabat, dia sagrado para os judeus. “Uma delas disse para não assinar porque o mundo está queimando mais do que a gente imagina. Talvez vocês tenham uma parte do futuro da Palestina com vocês. E foi essa pressão internacional que nos salvou. Chegou um momento em que percebemos que eles não iam nos tocar”, relatou.
Segundo a dirigente, ainda há seis integrantes da flotilha presos, entre eles uma espanhola que foi agredida durante a detenção. “A missão segue. A flotilha está avaliando os próximos passos, e já há mobilizações marcadas no Brasil”, disse.
“Tentaram nos quebrar e não conseguiram”
Tolotti destacou o papel das mulheres e dos movimentos internacionais na resistência. “Tentaram nos quebrar e não conseguiram. A gente se inspira no povo palestino, que resiste há décadas. Nenhum povo será livre enquanto todos os outros não forem.”
Para ela, a missão representou também um gesto de solidariedade ativa. “Tenho orgulho de ter sido formada em uma corrente política que tem o internacionalismo como eixo. A Palestina não precisa ser salva, ela resiste. Mas o mundo precisa olhar para lá. Nosso papel é garantir que esses olhos não se desviem”, declarou.
Em entrevista no local, Tolotti agradeceu o acolhimento. “Acabei de chegar em Porto Alegre, muito bem recebida. Estou embarcada desde 1º de setembro e parece que vivi dez anos em 40 dias. Tenho muito orgulho dessa missão, que fez parte da história. “Ela também lembrou dos mais de 250 jornalistas mortos cobrindo o genocídio.
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Fonte: Brasil de Fato



