[ad_1]
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x
O escritor, ensaísta, romancista, professor, poeta e tradutor brasileiro Silviano Santiago, vencedor do Prêmio Camões de 2022, afirmou não se arrepender de ter devolvido, em 1976, o green card que lhe permitia viver nos Estados Unidos. “Devolvi para não ter a tentação de voltar (para os EUA) e não me arrependo, sobretudo agora, com Donald Trump como presidente”, disse em entrevista ao PÚBLICO Brasil durante passagem por Lisboa.
Aos 89 anos, Santiago revisitou no diálogo com o portal português sua trajetória como acadêmico e escritor, e criticou duramente o avanço de movimentos anti-imigração nos EUA, onde viveu e lecionou por mais de uma década, e em Portugal, que recentemente viu o Tribunal Constitucional derrubar um pacote de medidas contra estrangeiros. Para ele, essas políticas carregam “uma clara questão étnica, ou seja, racista”.
O “cosmopolitismo do pobre” e a defesa da imigração
Autor do ensaio O Cosmopolitismo do Pobre (2002), Santiago explicou ao PÚBLICO Brasil que o texto analisa a migração de mexicanos pobres para os EUA nas décadas de 1930 e 1940. Eles recebiam “os piores salários”, mas passavam a viver uma vida cosmopolita, criando condições para que os filhos pudessem ascender socialmente — algo que, segundo ele, guarda paralelos com as cotas raciais no Brasil.
“A imigração foi e continua sendo importante para o desenvolvimento dos EUA, de Portugal e do próprio Brasil”, afirmou. Ele considera grave que sociedades construídas por imigrantes avancem para políticas de “desclassificação social violenta” contra determinados grupos, com recorte étnico evidente.
O olhar sobre o preconceito e a imigração
Questionado sobre o ataque à imigração em vários países, inclusive em Portugal, Santiago destacou sua experiência pessoal como imigrante nos Estados Unidos com green card e o ensaio que escreveu em 2002, O Cosmopolitismo do Pobre.
“Trata-se da questão migratória que começa, pelo menos no Ocidente, com os mexicanos pobres, o pachuco que vai trabalhar nos EUA. Você é o mais pobre dos mexicanos e é obrigado a levar uma vida cosmopolita sem o ser”, explicou ao PÚBLICO Brasil. Segundo ele, isso gera “questões horrorosas do ponto de vista da distribuição de renda, porque são os piores salários, mas, ao mesmo tempo, abre a possibilidade de melhoria de vida para as gerações futuras”.
Ele compara essa dinâmica ao sistema de cotas no Brasil, que possibilita que filhos de grupos historicamente marginalizados se tornem médicos, advogados e doutores, quebrando ciclos de exclusão.
Para Santiago, a desclassificação social violenta, que afeta determinados segmentos da população nos EUA, não é por acaso: “Tem um caráter étnico”. A imigração, na visão dele, foi e continua sendo fundamental para o desenvolvimento dos Estados Unidos, de Portugal e do Brasil.
Ele lembrou sua decisão de devolver o green card em 1976, para não se sentir tentado a retornar aos EUA, especialmente após o avanço de Donald Trump na presidência.
“Não me arrependo mesmo”, afirmou.
Aproveitou para reforçar que, hoje, é preciso fazer da literatura uma profissão para sobreviver, algo que ele não precisou fazer. “Eu poderia, se quisesse, e optei por não precisar. Daí o fato de ter me tornado professor de literatura. Toda a minha vida eu me autossustentei como professor”, concluiu.
A “convulsão” da literatura brasileira
Santiago também fez uma avaliação do cenário cultural brasileiro. Disse ao PÚBLICO Brasil que a literatura nacional vive uma “verdadeira convulsão”, que considera “indispensável” e, espera, “necessária”. Para ele, o desafio da nova geração é encontrar sua própria linguagem, reinterpretar o passado e lidar com questões históricas: “Não é uma tarefa fácil, porque implica não em uma rejeição do passado, mas em uma releitura do passado que seja capaz de, ao mesmo tempo, tocar naquilo que é equívoco e abrir possibildade de novas dicções”.
Segundo o escritor, isso envolve, “em primeiro lugar, a identidade nacional, que nunca foi bem resolvida” e, agora, uma identidade “muito mais complexa e mais difícil, porque exige uma nova expressão, conectada, obviamente, com o genocídio indígena e com a escravização do africano”. Santiago destacou que há representantes desses grupos tanto na literatura quanto nas artes plásticas e no teatro, e que o momento atual é de uma literatura “anfíbia, com um pé na estética e outro na política”.
Ele afirma que não é o momento de apontar nomes, mas de reconhecer a necessidade de obras relevantes, que unam densidade artística e impacto social. Ao contrário de sua época, quando havia um dilema entre fazer boa literatura ou produzir algo comercial, hoje “é preciso viver da literatura” e conciliar qualidade com viabilidade de mercado.
Inteligência artificial e a literatura
Sobre o impacto da tecnologia, Santiago disse ao PÚBLICO Brasil não ver necessidade de afastar as pessoas das redes sociais, mas sim de evitar a repetição automática de padrões, uma característica também da inteligência artificial (IA).
