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domingo, 19 abril, 2026
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Meta usa dados pessoais para treinar IA: veja como impedir

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Por Iago Filgueiras*

A Meta tem utilizado dados de usuários do Facebook, Instagram e WhatsApp para treinar e aprimorar seus modelos de inteligência artificial. Desde meados de 2024, a Meta AI, ferramenta de IA da companhia, passou a ser incorporada em todos os aplicativos da empresa.

O uso de dados pessoais para treinamento já vinha ocorrendo desde a chegada do recurso ao público brasileiro, mas foi expandido em dezembro de 2025 com a atualização da política de privacidade da plataforma. Com isso, as interações dos usuários com a Meta AI também passaram a ser utilizadas para personalizar anúncios no Facebook e Instagram, além de ajudar na recomendação de publicações e Reels — formato de vídeos verticais — mais alinhados aos interesses dos usuários.

A empresa, no entanto, deixou claro que não tem acesso a conversas privadas. As mensagens trocadas marcando a Meta AI no WhatsApp, ou mantidas diretamente com o chat da ferramenta, porém, poderão ser utilizadas para aperfeiçoamento do sistema de inteligência artificial.

Quais dados a Meta coleta?

A coleta de dados é parte fundamental do modelo de negócios da empresa, que utiliza as informações para personalizar a experiência do cliente e sugerir anúncios e postagens que possam despertar mais interesse nos usuários.

Para isso, a empresa coleta, trata e armazena a atividade realizada nos produtos da companhia e as informações disponibilizadas pelo usuário, como:

  • O conteúdo criado, como posts, comentários ou áudios;
  • O conteúdo fornecido por meio do recurso de câmera, das configurações do rolo da câmera ou dos recursos habilitados para voz;
  • Os metadados do conteúdo (como local e data de criação do arquivo, tipo de mensagem e data e hora do envio, por exemplo);
  • Interações que você ou outras pessoas realizaram com a Meta AI;
  • Tipos de conteúdo que você consumiu, interagiu e como fez isso;
  • Aplicativos e recursos utilizados e as ações que você realiza neles;
  • Compras ou transações efetuadas;
  • Hashtags usadas;
  • Horário, frequência e duração das atividades do usuário.

Mas, além disso, a Meta também tem acesso a informações relacionadas ao aplicativo, navegador e dispositivo utilizado para o acesso, como as características e o software, se o aplicativo está funcionando em segundo plano ou se o mouse está se movendo durante o uso, informações relacionadas à localização — se permitidas nas configurações do celular —, dados sobre a rede que está utilizando, o funcionamento dos produtos da Meta no dispositivo e outras informações mencionadas na política de privacidade da companhia.

No entanto, nem todos os dados citados acima são, de fato, utilizados para o treinamento de ferramentas de inteligência artificial. Segundo consta na Central de Privacidade da Meta, entre os dados aplicados ao desenvolvimento da IA estão as informações públicas do usuário, como nome, nome de usuário, foto de perfil, avatares e atividade em páginas, grupos e conteúdos públicos.

Somado a isso, caso sua conta em redes como Facebook e Instagram não esteja privada, a empresa também pode considerar como “conteúdo público” postagens, fotos e vídeos publicados no perfil, Stories ou Reels. Ou seja, um conteúdo público é aquele que pode ser visto por qualquer pessoa dentro dos produtos da companhia.

Além disso, suas interações com a Meta AI também são armazenadas pela empresa. Assim, ela é capaz de lembrar detalhes sobre você. Por exemplo, se em alguma conversa envolvendo a inteligência artificial um usuário mencionar que gosta de modelos de tênis que tenham a cor amarela, essa informação será armazenada.

Entre as outras fontes de dados citadas pela Meta em sua Central de Privacidade também estão informações públicas disponíveis na internet, como publicações abertas de blogs ou bases de dados; informações fornecidas por parceiros selecionados; e informações licenciadas, cujos proprietários originais deram permissão à Meta para o uso.

Mão segurando um celular que mostra a interface de interação da Meta AI. Este elemento visual exemplifica como as interações diretas e mensagens enviadas ao chatbot são armazenadas pela empresa para personalizar a experiência e treinar modelos de linguagem.
A Meta pode utilizar as conversas feitas citando a inteligência artificial da companhia ou realizadas diretamente no chat com a Meta AI para treinamento da ferramenta. Foto: GettyImage

E se eu não tiver uma conta na Meta?

Se engana quem pensa que apenas os usuários dos produtos da companhia de Mark Zuckerberg estão suscetíveis à coleta de dados. Mesmo pessoas que não possuem nenhum vínculo com as redes da empresa, como WhatsApp, Facebook, Instagram e Threads, também podem ter suas informações armazenadas e utilizadas para treinamento de inteligência artificial. Mas com algumas diferenças.

Em geral, esses dados costumam ser coletados através de terceiros. Por exemplo: se um usuário posta uma foto pública em que um não usuário aparece ou menciona o nome dele em uma legenda, essas informações passam a compor o conjunto de dados utilizados para o desenvolvimento da Meta AI.

Além disso, a atividade em sites de terceiros também pode ser compartilhada com a companhia. Assim, ela pode acessar alguns detalhes sobre não usuários, mesmo que eles não utilizem produtos da plataforma. Embora, em geral, esses dados sejam anonimizados — ou seja, são guardados, mas não podem ser associados direta ou indiretamente a um indivíduo específico.

Como impedir que a Meta colete seus dados?

