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segunda-feira, 3 agosto, 2026
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Mendonça cobrou explicações da PF, mas não abriu investigação contra Andrei

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Por Cleber Lourenço

O pedido de informações feito pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre o andamento da investigação das fraudes no INSS deu origem, nos últimos dias, a notícias na imprensa de que o magistrado teria aberto uma investigação contra o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Segundo auxiliares do ministro ouvidos pelo ICL Notícias, isso não ocorreu.

As cobranças de Mendonça, afirmam as fontes, foram dirigidas à condução da Operação Sem Desconto e começaram depois que a Polícia Federal decidiu retirar o caso da área especializada em crimes fazendários e transferi-lo para a coordenação responsável pelos inquéritos que tramitam nos tribunais superiores.

Diante da mudança, o ministro pediu um relatório detalhado sobre o estado da investigação: quem já havia sido ouvido, o conteúdo dos depoimentos, quais diligências tinham sido concluídas, o resultado das quebras de sigilo autorizadas e o que ainda precisava ser feito.

A resposta da PF, de acordo com os relatos, foi que a nova coordenação não tinha pessoal suficiente para produzir imediatamente o balanço solicitado e precisava de mais prazo. Foi essa explicação que abriu uma nova frente de questionamentos do gabinete.

Se a unidade já enfrentava falta de mão de obra e acumulava investigações complexas, entre elas a apuração sobre o Banco Master, por que o caso do INSS havia sido transferido para lá? E quais medidas seriam adotadas para evitar uma paralisação dos trabalhos?

Essas perguntas, segundo os auxiliares, estão no centro do desgaste — e não uma investigação contra Andrei Rodrigues.

O ministro André Mendonça em sessão plenária do STF - Pedro Ladeira - 26.fev.2026/Folhapress
O ministro André Mendonça em sessão plenária do STF – Pedro Ladeira – 26.fev.2026/Folhapress

Mudança de coordenação acendeu alerta no gabinete

A Operação Sem Desconto apura um esquema de descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Por envolver suspeitas de crimes financeiros, lavagem de dinheiro e movimentações patrimoniais, a investigação permaneceu inicialmente sob responsabilidade da área fazendária da Polícia Federal.

Segundo auxiliares de Mendonça, foi nessa estrutura que ocorreram oito das nove primeiras fases da operação.

Depois de aproximadamente um ano, porém, a PF decidiu transferir o caso para a coordenação encarregada de investigações que tramitam nos tribunais superiores, chamada internamente de CINQ. A justificativa apresentada ao gabinete, relatam as fontes, foi de natureza administrativa: a mudança permitiria uma condução mais adequada do inquérito no STF.

A transferência, no entanto, produziu o efeito inverso ao esperado pelo relator.

Quando Mendonça solicitou um panorama dos trabalhos, a nova unidade informou que não tinha pessoal suficiente para levantar todas as informações e consolidar o relatório. A resposta causou estranhamento no gabinete.

Para os auxiliares do ministro, havia uma contradição evidente: a Polícia Federal havia retirado o caso de uma área que vinha conduzindo sucessivas fases da operação para entregá-lo a uma estrutura que, pouco depois, alegaria falta de condições operacionais para responder ao próprio relator.

Foi nesse contexto que Mendonça pediu explicações sobre as razões da mudança, a situação da equipe e as medidas necessárias para retomar o ritmo da apuração. Segundo as fontes, o gabinete chegou a considerar a possibilidade de questionar se o caso deveria voltar à área fazendária, caso a nova coordenação não tivesse condições de conduzi-lo.

Gabinete cobrava resultados de quebras de sigilo

As cobranças não se limitavam à mudança da estrutura responsável pela investigação.

Auxiliares do ministro afirmam que o gabinete também aguardava o retorno de quebras de sigilo e outras diligências autorizadas no âmbito da operação. O relator queria saber o que havia sido encontrado, quais linhas investigativas tinham avançado e que medidas ainda dependiam de autorização judicial.

Segundo os relatos, as explicações apresentadas pela PF foram consideradas insatisfatórias em mais de uma ocasião.

As fontes afirmam que o gabinete não recebeu um relatório consolidado sobre o andamento do caso e que parte das diligências permaneceu sem resposta nos autos. A demora aumentou a preocupação de que a investigação tivesse perdido ritmo após a transferência de coordenação.

Além da mudança de unidade, auxiliares de Mendonça mencionam outros episódios que teriam contribuído para a instabilidade da apuração, como a substituição de três delegados e o pedido de saída de um perito.

Isoladamente, essas mudanças não demonstram interferência ou irregularidade. Em conjunto, porém, passaram a ser vistas pelo gabinete como sinais de descontinuidade em uma investigação de grande dimensão e forte repercussão política.

