Num discurso contundente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas contra o governo dos EUA, ainda que tenha evitado citar textualmente o nome do presidente Donald Trump. Neste sábado, durante a reunião da Comunidade de Estados Latino-americanos (Celac) com a África, em Bogotá, Lula fez alertas sobre o militarismo dos EUA, sobre a cobiça sobre os minerais críticos e a ambição territorial de Trump.
O presidente brasileiro ainda questionou os motivos da guerra no Irã e alertou que as armas de Saddam Hussein – argumento usado para invadir o país – jamais foram encontradas.
Para ele, a América Latina deve agir para evitar que seja de novo “colonizada” e denunciou as ações sobre Cuba e Venezuela.
Esvaziada, a reunião foi considerada no Palácio do Planalto como prioridade e Lula decidiu estar presente para mandar um recado de defesa da América Latina. Javier Milei, presidente da Argentina, optou por viajar até a Hungria para uma reunião do movimento de extrema direita global.
Lula, porém, alertou que está “preocupado”.
“Nós não somos mais países colonizados. Nós conquistamos soberania com a nossa independência. Nós não podemos permitir que alguém possa se intrometer e ferir a integridade territorial de cada país”, disse Lula.
Para ele, o que o mundo assiste é “a falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas”. “O Conselho de Segurança da ONU e os seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz. E são eles que estão fazendo as guerras”, avisou.
“E quando é que a gente vai tomar uma atitude para não permitir que os países mais poderosos se achem donos dos países mais frágeis?”, perguntou.
“Eu estou, como ser humano, como democrata e como presidente do Brasil, indignado com a passividade dos membros que não foram capazes de resolver o problema na Faixa de Gaza, não foram capazes de resolver o problema no Iraque, não foram capazes de resolver o problema na Líbia, não foram capazes de resolver o problema na Ucrânia, não foram capazes de resolver o problema no Irã”, disse.
Lula ainda criticou a decisão de “resolve por guerra”. “Ou seja, quem tem mais canhão, quem tem mais navio, quem tem mais avião, quem tem mais dinheiro, se acha dono do mundo?”, criticou.
“Quando é que nós vamos dizer que isso não é normal? Quando é que nós vamos dizer que nós queremos voltar a ter uma relação civilizada entre as nações, que nós não vamos permitir o fim do multilateralismo e que a gente vai garantir que somente a paz é que pode fazer com que o mundo pobre possa se desenvolver?”, afirmou.
Lula questiona motivos para guerra no Irã
Lula ainda contou a tentativa do Brasil de negociar com os iranianos. “Eu queria dizer para vocês que, em 2010, em 2010, eu fui a Teerã, junto com o presidente da Turquia, para convencer o governo do Irã de que ele não poderia enriquecer o urânio para fazer armas nucleares”, disse.
“E fui dizer para a autoridade no Irã, ao Khamenei [Ali, ex-líder supremo do Irã] e ao Ahmadinejad [Mahmoud, ex-presidente do Irã], de que a gente aceitaria que eles enriquecessem o urânio na proporção que o Brasil enriquece o urânio: para fins pacíficos, para fins científicos”, relatou.
“Fizemos um acordo e quando foi publicado, ao invés dos países europeus e os Estados Unidos aceitarem o acordo, eles aumentaram o bloqueio ao Irã”, lamentou.
Lula ainda criticou os governos americanos. “Eu tinha recebido uma carta do companheiro Obama [Barack, ex-presidente dos Estados Unidos], dizendo que o senhor Ahmadinejad concordasse com aquele acordo, estava tudo certo. Pois nós fizemos da Ahmadinejad assinar o acordo tal qual estava a carta do Obama. Para minha surpresa, quando foi publicado o acordo, tanto a Europa quanto os Estados Unidos aumentaram o bloqueio”, criticou.
“E agora se invadiu o Irã a pretexto de que o Irã estava construindo bomba nuclear. Cadê as armas químicas do Saddam Hussein? Aonde elas estão? Quem achou?”, questionou.
Lula insistiu que não se “pode viver mais num mundo de mentiras, em que as pessoas constroem inimigos constroem uma imagem negativa do inimigo para justificar a destruição”.