Com milhões de brasileiros conectados às diferentes ferramentas da Meta, a forma como a empresa trata e utiliza os dados dos usuários para o treinamento e aprimoramento de sua ferramenta de inteligência artificial se tornou motivo de preocupação.

No entanto, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) assegura ao cidadão o direito de recusar o tratamento de dados pessoais caso haja descumprimento da lei ou fundamentado no legítimo interesse.

No Instagram:

  1. Acesse seu perfil e selecione o ícone de três linhas no canto superior direito
  2. Localize a seção “Central de Privacidade”
  3. Em seguida, selecione o tópico “IA na Meta”
  4. Encontre a seção “Enviar uma solicitação de objeção”
  5. Encontre a seção “Enviar uma solicitação de objeção”

Captura de tela dividida em três partes mostrando o menu de configurações do Instagram, com uma seta vermelha apontando para o item "Central de Privacidade", seguido da tela "IA na Meta" e o link "Enviar uma solicitação de objeção". Para garantir a conformidade com a LGPD e a soberania digital, o usuário deve navegar por esses menus para impedir que seus dados pessoais alimentem o treinamento de modelos de inteligência artificial generativa.Você poderá solicitar objeção ao uso de:

  •  “informações que você compartilhou sobre Produtos da Meta”, o que inclui informações públicas como posts, fotos, legendas e comentários.
  • “Suas mensagens com IAs no WhatsApp”, o que inclui mensagens que mencionam @MetaAI ou a que as pessoas compartilham com a IA.
  • “Informações pessoais de terceiros”, caso você não seja usuário de produtos Meta e queira se opor ao uso de informações pessoais obtidas de terceiros.

Caso prefira, sinalize seu direito de oposição acessando diretamente a Central de Privacidade da Meta.

No Facebook:

  1. Na tela inicial do aplicativo, acesse o menu no canto superior direito (ícone de três linhas)
  2. Deslize a página até o ítem “Configurações e privacidade” e selecione-o
  3. Encontre o campo “Central de Privacidade”
  4. Acesse o tópico “IA na Meta”
  5. Encontre a seção “Enviar uma solicitação de objeção”

Sequência de imagens da interface do aplicativo Facebook exibindo o caminho para a Central de Privacidade, com destaque para a seção "IA na Meta" e o formulário de objeção. Este elemento visual exemplifica a aplicação prática do plano de conformidade exigido pela ANPD, permitindo que o titular dos dados gerencie como suas postagens, fotos e mensagens públicas são tratadas pela Big Tech para o desenvolvimento de sistemas automatizados.

Você poderá solicitar objeção ao uso de:

  •  “informações que você compartilhou sobre Produtos da Meta”, o que inclui informações públicas como posts, fotos, legendas e comentários.
  • “Suas mensagens com IAs no WhatsApp”, o que inclui mensagens que mencionam @MetaAI ou a que as pessoas compartilham com a IA.
  • “Informações pessoais de terceiros”, caso você não seja usuário de produtos Meta e queira se opor ao uso de informações pessoais obtidas de terceiros.

Caso prefira, sinalize seu direito de oposição acessando diretamente a Central de Privacidade da Meta.

No WhatsApp:

  1. Acesse a Central de Privacidade da Meta
  2. Encontre o tópico “IA na Meta”
  3. Encontre a seção “Enviar uma solicitação de objeção”
  4. Selecione a opção “Mensagem com IAs no WhatsApp”
  5. No formulário aberto, preencha seu e-mail, telefone vinculado ao WhatsApp e, caso deseje, informe como o processamento de dados para treinamento de IA afeta você.

Vale dizer que, caso você tenha perfis em diferentes plataformas da companhia, mas eles estejam vinculados à mesma Central de Contas, você poderá realizar algumas objeções uma única vez. Porém, se os perfis nas redes estiverem vinculados a contas diferentes, você deverá solicitar a objeção em cada uma delas.

Relembre a polêmica chegada da Meta AI no Brasil

Em junho de 2024, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) chegou a determinar a suspensão de uma nova política de privacidade da Meta que previa o uso de informações de usuários para treinamento de inteligência artificial. Na ocasião, foi estipulada uma multa diária no valor de R$ 50 mil em caso de descumprimento.

Em nota, a agência destacou que o tratamento de dados adotado pela plataforma poderia impactar um “número substancial de pessoas, já que, no Brasil, somente o Facebook possui cerca de 102 milhões de usuários ativos”.

O motivo alegado para a suspensão do documento, segundo informado, foi a existência de indícios de tratamento de dados pessoais com base em hipótese legal inadequada, falta de transparência, limitação aos direitos dos titulares e riscos a crianças e adolescentes.

No entanto, cerca de dois meses depois, o uso dos dados foi liberado pela ANPD após a gigante da tecnologia apresentar um plano de conformidade e facilitar o acesso para que usuários possam exercer seu “direito de objeção” quanto ao uso de suas informações para treinamento de inteligência artificial na Meta.

Extrair informação privada, concentrar poder e impor dependência tecnológica segue sendo o modo padrão de atuação das grandes empresas de tecnologia. No dia 28 de abril, o ICL vai revelar como os algoritmos são usados para manipular e filtrar conteúdos no Brasil e na América Latina. Inscreva-se gratuitamente para o Dia D da Soberania Digital. Faça parte do movimento para enfrentar o domínio das Big Techs e retomar o controle em noossas mãos.

*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu





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