Na semana passada publiquei um desabafo de poucas linhas no LinkedIn com a frase “ninguém aguenta mais IA”.
Muitas pessoas compartilharam a sensação de estar menos afiado, mais cansado e soterrado de coisas para fazer e o post passou de 160 mil visualizações e mais de 140 comentários. Uma parcela comentou que o problema era de quem não sabe usar a ferramenta e boa parte desses críticos são desenvolvedores de software, que escrevem código, a área em que a IA de fato entrega melhores resultados.
A IA funciona para muitas coisas e uso todo dia. Não é isso que está em questão e sim a (auto) exigência por produtividade. O custo de começar um projeto despencou e hoje dá para testar dez ideias e gerar as primeiras versões numa tarde. Acontece que nossa capacidade de entender, escolher, revisar e finalizar esses projetos continua a mesma. Esse ganho de produtividade vira uma expectativa de produção e, em vez de fazermos as mesmas coisas em menos tempo, fazemos ainda mais mais no mesmo tempo.
O Washington Post reuniu pesquisas que detalham essa sensação de cansaço. Num estudo com consultores do Boston Consulting Group, quem usou o GPT-4 fez 12% mais tarefas e terminou 25% mais rápido. Quando a tarefa ficava além do que o modelo fazia bem, os mesmos usuários erraram mais do que os colegas sem IA. Um outro experimento batizou de rendição cognitiva o hábito de abrir mão do próprio julgamento, mesmo que os bots gerem muitas respostas erradas.
O CEO do Airbnb disse que o formato de repostas de um chatbot não serve para descobrir viagens, porque pesquisar e sonhar com o destino, muitas vezes em grupo, já é parte da viagem. No New York Times, uma designer do estúdio Pentagram defendeu o que ela chamou de desvio no processo criativo e apontou o risco de uma ferramenta que entrega algo com cara de resultado pronto mesmo antes da ideia existir.
Nenhum dos dois recusa a tecnologia. Ambos separam as tarefas em que só interessa o resultado daquelas em que o caminho produz o valor. No episódio 384 do RESUMIDO comentei um sinal de consumo dessa mesma ressaca, a volta dos fones com fio e dos CDs.
A indústria vende a ideia de que todo processo possível seja acelerado e mede o trabalho por volume e velocidade, não pela qualidade. Essa régua só interessa a quem vende a ferramenta. Antes de aprender a “usar melhor a IA”, como se diz muito hoje em dia, é bom decidir para que usar. Em certas tarefas, pensar passou a ser a parte mais importante do trabalho.