Terras raras e o “neoextrativismo”
Lula ainda saiu em defesa de um plano de sul-americanos e africanos para impedir que sejam explorados, sem ganhos para seus países no que se refere às terras raras.
“A cooperação entre os países detentores desses recursos minerais será vital para conseguir agregar valor em nossos próprios territórios e evitar investidas neoextrativistas”, alertou.
Num outro trecho do discurso, ele lembrou do passado de “saques” que latinos e africanos enfrentaram. “Aqui, nesse plenário, todo mundo tem experiência de que o seu país já foi saqueado em tudo que é ouro que tinha, em tudo que é prata que tinha, em tudo que é diamante que tinha, em tudo que é minério que tinha”, afirmou.
“Depois de levarem tudo que a gente tinha, agora, eles querem ser donos dos minerais críticos e das terras raras que nós temos”, alertou.
Lula citou o caso da Bolívia. “Já levaram quase tudo da Bolívia. Agora que a Bolívia tem minerais críticos, é a chance da Bolívia, é a chance da África, é a chance da América Latina não aceitar ser apenas exportador de minerais para eles”, defendeu.
“Quem quiser que venha se instalar e produzir no país, para que a gente tenha a chance de desenvolver o nosso país, nós já fomos colonizados, fizemos luta pela independência, já conquistamos democracia, já perdemos democracia, agora estão querendo nos colonizar outra vez”, alertou.
Cuba e Venezuela
Lula, em seu discurso, fez questão de destacar que decidiu viajar até Bogotá por considerar que o encontro era fundamental.
“Eu cheguei aqui duas horas da madrugada para fazer essa reunião. Por que é preciso que a gente levanta a cabeça. Não é possível alguém achar que é dono dos outros países”, afirmou.
O presidente brasileiro citou as investidas americanas na região.
“O que estão fazendo com o Cuba agora? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático?
Em que parágrafo e em que artigo da Carta da ONU está dito que um presidente de um país pode invadir o outro? Em que documento do mundo está dito isso? Nem da Bíblia”, atacou.
“Não existe nada que permita que isso aconteça. É a utilização da força e do poder para nos colonizar outra vez?”, insistiu.
Ou seja, nós não teremos chances agora que descobrimos que temos terras raras, que descobrimos que temos minerais críticos?
Agora que a gente pode aspirar e dar um salto de qualidade na produção de combustíveis alternativos?
Ou seja, é preciso que a gente possa gritar alto e bom som para não permitir que isso aconteça em outros países, o que já aconteceu em Gaza recentemente.
Iraque e Bush
Lula ainda apontou para o episódio entre ele e o governo dos EUA, há mais de 20 anos.
“Eu não esqueço nunca, que em dezembro de 2002, eu já tinha sido eleito presidente da República do Brasil, e o presidente Bush [George W, ex-presidente dos Estados Unidos] me convidou para ir a Washington para conversar com ele. Eu não tinha assumido a presidência ainda”, disse.
“Ele queria que eu fosse participar da Guerra do Iraque. Eu disse para ele, mas, presidente, eu não conheço Saddam Hussein. O Iraque fica a 14 mil quilômetros do meu país. Eu nunca fui no Iraque”, contou.
“Por que fazer guerra com ele? Por que destruir para reconstruir? Porque na época me ofereceram, se você participar da guerra, as empresas brasileiras vão ajudar a reconstruir o Iraque. Por que eu vou destruir para reconstruir? Se está construído, deixa que está construído.
Eu disse para ele, presidente Bush, eu não participo da Guerra do Iraque”, respondeu, destacando que seu foco era a guerra contra a fome.
Agora, ele insiste que essa é a guerra que África e América Latina precisam combater, para “acabar com o analfabetismo, acabar com a falta de energia elétrica, é essa guerra que nós temos que fazer”.
“Porque nós estamos perdendo o direito de nos indignarmos. Estamos perdendo o direito. Vocês acham que eu quero guerra contra alguém? Eu não quero guerra com ninguém. Nem com a menor ilha do mundo, nem com a menor ilha do mundo, e muito menos com os Estados Unidos, com a China, com a Rússia”, completou.



