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Evitei acompanhar os desdobramentos de um caso de crueldade animal pois sou apaixonada por bichos, especialmente os cachorros, com quem tenho uma vida de laços e de afetos de valor inenarrável.
Mas os últimos dias deram uma visibilidade ao caso do cãozinho Orelha, torturado de forma sádica e encontrado agonizando, sem que pudesse ser salvo. O episódio ocorreu na Praia Brava, zona nobre de Florianópolis, onde vivia pacificamente e cercado de cuidados comunitários.
A história ficou muito difícil de ser ignorada, especialmente pelos depoimentos que surgiam e indicavam uma inação das autoridades na busca pelos responsáveis pela tortura e assassinato. Orelha foi um dos termos mais citados nas redes sociais em um final de semana de marcha política pela liberdade de Jair Bolsonaro.
As autoridades confirmaram que há quatro menores de idade envolvidos no caso e dois já estão no exterior. O Estatuto da Criança e do Adolescente protege suas identidades, mas, aos poucos, diante da falta de respostas das instituições, nomes com sobrenomes pomposos surgiram e revelaram o que estava por trás da notícia: adolescentes da alta sociedade teriam protagonizado o crime.
O fato se tornou notório também por isso. E para quem vive em Santa Catarina no ano de 2026 o acontecimento não deixa de ser simbólico de muitas outras particularidades regionais. Um estado oligárquico, em que o poder passa de pai para filho, jamais permitiria que um descendente de nobre fosse julgado ou condenado como criminoso.
Aqui, quando as forças se movem contra a elite econômica e financeira, o sistema blinda e dá tempo para que jovens que se divertem torturando uma vida passeiem por outros países em intercâmbios caros, pagos com os mesmos recursos que irão financiar os melhores escritórios de advocacia caso seja necessário.
Adolescentes homens também vêm sendo sistematicamente alvo de uma bolha potencializada pelas redes sociais. A chamada bolha incel e red pill, alimentada por algoritmos que lucram com o ódio, transformam meninos em um exército de homens cruéis, movidos por uma masculinidade tóxica que se forma também pela força. A mesma força com que atacaram Orelha.
Sou radicalmente contra a redução da maioridade penal e defendo que esses adolescentes respondam pelo crime como responderiam infratores de outras cores e classes sociais: com o rigor da lei. Mas não perdôo seus pais e não faço vista grossa para as suas escolas caras, cada vez mais opacas e menos comprometidas com uma formação ética e cidadã, com uma formação para a tolerância, o amor e o respeito. Uma escola boa para a elite ensina idiomas, mas não ensina gentilezas.
Nesta segunda-feira, a Polícia Civil de Santa Catarina se moveu, cinco dias após uma vereadora de Florianópolis denunciar assédio moral e coação contra um funcionário de um condomínio que testemunhou o caso. O governo do Estado pôs a máquina policial e midiática para funcionar diante da pressão das hashtags, de protestos presenciais ao longo do final de semana e do clamor popular.
A punição será bem-vinda e talvez preventiva para evitar que os mesmos jovens cometam atos de violência contra outros animais e contra seres humanos. O triste episódio que transformou um cãozinho simpático e amado num ícone da luta contra a crueldade também serve para nos ensinar que enquanto a elite flertar com a impunidade não haverá justiça. E isso diz mais sobre gente do que sobre bichos.
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