Em 2025, o mundo destinou US$ 2,88 trilhões em armamentos, um volume inédito e superior a todo o PIB do Brasil. Mesmo com uma queda nos gastos militares dos EUA por conta da falta de apoio para à defesa da Ucrânia, o planeta registrou o 11o ano consecutivo de aumento de seu orçamento para a guerra.
Os dados estão sendo publicados nesta segunda-feira pelo Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI), o principal banco de dados sobre gastos militares e com sede da Suécia.
Em uma década, o mundo registrou um aumento de 41% em gastos militares. Segundo o instituto, trata-se do “maior nível de gastos jamais registrado pelo SIPRI”.
De acordo com o levantamento, o aumento em 2025 foi de 2,9% em termos reais em relação a 2024. Os gastos militares diminuíram nos Estados Unidos, mas aumentaram 14% na Europa e 8,1% na Ásia e Oceania. Os três países que mais gastam com defesa — EUA, China e Rússia — gastaram um total combinado de US$ 1,480 trilhão, ou 51% do total global.
Para os pesquisadores, o rearmamento e aumento da insegurança alimentam aumentos generalizados nos gastos. Em termos percentuais e em relação ao PIB do planeta, trata-se do maior volume desde 2009.
O aumento anual de 2,9% foi menor do que a alta de 9,7% registrada em 2024. Mas isso ocorreu em grande parte por conta da queda de 7% dos gastos dos EUA, que não aprovaram nenhum tipo de ajuda para a Ucrânia em 2025.
Os dados não incluem nem a guerra no Irã e nem a situação na Venezuela, ambas em 2026. Fora dos EUA, os gastos totais cresceram 9,2% em 2025.
Xiao Liang, pesquisador do Programa de Gastos Militares e Produção de Armas do SIPRI, acredita que “dada a gama de crises atuais, bem como as metas de gastos militares de longo prazo de muitos estados, esse crescimento provavelmente continuará até 2026 e além.”
Brasil
O Brasil aparece como o 21o maior orçamento militar do mundo, a mesma posição que ocupava em 2024. Mas o volume aumentou em 13%, somando US$ 23,9 bilhões. Em uma década, porém, o crescimento foi de apenas 1,6%. Se em 2016 o orçamento militar representada 1,3% do PIB do país, ele caiu para 1,1% em 2025.
No mundo, o Brasil representa 0,8% dos gastos militares contra 33% nos EUA, 12% na China e 6% na Rússia.
“As despesas militares da América do Sul totalizaram US$ 56,3 bilhões em 2025, um aumento de 3,4% em relação a 2024 e de 5,7% em relação a 2016”, diz o levantamento. “O Brasil, o país que mais investiu na sub-região, aumentou seus gastos militares em 13% em 2025, para US$ 23,9 bilhões”, explicou. “O aumento deveu-se principalmente ao aumento do investimento no desenvolvimento tecnológico naval e aos maiores custos com pessoal militar”, disse.
Na região, as despesas militares da Guiana aumentaram 16%, para US$ 248 milhões em 2025, impulsionadas pela escalada das tensões com a Venezuela sobre a região petrolífera de Essequibo. O efeito dessa escalada nos gastos militares da Venezuela é desconhecido, já que o país não divulga publicamente seus números de despesas há vários anos.

Trump e “seu” hemisfério
Com US$ 954 bilhões, os gastos militares dos Estados Unidos foram 7,5% menores em 2025 do que em 2024. A queda se deveu principalmente ao fato de que nenhuma nova assistência militar financeira para a Ucrânia foi aprovada durante o ano. Isso contrastou fortemente com os três anos anteriores, quando um total de US$ 127 bilhões foi aprovado.
No entanto, os EUA aumentaram os investimentos em capacidades militares nucleares e convencionais para manter a dominância no Hemisfério Ocidental e dissuadir a China no Indo-Pacífico, que são objetivos-chave da nova Estratégia de Segurança Nacional.
“A queda nos gastos militares dos EUA em 2025 provavelmente será de curta duração”, disse Nan Tian, Diretor do Programa de Gastos Militares e Produção de Armas do SIPRI. “Os gastos aprovados pelo Congresso dos EUA para 2026 ultrapassaram US$ 1 trilhão, um aumento substancial em relação a 2025, e podem subir ainda mais para US$ 1,5 trilhão em 2027 se a mais recente proposta orçamentária do presidente Trump for aceita.”

Europa: maior aumento desde fim de Guerra Fria
Em 2025, o principal fator para o aumento global nos gastos militares foi o salto de 14% na Europa, para US$ 864 bilhões. Os gastos da Rússia e da Ucrânia continuaram a crescer no quarto ano da guerra na Ucrânia, enquanto os esforços contínuos de rearmamento dos membros europeus da OTAN levaram ao maior crescimento anual nos gastos na Europa Central e Ocidental desde o fim da Guerra Fria.
Os gastos militares da Rússia cresceram 5,9% em 2025, para US$ 190 bilhões, elevando seu ônus militar para 7,5% do PIB. A Ucrânia, o sétimo maior gastador em 2025, aumentou seus gastos em 20%, para US$ 84,1 bilhões, ou 40% do PIB.
