
A Acadêmicos de Niterói abriu a noite de desfiles no Sambódromo com uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atual chefe do Executivo federal. O presidente esteve presente na avenida acompanhado da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, e do prefeito do Rio, Eduardo Paes. A apresentação, marcada por forte simbolismo nordestino, aconteceu em meio a debates sobre a possibilidade de o desfile ser interpretado como propaganda eleitoral antecipada.
Em uma passagem rápida pela Marquês de Sapucaí, Lula acenou ao público, cumprimentou integrantes da escola e seguiu para o camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro. Durante o desfile, parte da plateia entoou seu nome, ampliando o clima de comoção que marcou a estreia da agremiação no Grupo Especial.
Atual campeã da Série Ouro, a escola levou para a avenida o enredo ‘Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil’, apostando em uma narrativa poética para retratar a trajetória do presidente.
A força simbólica do mulungu
O eixo central da apresentação foi o mulungu, árvore típica do semiárido nordestino, conhecida por florescer com cores intensas mesmo sob condições climáticas adversas. Para a escola, o mulungu representa resistência e renascimento, servindo como metáfora para a trajetória de Lula e, de forma mais ampla, para a história de superação do povo brasileiro.
Em vez de seguir uma linha cronológica tradicional, a Acadêmicos de Niterói optou por construir o desfile a partir de metáforas e imagens simbólicas. O objetivo foi sensibilizar jurados e público por meio de alegorias que dialogassem com temas como desigualdade, esperança e luta social.
A narrativa percorreu momentos marcantes da vida do presidente: a infância no Nordeste, a migração para o Sudeste, o trabalho como operário e a atuação no movimento sindical. Cada fase foi apresentada como parte de um processo coletivo de construção de direitos e cidadania.
Da infância ao Palácio do Planalto
A comissão de frente e os primeiros setores do desfile destacaram a infância de Lula no Nordeste, ressaltando as dificuldades enfrentadas pela população da região. Elementos cenográficos remetiam à seca e às adversidades do sertão, mas também à cultura e à força de seu povo.
Em seguida, a escola abordou a migração para o Sudeste, fenômeno que marcou gerações de nordestinos em busca de melhores condições de vida. O trabalho como operário e a atuação sindical ganharam destaque nas alas seguintes, com fantasias que remetiam às fábricas e às greves históricas do final da década de 1970.
A chegada à Presidência foi retratada como fruto de um movimento coletivo, reforçando a ideia de que a trajetória do presidente está ligada à mobilização popular. Em vez de exaltar apenas o indivíduo, o enredo buscou evidenciar a construção conjunta de uma história política.
Presenças ilustres na avenida
Entre os convidados que desfilaram pela escola estavam os atores Paulo Vieira e Dira Paes, que participaram do cortejo e contribuíram para ampliar a visibilidade da apresentação.
A presença de Lula na Sapucaí, ainda que breve, foi um dos pontos altos da noite. Ao acenar para o público e cumprimentar os componentes, o presidente reforçou o clima de celebração que tomou conta da avenida. Após a rápida aparição, seguiu para o camarote da Prefeitura, onde acompanhou o restante do desfile.
Debates e repercussão
A homenagem gerou discussões nos bastidores e nas redes sociais sobre a possibilidade de a apresentação ser interpretada como propaganda eleitoral antecipada. Especialistas em direito eleitoral têm debatido os limites entre manifestação cultural e promoção política, especialmente em um evento de grande alcance como o Carnaval carioca.
A escola, por sua vez, defende que o enredo está inserido na tradição do samba-enredo de abordar personalidades e temas históricos relevantes para o país. Ao longo das décadas, diversas agremiações já levaram para a avenida figuras políticas, artistas e líderes sociais como protagonistas de suas narrativas.
Para a Acadêmicos de Niterói, a escolha de Lula dialoga com a proposta de exaltar trajetórias de superação e resistência. O mulungu, símbolo maior do enredo, sintetiza essa ideia ao florescer em meio à aridez, reforçando a mensagem de esperança.
Estreia marcada por expectativa
A estreia da escola no Grupo Especial adicionou ainda mais expectativa ao desfile. Após conquistar o título da Série Ouro, a agremiação chegou à elite do Carnaval carioca cercada de responsabilidade e atenção redobrada.
O desfile foi construído com forte apelo visual, explorando cores vibrantes e elementos cenográficos que remetiam ao Nordeste. A bateria, aliada ao samba-enredo, conduziu o público por uma narrativa que buscou equilibrar emoção e crítica social.
Para muitos espectadores, a apresentação simbolizou não apenas a homenagem a uma figura política, mas também o reconhecimento da cultura nordestina e de sua contribuição para a formação do Brasil.
Carnaval como espaço de narrativa social
Historicamente, o Carnaval do Rio de Janeiro se consolidou como espaço de expressão artística e debate social. As escolas de samba frequentemente utilizam a avenida como palco para contar histórias que misturam cultura, política e identidade nacional.
Ao escolher Lula como personagem central, a Acadêmicos de Niterói reafirmou essa tradição. A proposta não se limitou a celebrar a trajetória individual, mas buscou conectar a história do presidente às lutas e aspirações de diferentes segmentos da sociedade.
Independentemente das controvérsias, o desfile marcou a abertura da noite com forte carga simbólica e política. A resposta do público, que entoou o nome do presidente durante a apresentação, evidenciou o impacto da narrativa construída pela escola.
Foto: Léo Franco/AgNews



