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Por Cleber Lourenço
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que não vê “clima” para conceder anistia a envolvidos no 8 de janeiro que “planejaram matar pessoas” durante a tentativa de golpe. A declaração, feita em entrevista à GloboNews, estabelece um marco público nas discussões sobre o tema, que ainda está em tramitação no Congresso e vem sendo alvo de forte pressão de setores bolsonaristas e aliados para um perdão irrestrito.
Durante a entrevista, Motta também afirmou: “Não podemos ter preconceito com pautas, porque isso é interromper o debate. As matérias devem continuar sendo levadas ao colégio de líderes, que decide se vai ou não pautar. A pauta do foro é complexa, precisa saber qual é o texto e qual o objetivo. Há incômodo com decisões do Supremo, mas não vejo um sentimento de ampla maioria”.
Nos bastidores, o pronunciamento de Motta é interpretado como parte de uma estratégia para reafirmar seu comando sobre a pauta legislativa e a própria autoridade à frente da Casa. A fala ocorre poucos dias após a crise política causada pelas ocupações do plenário por parlamentares da oposição. Naquele episódio, as negociações para encerrar o impasse foram conduzidas diretamente entre a oposição e o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), sem a participação direta de Motta.
Motta segue extremamente incomodado com o fato de ter sido “pulado” pela oposição e vê nisso uma tentativa deliberada de esvaziar seu papel político.
O presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta
Motta diz que não fez acordo por anistia
Sobre isso ele também falou em entrevista: “Como posso validar um acordo do qual não participei? Não deleguei ao presidente Arthur [Lira] fazer acordo por mim e não pactuei nenhum acerto para reiniciar os trabalhos. Eu decidi não pautar”.
O ressentimento se agrava por ele também ter perdido a discussão na Mesa Diretora sobre o afastamento cautelar dos 14 deputados bolsonaristas denunciados por participação no motim. Sua proposta de suspensão imediata foi derrotada, e os casos seguiram para o Conselho de Ética, frustrando o plano de uma resposta rápida e contundente.
Essa semana ele chegou a dizer para deputados da oposição que eles deveriam buscar o Lira para tentar destravar a anistia, o comentário foi feito em tom irônico e provocativo.
Aliados afirmam que as declarações contra uma anistia ampla funcionam como uma forma de Motta mostrar que mantém o controle da pauta e, consequentemente, da própria Câmara. Para ele, endurecer o discurso é uma maneira de reconquistar o protagonismo e reafirmar seu poder interno, após uma sequência de episódios que minaram sua autoridade no comando da Casa.



