Capa da revista física da Cenarium e do artigo do The Canary (Composição: Lucas Oliveira/Cenarium)
24 de março de 2025
Letícia Misna – Da Cenarium
MANAUS (AM) – A reportagem da versão digital/impressa da REVISTA CENARIUM, “Amazônia à venda? BR-319: narrativas, negócios e poder”, que apontou Organizações Não Governamentais (ONGs) e instituições com atuação na BR-319 que receberam valores milionários de uma instituição internacional ligada a empreendimentos com impactos na floresta, ganhou destaque na mídia britânica ao ser mencionada pelo site The Canary, do Reino Unido.
De autoria da jornalista Monica Piccinini, o artigo “BR-319: paving the way for Indigenous displacement and environmental catastrophe”(“BR-319: abrindo caminho para o deslocamento indígena e a catástrofe ambiental”, em tradução livre) foi publicado nesta segunda-feira, 24, apontando que a estrada serve como um catalisador para a destruição do meio ambiente.

“A reconstrução da rodovia BR-319 da Amazônia, um dos projetos mais prejudiciais ao meio ambiente do mundo, serve como um catalisador para essas atividades destrutivas. Com 885 km de extensão, a rodovia conecta a capital do Amazonas, Manaus, a Porto Velho, cortando áreas intocadas da floresta tropical. Uma reconstrução proposta de 408 km abriria uma porta de entrada para o desmatamento, o crime e a exploração corporativa, impactando diretamente mais de 18 mil povos indígenas“, consta em um trecho da publicação.

O artigo cita diretamente o material publicado na CENARIUM, lembrando que, nos relatos, há a denúncia de indígenas afirmando que a ONG Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) produziu documento afirmando que os indígenas do Lago Capanã Grande e Baetas, no entorno da BR-319, aceitavam a pavimentação da BR-319 desde que condicionantes fossem atendidas. Os indígenas afirmaram, no entanto, que discordavam veementemente da obra.
“A questão foi mais detalhada no artigo BR-319: Narrativas, Negócios e Poder, publicado pela Revista CENARIUM, em fevereiro. De acordo com o artigo, a ONG Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) produziu um documento alegando falsamente que a comunidade indígena havia sido consultada e concordado com a reconstrução da rodovia, desde que uma reserva extrativista fosse criada para protegê-los. Chocantemente, a comunidade só soube dessa aprovação depois de assinar o documento”, pontua a jornalista no artigo.

O texto também destaca um evento ocorrido na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), organizado pelo pesquisador Lucas Ferrante, que reuniu o Ministério Público Federal (MPF), Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), lideranças indígenas e a própria CENARIUM. Na ocasião, foram expostas e discutidas situações agravantes sobre a BR-319.
“Essa situação preocupante surgiu durante um evento na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que contou com a participação do Ministério Público Federal, um representante do Ministério do Meio Ambiente, uma ONG e lideranças indígenas. O encontro foi organizado pelo pesquisador Lucas Ferrante e coberto pela Revista Cenarium”, consta no artigo, ressaltando, ainda, a importância da Amazônia, a destruição dos “rios voadores” e violação de direitos indígenas, além da ameaça à região por parte do agronegócio.

O texto pontua que, com a BR-319, as comunidades indígenas e o planeta estão em risco. “A reconstrução da BR-319 não é apenas sobre uma estrada – é um movimento perigoso que pode destruir séculos de herança e prejudicar o meio ambiente além do reparo. Se o Brasil seguir esse caminho, o dano será permanente, deixando cicatrizes profundas na terra, em seu povo e no mundo”, elenca.

Reportagem especial
A reportagem “Amazônia à venda? BR-319: narrativas, negócios e poder” foi capa da edição 56, de fevereiro, da Revista CENARIUM. O material mostrou as ONGs e instituições com atuação na BR-319, estrada que liga Amazonas a Rondônia, que receberam, ao longo de 15 anos, mais de R$ 122,8 milhões da Gordon and Betty Moore Foundation (GBMF), uma fundação ligada a empresas que causam danos à Floresta Amazônica, como a Eneva S/A.

As ONGs identificadas como recebedoras diretas de repasses de fundos da corporação internacional e que desenvolveram projetos voltados à governança na BR-319 são o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Fundação Getulio Vargas (FGV) e o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam). Nos demonstrativos financeiros consta, ainda, uma doação da GBMF ao Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), feita via World Wide Fund for Nature(WWF).

A apuração foi feita ao longo de seis meses de investigação pela revista, que teve acesso a documentos e dados disponibilizados no próprio site da GBMF, que comprovam os repasses.
Editado por Marcela Leiros
Revisado por Gustavo Gilona
Fonte: Agência Cenarium