“Em 2025, os gastos militares como percentual dos gastos governamentais atingiram o nível mais alto já registrado tanto na Rússia quanto na Ucrânia”, disse Lorenzo Scarazzato, pesquisador do Programa de Gastos Militares e Produção de Armamentos do SIPRI. “Se a guerra continuar, é provável que seus gastos continuem crescendo em 2026, com o aumento das receitas das vendas de petróleo da Rússia e a expectativa de um grande empréstimo da União Europeia para a Ucrânia.”
Os 29 membros europeus da OTAN gastaram um total combinado de US$ 559 bilhões em 2025, e 22 deles tiveram gastos militares de pelo menos 2,0% do PIB. A Alemanha foi o país que mais gastou com defesa no grupo, com seus gastos crescendo 24% ao ano, chegando a US$ 114 bilhões. O ônus militar da Alemanha ultrapassou o limite de 2,0% pela primeira vez desde 1990, atingindo 2,3% do PIB em 2025.
Os gastos militares da Espanha aumentaram 50%, para US$ 40,2 bilhões, elevando também seu ônus militar acima de 2,0% do PIB pela primeira vez desde 1994.
“Em 2025, os gastos militares dos membros europeus da OTAN cresceram mais rapidamente do que em qualquer outro momento desde 1953, refletindo a busca contínua pela autossuficiência europeia, juntamente com a crescente pressão dos Estados Unidos para fortalecer a divisão de encargos dentro da aliança”, disse Jade Guiberteau Ricard, pesquisadora do Programa de Gastos Militares e Produção de Armas do SIPRI. À medida que os Estados se esforçam para cumprir as novas metas de gastos da OTAN acordadas em 2025, existe o risco de que as fronteiras entre os gastos militares e outros gastos “relacionados à defesa e segurança” se tornem difusas, reduzindo a transparência e complicando ainda mais a avaliação das capacidades militares.
Oriente Médio
Já os gastos militares no Oriente Médio atingiram um valor estimado de US$ 218 bilhões em 2025, apenas 0,1% a mais do que em 2024.
Os gastos militares da Arábia Saudita aumentaram 1,4%, atingindo US$ 83,2 bilhões, tornando-a o oitavo maior gastador militar do mundo.
Os gastos militares de Israel diminuíram 4,9%, para US$ 48,3 bilhões, refletindo uma redução na intensidade da guerra em Gaza durante 2025, após o acordo de cessar-fogo com o Hamas em janeiro de 2025. Mesmo assim, os gastos de Israel permaneceram 97% maiores do que em 2022. Os gastos militares da Turquia cresceram 7,2% em 2025, para US$ 30 bilhões, impulsionados em parte por suas operações militares em andamento no Iraque, Somália e Síria.
Os gastos do Irã diminuíram pelo segundo ano consecutivo, caindo 5,6%, para US$ 7,4 bilhões em 2025. A queda em termos reais foi devido à alta inflação anual de 42%, enquanto os gastos aumentaram em termos nominais.
“Apesar dos conflitos recentes, os gastos militares do Irã diminuíram em termos reais devido às dificuldades econômicas”, disse Zubaida Karim, pesquisadora do Programa de Gastos Militares e Produção de Armamentos do SIPRI. “No entanto, os números oficiais quase certamente subestimam o verdadeiro nível de gastos do Irã — o Irã também usa receitas petrolíferas extraorçamentárias para financiar suas forças armadas, incluindo a produção de mísseis e drones.”
Ásia: China tem 31º ano consecutivo de aumento
Os gastos militares na Ásia e Oceania totalizaram US$ 681 bilhões em 2025, 8,1% a mais do que em 2024 — o maior aumento anual desde 2009. A China, o segundo maior gastador militar do mundo, aumentou seus gastos militares em 7,4%, para US$ 336 bilhões. Este foi o 31º aumento anual consecutivo, à medida que a China continua seu programa de modernização militar. Uma campanha renovada contra a corrupção nas aquisições militares não parece ter restringido os gastos.
Os gastos militares do Japão aumentaram 9,7%, atingindo US$ 62,2 bilhões em 2025, o equivalente a 1,4% do PIB — a maior participação desde 1958.
“Os aliados dos EUA na Ásia e Oceania, como Austrália, Japão e Filipinas, estão gastando mais com suas forças armadas, não apenas devido às tensões regionais de longa data, mas também devido à crescente incerteza sobre o apoio dos EUA”, disse Diego Lopes da Silva, pesquisador sênior do Programa de Gastos Militares e Produção de Armas do SIPRI. “Assim como na Europa, os aliados dos EUA na Ásia e Oceania também estão sob pressão do governo Trump para gastar mais com suas forças armadas.”
Já a Índia, o quinto maior gastador militar do mundo em 2025, aumentou seus gastos militares em 8,9%, para US$ 92,1 bilhões. Os gastos militares do Paquistão aumentaram 11%, para US$ 11,9 bilhões.




