Por Artur Búrigo, Aléxia Sousa e Bárbara Sá
(Folhapress) – Um avião de pequeno porte bateu na parte lateral de um prédio após decolar no início da tarde desta segunda-feira (4) do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte.
Cinco pessoas estavam na aeronave, segundo o Corpo de Bombeiros e a Polícia Civil. O piloto Wellington Oliveira, 34, e o passageiro Fernando Moreira Souto, 36, morreram no local. Souto é filho do prefeito de Jequitinhonha (MG), Nilo Souto (PDT).
Leonardo Berganholi Martins, 50, chegou a ser socorrido com vida, mas morreu após dar entrada no Hospital de Pronto-Socorro João 23. A Fhemig (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais) confirmou a morte na noite desta segunda.
Os sobreviventes são Arthur Schaper Berganholi, 25, filho de Leonardo, que sofreu fratura no pé, e Hemerson Cleiton Almeida Souza, 53. Eles também foram levados para o João 23. Segundo a Fhemig, os dois permanecem internados na unidade, com quadro estável.
O avião atingiu a caixa de escada do edifício. Todos os moradores foram retirados em segurança.
Segundo os bombeiros, não há risco estrutural aparente. Houve vazamento de combustível no estacionamento de um mercado, que funciona na vizinhança do prédio atingido, mas o risco de explosão foi neutralizado com aplicação de espuma mecânica.
Um vídeo do interior do local, a que a reportagem teve acesso, mostrava um dos feridos com a perna aparentemente fraturada. Ele estava consciente no momento do resgate e foi levado junto dos outros feridos ao hospital.
A aeronave perdeu altitude após deixar o aeródromo, conforme a polícia, e atingiu um edifício de três andares na rua Ilacir Pereira Lima, no bairro Silveira. O piloto chegou a declarar emergência grave (mayday), segundo a torre de controle.
O local da queda é 3,9 quilômetros distante da cabeceira 31, a mais próxima da avenida Cristiano Machado. Imagens mostram que a aeronave planou entre os prédios até atingir a lateral do edifício.
Segundo a polícia, a aeronave havia saído de Teófilo Otoni, fez escala em Belo Horizonte, onde duas passageiras, mãe e filha, desembarcaram, e seguiria para São Paulo.
“As informações que temos de uma testemunha são de que, no próprio aeroporto da Pampulha, a decolagem já não foi correta, que já estava perdendo altitude”, disse a delegada Andrea Pochman, da 1ª Delegacia da região Leste.
A polícia informou também que o voo era de caráter particular e não operava como táxi aéreo. A aeronave havia sido adquirida recentemente e ainda passava por processo de transferência de propriedade.
O avião é de matrícula PT-EYT e tem situação normal de aeronavegação, segundo o RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro).
Segundo registro na Anac, a aeronave monomotor é do modelo NEIVA EMB-721C, foi fabricada pela Embraer em 1979 e estava em situação legalizada. É um avião comum na aviação privada e usado para deslocamentos regionais. O operador atual do avião, conforme o registro mais recente, é uma empresa de internet de Teófilo Otoni (MG).
A perícia da Polícia Civil foi ao local e iniciou os trabalhos antes da retirada dos corpos do piloto e do copiloto.
A FAB (Força Aérea Brasileira) informou que investigadores do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) foram acionados e já iniciaram a chamada “ação inicial” no local. Segundo a FAB, essa etapa envolve a coleta e confirmação de dados, preservação de elementos, verificação dos danos e levantamento de outras informações para a investigação.
Especialista em segurança de voo, Roberto Peterka diz que a perda de potência notada pode ter conexão com uma eventual contaminação do combustível, que pode afetar modelos de pequeno porte.
“Em princípio, pode-se imaginar que foi combustível contaminado. Como a água fica por baixo do combustível, na hora em que o avião acelera, o que entra no motor é água, ao invés de combustível”, diz Peterka.
Para James Rojas Waterhouse, especialista em aviação e professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da USP, o avião estava “na pior condição para se estar em aeroportos próximos de cidades”.
“Numa cidade densa, se você tem uma pane qualquer, não tem lugar nenhum para pousar”, diz.
Pelo vídeo, James avalia que o piloto teria tentado manobrar o avião, de maneira que, caso tivesse pousado sobre o telhado do prédio, o acidente seria menor. Mas não havia altura e nem velocidade para isso. “Fato é que o impacto foi muito forte. Pelo vídeo, ele tentou manter o controle até o último momento, mas não conseguiu.”
Moradores relatam susto
A dona de casa Claudete Martins, que vive no prédio atingido há quase 50 anos, estava em casa no momento da batida. Ela contou que foi orientada pelos bombeiros a permanecer no apartamento enquanto as equipes priorizavam o socorro aos feridos.
“Eles me pediram para eu ficar lá quieta, tomando água e abrindo a janela, que iam me resgatar, mas tinham que socorrer os feridos primeiro. Me perguntaram se eu estava bem, eu disse que sim, só estava inalando muito querosene”, afirmou.
Segundo Martins, após o resgate das vítimas com vida, os bombeiros montaram uma escada para retirá-la do imóvel. “Depois, o moço veio e me pediu para colocar calça e tênis. Colocaram uma escada por onde desci e três me seguraram lá embaixo.”
Ela relatou ainda a dimensão dos danos no prédio. “Eu moro no 302, acabou lá, não tem mais escada, só tem motor e peça de avião, acabou tudo.”
Um policial militar que mora no prédio ajudou no primeiro atendimento às vítimas, antes da chegada das equipes de resgate.
Moradora do segundo andar do prédio, Natalia Bicalho, 23, disse que não estava em casa no momento do acidente. “Fiquei sabendo porque uma amiga me mandou mensagem, e outras pessoas começaram a ligar querendo saber se eu estava em casa, porque moro sozinha. Foi um livramento não estar lá”, afirmou.
Ela disse ainda que não conseguiu retornar ao apartamento para avaliar os danos e que soube de dificuldades enfrentadas por vizinhos. “Ouvi que uma vizinha não conseguiu descer as escadas no terceiro andar”, relatou.
Em entrevista à rádio Itatiaia, o tenente Raul Souza, do Corpo de Bombeiros, afirmou que o impacto ocorreu entre o terceiro e o quarto andares e que parte da aeronave ficou cravada no prédio.
Ele destacou a gravidade do resgate ao descrever uma das vítimas encontradas na caixa de escada.
“Uma delas estava semiconsciente, em — gasping — [respiração crítica], pendurada com as pernas para cima e o corpo para baixo”, disse.



