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Morre Fernando Novais, o historiador que ensinou o Brasil a olhar para fora de si

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Por Valter Mattos da Costa*

A notícia chega seca, como costumam chegar as perdas maiores. Morreu ontem, 30 de abril de 2026, Fernando Antonio Novais, um dos pilares da historiografia brasileira contemporânea. Não se trata apenas da morte de um professor ou de um intelectual. Trata-se da partida de um modo de pensar o Brasil – rigoroso, estrutural, inquieto – que marcou profundamente a formação histórica no país.

Ao longo de décadas, Novais ajudou a consolidar uma tradição de análise que recusa o isolamento nacional e insiste na inserção do Brasil em uma totalidade histórica mais ampla, marcada pelo desenvolvimento do capitalismo, em diálogo crítico com a tradição marxista.

Sua obra mais conhecida, Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), permanece como um divisor de águas na historiografia da economia colonial brasileira. Ali, o Brasil deixa de ser interpretado como uma realidade autônoma e passa a ser compreendido como parte de um sistema – o chamado “Antigo Sistema Colonial” – articulado às dinâmicas do capitalismo europeu.

Não era apenas uma mudança de escala. Era uma mudança de método. O olhar deslocava-se do local para o estrutural, da descrição para a explicação, da narrativa para a problematização histórica. Esse movimento, herdeiro e ao mesmo tempo sofisticador das formulações de Caio Prado Júnior, deu à historiografia brasileira um novo patamar de rigor analítico e densidade interpretativa.

Mas Novais não foi apenas um grande autor. Foi também um formador. Na Universidade de São Paulo (USP), orientou pesquisas, consolidou agendas e ajudou a estruturar uma tradição acadêmica que atravessou gerações. Sua influência, portanto, não se mede apenas pelos textos que escreveu, mas pelos historiadores que formou – direta ou indiretamente – e pelas perguntas que ensinou a fazer.

Entre esses historiadores, encontra-se quem escreve estas linhas. A formação intelectual não se dá apenas por leituras, mas por encontros – e, muitas vezes, por confrontos silenciosos com ideias que nos atravessam. Foi assim com Novais.

Sua obra não oferecia respostas fáceis. Ao contrário, exigia rigor, deslocamento, desconforto. Obriga a pensar o Brasil para além de suas fronteiras imediatas. Ao longo da trajetória docente, esse ensinamento tornou-se central. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, mas de ensinar a ver – e, sobretudo, a desconfiar do que parece evidente.

Ler Novais é compreender que a colônia não se explica por si. Que o Brasil não nasce isolado. Que há estruturas, interesses e dinâmicas globais que moldam o que, à primeira vista, parece apenas local.

Essa lição, aparentemente simples, altera profundamente o modo de ensinar História. Retira o aluno do imediatismo e o insere em uma rede de relações mais complexa e contraditória.

Mas há também um segundo movimento, menos visível, que sua obra provoca. Ao estruturar o mundo histórico, ela também revela seus limites – e convida a ultrapassá-los. Porque toda grande tradição, quando levada a sério, exige ser tensionada.

E talvez esse seja o maior legado de Novais: não a repetição de um modelo, mas a abertura de um campo de problemas.

A notícia de sua morte, que recebi ontem, não trata apenas de um historiador que perdemos. Perde-se também uma referência de rigor em tempos de simplificação, pulverização e superficialidade do debate público.

Num país que frequentemente negligencia seus intelectuais, lembrar Novais é também um gesto político. É reafirmar a importância do pensamento crítico na compreensão da própria sociedade.

Sua obra permanece. Seus conceitos seguem operando – ligados ao “antigo sistema colonial”, dentre outros. Seus textos continuam desafiando leitores. E sua influência atravessa salas de aula, pesquisas, artigos e livros que ainda serão escritos.

Morre Fernando Novais. Fica, no entanto, aquilo que escapa à morte: a capacidade de formar pensamento, de inquietar certezas e de ensinar que o Brasil só se entende quando se olha além de si.

 

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.

 





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