
Cedo, Ivone carregou água da beira do rio para abastecer o pote de barro, de onde bebia no restante do dia. Deixou o sorriso tomar conta do canto dos lábios ao lembrar dos cinco anos da filha, quando a menina perguntou como a água ficava gelada naquele tipo de pote. Era comum troçar das crianças e dizer que eram colocadas rãs dentro do recipiente para deixar a água fria. Dali em diante, sua menina passou a beber água sempre com desconfiança de que aquilo fosse verdade.
Ela está voltando, pensou Ivone.
A mulher aflita arrumou o pano da mesa de madeira, coou o café, cozinhou a macaxeira com os milhos, assou uma travessa grande de pão no forno de barro e fez os bolinhos de chuva com cobertura de açúcar e canela que a filha tanto amava. Era uma mesa impecável, com tudo que sua menina gostava de comer, do jeito que somente uma mãe faria.
E Ivone era uma boa mãe, sempre quis ser. Casou na flor da idade e tratou de procurar filho no primeiro mês de matrimônio. Quando a menina nasceu, sadia e chorona, cuidou de registrar no cartório por necessidade de documento, mas não precisava de papel nenhum para comprovar o que sentia: nunca um sentimento foi tão real em seu coração. Ela contemplou aquele pequeno ser em seus braços, o maior amor que já havia sentido na vida, sua maior força e fraqueza.
Quando o marido abandonou-a, sentiu uma tristeza profunda, porém, o sentimento desaparecia sempre que fitava sua menina crescendo sorridente e alegre. Todas as noites gostava de abraçar a menina e contar as histórias de assombração que costumava ouvir dos seus avós, pelas manhãs sempre escovava os cabelos longos e castanhos de sua pequena para vê-los bagunçados pela tarde.
Bianca era espevitada, não parava quieta. Foi um descuido, somente um desatino, quando foi buscar lenha e deixou a menina brincando na sala sozinha, se embalando de um lado para o outro na rede. Não sabia como, mas quando retornou, Bianca estava virada num ângulo errado, com o pescoço quebrado.
Ivone, uma católica devota, do tipo que não faltava missa a não ser em caso de doença, recusava-se a crer que o Deus do céu arrancou dela seu maior sonho. Os primeiros dias foram apáticos, havia uma amargura doída revirando no peito.
— Tem uma velha sabida na floresta, ela vai conseguir te ajudar.
Seguindo o conselho de uma tia, foi até o terreiro no meio do mato.
A casa tinha assoalho alto, construída ao lado de um pé de carambola, cujas folhas caíam sobre o telhado, formando um tapete marrom de folhas mortas e minúsculas flores rosas. Na frente da residência tinha um chiqueiro de porcos, com uma leitoa enorme de prenha. Ivone deu a volta pelo curral de porcos e subiu os quatro degraus de madeira na frente da porta, não teve medo quando bateu três vezes e ouviu de resposta:
— Vai embora! Não estou atendendo hoje.
A porca do chiqueiro grunhiu atormentada, estava em trabalho de parto. Ela tornou a bater, enraivecida.
— Vai embora! — repetiu a voz de dentro, colérica.
O animal no chiqueiro desabou, o som do grunhido era perturbador, deixou Ivone com mais raiva. Ela esmurrou a porta até ser escancarada, a anfitriã recebeu-a com a mesma cortesia.
— Mas que inferno! É surda?!
— Não, sou mãe! Uma mãe desesperada, suplicando por sua ajuda. A minha filha morreu, me disseram que você poderia me ajudar.
— Meus pêsames, é o tipo de dor que não se mede, perder um filho. Esfrega a folha da graviola na testa no fim da tarde, joga a folha na direção do pôr-do-sol, você vai parar de pensar nos mortos.
— Eu não vim aqui para esquecer. Como eu faço para rever minha filha?
O som estridente do animal deu um ar sombrio para o olhar desconfiado da velha, uma curiosidade soturna dançava naqueles olhos sujos de catarata.
— Esse tipo de coisa sempre tem um preço.
— Me diz o valor. Me diz e eu pago! Eu não sou nada sem minha Bianca, preciso dela de volta…
A velha lambeu os beiços finos e enrugados, Ivone percebeu que seus dentes eram amarelados com manchas marrons, sujos e famintos. Era uma figura macabra de cabelos quebradiços e cheiro de mofo.
— O valor não sou eu quem vai cobrar — a velha ria, sorrateira. — Desenterra o corpo da menina, arranca o que restou no lugar dos olhos e enterra no pé do guaraná. Diz “aquilo que é meu, quero de volta”, depois de três noites, tua cunhatã vai chegar na tua casa.
Ivone fez como a velha havia instruído. Na escuridão da noite, desenterrou o corpo podre e fétido da filha, arrancou algo mole e viscoso, onde um dia foram os olhos da menina. Vomitou duas vezes, na terceira já não tinha mais nada para colocar para fora. Foi até o primeiro pé de guaraná que encontrou e enterrou lá, repetindo religiosamente as palavras ensinadas.
No terceiro dia, Ivone levantou de uma madrugada mal dormida de tanta expectativa. Aprontou a mesa do café da manhã com tudo que a filha mais amava comer. O sol raiou, esquentou, passou, se pôs e nada. A ansiedade virou temor.
Não deu certo, lamentou, já com a primeira lágrima escorrendo pelo rosto infeliz.
Aos prantos, recolheu-se no fundo de sua humilde rede.
Apagou todas as lamparinas, exceto uma. A solitária chama ardia fraca.
Durante a madrugada, quando somente animais e assombrações vagam soltas, ela ouviu o ranger da dobradiça da porta abrindo. Um vulto pequeno caminhou devagar em sua direção, deitou ao seu lado, aninhando-se em seu braço.
Ivone colocou a mão sobre a boca, emocionada, com o coração cheio de alegria. A menina não estava podre, seu corpo estava íntegro e coberto por mil olhos, muitos olhos, como os frutos do guaraná.
— Bianca…
Quando era nova, Ivone sempre desejou ter uma filha chamada Bianca, era um nome bonito. Ela sabia que havia nascido para ser mãe.
Créditos:
Ilustração: Ana Clara @cinna.monmoon
Revisão: Deuziane Sackamulth @martes.1996