“A IA não substitui a curiosidade humana. Ela pode fazer o relato de um livro, mas não escrever uma obra nem fazer a crítica, que é sempre um exercício da discórdia”, afirmou. Para ele, a contribuição humana está em formular perguntas que a IA não consiga responder, estimulando assim o raciocínio próprio.
Obra “Cosmopolitismo do Pobre” (2004), de Silviano Santiago
A língua portuguesa e o “falar brasileiro”
Na entrevista, Santiago também comentou sobre o preconceito linguístico que alguns brasileiros enfrentam em Portugal. “Em Portugal se diz que os cidadãos oriundos do Brasil falam ‘brasileiro’, não português. Eu só posso acreditar que isso se trata de ingenuidade, porque o português se enriquece com a sua diversidade”, afirmou.
Para ele, “ser a favor de um fechamento da língua portuguesa no próprio território que é o responsável pela sua difusão é não querer enxergar que é, na divulgação para outros países, com seus efeitos negativos e positivos, que se fortalece a língua”. Santiago ressaltou que, ao longo dos séculos, desde a colonização, o português se enriqueceu muito justamente por sua circulação e mistura.
Defensor da ideia de que “a língua é viva” e deve se renovar, ele destacou que todos os países que falam português, cada um à sua maneira, contribuem para a disseminação, o enriquecimento e a preservação do idioma. “Quanto mais gente falar uma língua, mais ela se torna universal. Não será o esperanto uma língua universal”, disse ao portal.
O desafio de viver da literatura
Ao PÚBLICO Brasil, Santiago foi questionado se é difícil ser escritor no Brasil. Ele respondeu que essa pergunta já não é mais sobre ele — afinal, completará 89 anos em setembro —, mas sobre a nova geração.
Lembrou que, em sua época, havia um dilema claro: “ou você fazia boa literatura ou você fazia um produto comercial”. Naquele tempo, conta, podia se dar ao luxo de escrever um livro que tivesse apenas uma primeira edição. “Hoje, você tem de viver da literatura”, disse. Para ele, muitos autores contemporâneos não têm as condições econômicas que sua geração, de origem pequeno-burguesa, possuía.
“É preciso descobrir essa fórmula. Existe uma necessidade, mas é preciso saber se ela se tornará indispensável. Essa necessidade de produzir alguma coisa que seja passível de consumo, porque, se não houver consumo, não haverá as condições de sobrevivência que uma pessoa da minha geração tinha. Hoje, é preciso fazer da literatura profissão. Eu não precisava”, afirmou.
Por isso, optou por sustentar-se como professor de literatura, evitando depender do mercado editorial. Doutorado pela Sorbonne, iniciou carreira acadêmica nos Estados Unidos em 1962, onde foi “muito bem pago” e responsável por iniciativas que, segundo ele, “devem ficar mais evidentes” em breve. Essas histórias devem aparecer em uma biografia escrita por João Pombo Barile, a ser lançada pela editora Autêntica, que já está praticamente finalizada.
Cultura e o poder da palavra
A entrevista ao PÚBLICO Brasil também abordou a música e o teatro. Santiago defendeu que o Brasil não perdeu sua criatividade musical e que não é preciso “jogar no lixo” a tradição da MPB, mas sim trabalhar os equívocos da produção artística atual: ” A nova geração terá de ter coragem de assumir isso”.
Questionado sobre sua ligação forte com o teatro, ele revelou que a paixão veio “do amor pelas imagens que tinham nos gibis (revistas em quadrinhos)”. Antes mesmo de se dedicar à literatura, foi crítico de cinema. “Sou uma pessoa paradoxal: isso tudo me levou a duvidar do poder da imagem”, afirmou.
Santiago contou que um mentor do Clube do Cinema lhe recomendou três obras fundamentais: ABC of Reading, de Ezra Pound; Páginas da Doutrina Estética, de Fernando Pessoa; e Os Moedeiros Falsos, de André Gide. “Comecei com esses três livros, que eu não entendi na época, mas que foram muito importantes para mim, pois me deram um patamar do que a palavra poderia me oferecer, sendo eu um grande apreciador das imagens.”
Ele explicou que seu raciocínio a partir da palavra era muito diferente do que desenvolvia a partir das imagens, e foi justamente esse gosto pela imagem que coincidiu com seu despertar para a literatura e seu interesse pelo teatro. Ainda no palco, participou de montagens como A Voz Humana, A Nossa Cidade, Fim de Jogo e Crime na Catedral. Mais recentemente, colaborou com Bia Lessa na montagem e adaptação cinematográfica de Grande Sertão: Veredas.
Machado de Assis e novos projetos
Atualmente, Santiago prepara uma leitura dos cinco últimos romances de Machado de Assis, defendendo que o autor criou a moderna narrativa subjetiva em língua portuguesa. “Ele tratou o preconceito na intimidade, onde ele é mais forte”, explicou ao PÚBLICO Brasil.
Uma biografia sobre sua vida e obra, escrita por João Pombo Barille, será lançada em breve pela editora Autêntica, reunindo sua trajetória acadêmica e literária nos EUA e no Brasil.



