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Maryum Ali resgata luta de Muhammad Ali contra o racismo no Despertar 2026

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Por Leila Cangussu

Maryum Ali levou ao palco do Despertar 2026, neste sábado (19), uma reflexão sobre o legado de Muhammad Ali para além do boxe. Ao relembrar episódios da vida do pai, ela mostrou como as experiências do atleta com a segregação racial contribuíram para transformá-lo em uma das vozes mais conhecidas da luta por direitos civis no século 20.

Em sua primeira visita ao Brasil, Maryum contou que descobriu uma coincidência entre a viagem e a passagem de Muhammad Ali pelo país. O boxeador chegou ao Brasil em 18 de setembro de 1971, exatamente 55 anos antes da data em que ela deixou os Estados Unidos para participar do evento. “Eu sinto como se fosse uma conexão espiritual”, afirmou.

A apresentação, intitulada “Mais do que boxe: a luta de Muhammad Ali para além do esporte”, abordou a influência do racismo na formação do atleta, a utilização da pseudociência para sustentar hierarquias raciais e os efeitos dessas ideias sobre as políticas públicas atuais.

“Todos os seres humanos são iguais”

Maryum contou que ainda era adolescente quando um professor lhe mostrou uma reportagem que apontava Muhammad Ali como o homem mais famoso do mundo. Surpresa, ela telefonou para o pai. Em vez de falar sobre a própria fama, o ex-boxeador usou a conversa para transmitir três ensinamentos à filha.

“Ele disse: ‘Não quero que você se sinta melhor do que qualquer outra pessoa por causa da minha fama e do meu sucesso. Todos os seres humanos são iguais. Ame quem você é, mas trate as pessoas com respeito e reserve tempo na sua vida para ajudar quem precisa’”, relatou.

Segundo Maryum, esses valores orientaram sua trajetória profissional. Durante anos, ela trabalhou em programas de prevenção à violência e de desenvolvimento de jovens em comunidades com altos índices de criminalidade nos Estados Unidos.

A experiência também a levou a perguntar ao pai de onde vinha a coragem para enfrentar o racismo e outras injustiças fora dos ringues. A resposta estava nas situações que ele havia presenciado durante a juventude em Louisville, cidade marcada pela segregação racial.

A medalha que não venceu a segregação

Muhammad Ali cresceu em uma realidade na qual a população negra encontrava restrições para circular por determinados bairros e frequentar estabelecimentos. Sua mãe, segundo Maryum, tinha poucas oportunidades de trabalho além dos serviços domésticos.

O assassinato de Emmett Till, adolescente negro morto após ser acusado de assobiar para uma mulher branca, também marcou sua juventude. Maryum tinha idade próxima à da vítima e percebeu que sua própria vida poderia estar em risco por causa da cor de sua pele.

Aos 18 anos, o boxeador conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Roma. Quando voltou para sua cidade natal, acreditou que o reconhecimento esportivo seria suficiente para entrar em um restaurante que atendia apenas pessoas brancas. Mesmo com a medalha, não foi servido.

Segundo o relato apresentado por Maryum, a frustração levou o atleta a jogar a medalha em um rio. O episódio representou uma mudança na forma como ele se posicionava diante da sociedade. “Foi quando ele parou de procurar a aprovação de qualquer pessoa”, disse.

O nome Muhammad Ali

Maryum também falou sobre a decisão do pai de abandonar o nome Cassius Clay e se converter ao islamismo. Para o boxeador, o antigo sobrenome estava ligado à escravidão e não representava sua identidade.

Apesar de a Constituição dos Estados Unidos garantir a liberdade religiosa, jornalistas e setores da sociedade se recusavam a chamá-lo pelo novo nome. Sua religião também passou a ser associada a estereótipos e ataques.

“Eu tenho 58 anos e achava que não veria a mesma coisa acontecendo novamente. A história continua se repetindo. Pessoas entram em mesquitas e assassinam muçulmanos. Mentiras continuam sendo contadas sobre aquilo em que acreditamos”, afirmou.

A postura política de Muhammad Ali se tornou ainda mais conhecida quando ele se recusou a servir na Guerra do Vietnã. A decisão provocou ataques, custou-lhe títulos e interrompeu parte de sua carreira, mas também o transformou em símbolo de movimentos anticoloniais na África e no Oriente Médio.

Maryum Ali relembrou o pai, Muhammad, durante o Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL
Maryum Ali relembrou o pai, Muhammad, durante o Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL

Pseudociência e hierarquia racial

Maryum dedicou parte da apresentação às teorias usadas ao longo da história para justificar a escravidão e a suposta superioridade branca. Ela citou interpretações religiosas, classificações biológicas, medições de crânios, testes de inteligência e a eugenia.

Embora tenham sido refutadas, essas ideias ajudaram a construir uma visão de mundo na qual algumas vidas seriam mais valiosas do que outras. Para Maryum, seus efeitos permanecem presentes nas instituições e nas políticas públicas.

Ela destacou o movimento eugenista nos Estados Unidos, que defendia impedir determinados grupos de terem filhos. Pessoas negras, imigrantes, pobres, pessoas com deficiência e pacientes com transtornos mentais estavam entre os principais alvos. A política levou à esterilização forçada de dezenas de milhares de mulheres e serviu como referência para práticas adotadas pelo regime nazista. “O motivo de essa história ser importante é que precisamos reconhecê-la em suas versões modernas”, afirmou.

Maryum também criticou a retirada de livros sobre racismo e justiça social de escolas e bibliotecas dos Estados Unidos. Para ela, ocultar esses acontecimentos impede que novas gerações compreendam como as desigualdades foram construídas.

“O racismo custa caro”

Durante a palestra, Maryum relacionou o racismo à ausência de um sistema universal de saúde nos Estados Unidos. Segundo ela, após a abolição da escravidão, parte da sociedade norte-americana rejeitou a criação de políticas que também beneficiassem a população negra recém-liberta. “Não queriam que os escravizados libertados fossem saudáveis. Não queriam que eles tivessem acesso à saúde. O racismo custa caro”, afirmou.

Ela também citou a desigualdade no financiamento das escolas. Como parte dos recursos destinados à educação vem de impostos ligados ao valor dos imóveis, regiões historicamente desvalorizadas pela segregação recebem menos investimentos. “Quando você acredita que um povo é inferior, acredita que ele deve ter condições de vida piores”, disse.

Conhecimento para agir

Após a apresentação, Maryum foi questionada sobre o avanço de movimentos autoritários nos Estados Unidos e no Brasil. Ela afirmou que períodos de opressão exigem organização, persistência e compromisso com os direitos humanos. “O mais importante é nunca desistir. Nosso dever, até o último dia de nossas vidas, é permanecer fiel ao que é certo”, declarou.

Para Maryum, encontros como o Despertar devem produzir conhecimento capaz de orientar ações nas comunidades. Ela encerrou a participação defendendo a construção de estratégias coletivas contra o racismo e outras formas de desigualdade.

“Somos uma população e todos temos direito a direitos humanos. Eventos como este trazem um conhecimento que devemos levar de volta às nossas comunidades para agir de maneira estratégica”, concluiu.

Sobre o Despertar

O Despertar 2026 continua neste domingo (20), no Vibra São Paulo. A terceira edição do evento reúne pesquisadores, jornalistas, artistas, educadores e ativistas em debates sobre educação, cultura, democracia, direitos humanos e participação social.





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