Caso Lulinha caiu com Mendonça por sorteio

O desgaste já existia quando a Polícia Federal pediu a abertura de um novo inquérito para investigar suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo auxiliares do ministro, o pedido foi formulado pela mesma estrutura da PF envolvida na condução da Operação Sem Desconto. O novo caso, no entanto, não foi direcionado ao gabinete de Mendonça.

O procedimento foi distribuído por sorteio eletrônico no STF e acabou sob a relatoria do ministro.

Esse detalhe é importante porque ajuda a explicar o desconforto que se instalou nos bastidores. A Polícia Federal não pediu que o inquérito fosse enviado a Mendonça, mas o sorteio colocou o novo caso justamente nas mãos do ministro cujo gabinete já vinha cobrando explicações sobre o andamento da investigação do INSS.

A distribuição ampliou um conflito que até então permanecia concentrado em pedidos de informações, respostas processuais e discussões sobre a gestão da operação.

Auxiliares de Mendonça afirmam ainda que o gabinete não recebeu retorno das primeiras quebras de sigilo relacionadas às suspeitas envolvendo Lulinha. Segundo as fontes, os resultados dessas medidas não foram encaminhados ao relator, o que aprofundou as cobranças.

PF recorreu ao governo em meio ao desgaste

A tensão veio a público quando a Polícia Federal procurou a Advocacia-Geral da União para discutir medidas adotadas por Mendonça no caso do INSS.

Auxiliares do ministro dizem não saber exatamente qual providência a PF pretendia obter da AGU, mas interpretaram a movimentação como uma tentativa de reagir às cobranças feitas pelo relator.

Nos bastidores do gabinete, o episódio foi comparado a uma iniciativa semelhante da corporação durante a investigação do Banco Master, quando a PF também teria procurado a AGU em razão de decisões do ministro Dias Toffoli. Naquela ocasião, segundo relatos publicados à época, a Advocacia-Geral da União não levou adiante a medida.

A busca pela AGU reforçou a percepção de que o impasse havia deixado de ser apenas operacional e adquirido dimensão institucional.

De um lado, o gabinete exigia informações para acompanhar diligências autorizadas pelo Supremo. De outro, a Polícia Federal demonstrava incômodo com as cobranças e com a condução processual do relator.

Pedido de informações virou rumor sobre investigação

Foi nesse ambiente que passou a circular a informação de que André Mendonça teria determinado uma investigação contra Andrei Rodrigues.

Auxiliares do ministro negam, em caráter reservado, que exista qualquer procedimento investigativo aberto pelo gabinete contra o diretor-geral da PF.

Segundo as fontes, não houve ordem para investigar Andrei, abertura de inquérito ou determinação de apuração criminal sobre sua conduta. O que existiu foram pedidos de informações dirigidos à Polícia Federal sobre a condução da Operação Sem Desconto, a transferência de coordenação, a falta de pessoal e o atraso na apresentação dos resultados das diligências.

Os auxiliares argumentam que uma investigação contra o diretor-geral da PF exigiria a participação dos órgãos competentes, especialmente da própria Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República. Não seria, portanto, uma providência conduzida isoladamente pelo gabinete do relator.

Mendonça decidiu não se pronunciar publicamente sobre o episódio.

Divergências também alcançam a PGR

O desgaste com a Polícia Federal não é o único ponto de tensão nas investigações sob relatoria de Mendonça.

Auxiliares do ministro afirmam que o gabinete também tem divergido da Procuradoria-Geral da República em pedidos de medidas cautelares, apreensão de bens e bloqueio de valores.

Um dos episódios veio a público após a retirada do sigilo de decisões relacionadas à Operação Compliance Zero. Os documentos mostraram que a PGR foi contrária à apreensão de dinheiro e relógios encontrados durante uma diligência ligada ao senador Jaques Wagner, enquanto Mendonça adotou posição diferente.

Para os auxiliares, divergências entre relator, PGR e Polícia Federal fazem parte da dinâmica normal de investigações complexas. O que consideram incomum é a tentativa de transformar cobranças processuais e diferenças de interpretação em uma disputa pessoal ou em uma investigação contra a cúpula da corporação.

O centro do conflito, afirmam, permanece o mesmo: o gabinete quer receber um balanço completo da Operação Sem Desconto, entender os efeitos da mudança de coordenação e saber se a estrutura atual da Polícia Federal tem condições de dar continuidade à investigação.

A Polícia Federal foi procurada para informar as razões da transferência do caso, o estágio das diligências, a situação da equipe e se recebeu algum pedido de esclarecimento sobre Andrei Rodrigues. O espaço permanece aberto para manifestação.





ICL Notícias

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