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domingo, 20 setembro, 2026
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Manaus precisa de sombra — e de governança

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Quando pensamos em uma cidade sustentável, normalmente lembramos de grandes obras, transporte público, coleta seletiva, energia limpa e tecnologia. Tudo isso é importante. Mas existe uma solução muito mais simples, que está diante dos nossos olhos e que muitas vezes parece ser esquecida: as árvores.

E, em Manaus, esse assunto deveria nos incomodar muito mais.

Vivemos no coração da Amazônia, cercados por uma das maiores florestas do planeta, mas basta andar por algumas regiões da cidade para perceber o quanto falta arborização. Temos muito concreto, muito asfalto e poucas árvores. Em vários lugares, encontrar uma sombra para caminhar em uma tarde quente parece quase um privilégio.

E árvore na cidade não é enfeite. Ela ajuda a reduzir a temperatura, oferece sombra, melhora a qualidade do ar, contribui para a retenção da água da chuva e ameniza os efeitos do calor. Em Manaus, onde sabemos muito bem o que significa enfrentar temperaturas elevadas, esses benefícios deveriam ser tratados como uma necessidade, e não como um detalhe paisagístico.

Mas existe também uma questão social que, às vezes, esquecemos. Uma rua arborizada é mais agradável para caminhar. Uma praça com árvores convida as pessoas a permanecerem ali. Um espaço público com sombra pode fazer diferença para quem precisa esperar um ônibus, caminhar até o trabalho ou simplesmente ter um lugar para estar. E nem todo mundo tem uma casa com quintal, jardim ou área verde. Para muita gente, o espaço público é o único lugar onde esse contato com a natureza é possível.

Por isso, quando uma árvore adulta é cortada, não estamos simplesmente mudando a paisagem. Estamos perdendo algo que levou anos para crescer e prestar serviços ambientais à cidade.

É justamente por isso que a retirada de árvores no Parque das Araras, no Centro de Manaus, me incomoda tanto. Não se trata apenas de gostar ou não de árvores. É preciso perguntar: havia realmente necessidade de retirar aquelas árvores? Foram avaliadas alternativas para preservá-las? Qual será a compensação? E, principalmente, uma muda plantada agora consegue substituir imediatamente uma árvore adulta? Não consegue.

Plantar novas árvores é fundamental, claro. Mas precisamos parar de usar o plantio de mudas como se ele apagasse automaticamente a perda de árvores que levaram décadas para crescer. Uma muda precisa de tempo para atingir o porte, oferecer sombra, contribuir para o conforto térmico e desempenhar todas as funções ambientais de uma árvore adulta.

E aqui entra um ponto fundamental do ESG: governança.

Não adianta ter planos, metas e programas de arborização se não houver planejamento de longo prazo, manutenção, monitoramento, transparência e continuidade das ações. Manaus já possui um Plano Diretor de Arborização Urbana, mas a existência de uma política no papel precisa se transformar em gestão efetiva nas ruas. O próprio debate recente sobre a arborização da cidade, inclusive com cobrança do controle externo sobre manutenção e acompanhamento das mudas, mostra que governança não pode ser deixada de lado quando falamos de meio ambiente.

Isso também é ESG. Meio ambiente não existe separado da forma como uma cidade é administrada.

Por isso, preservar as árvores que já existem deveria ser uma prioridade no planejamento urbano de Manaus. E isso não significa ser contra o desenvolvimento da cidade. Muito pelo contrário.

Significa pensar que desenvolvimento também é construir uma cidade onde as pessoas consigam viver melhor.

Que cidade queremos construir? Uma cidade cada vez mais impermeabilizada, quente e cinza ou uma cidade que consiga conviver com a natureza que, teoricamente, é justamente aquilo que nos identifica?

Para mim, essa não deveria ser uma escolha difícil.

Manaus não precisa escolher entre desenvolvimento e arborização. Precisa entender que as árvores também fazem parte da infraestrutura da cidade. Precisamos plantar, mas, antes de tudo, precisamos preservar as que já estão aqui. Porque uma árvore adulta não é apenas uma árvore. É sombra, é conforto, é biodiversidade, é qualidade de vida e é um pedaço de natureza que conseguimos manter dentro da cidade.

E, em uma cidade amazônica, isso deveria ser tratado como patrimônio e orgulho, não como obstáculo.

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