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quarta-feira, 11 fevereiro, 2026
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Luís Costa Pinto sugere 10 séries e livros para você maratonar

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Por Luís Costa Pinto

Sou um consumidor contumaz de séries e um devorador de livros, embora ande precisando de tempo para ler mais e também para maratonar novas produções dos streamings. Leio e consumo filmes, documentários e seriados não apenas por hobby – embora esses sejam meus hobbies principais, além de assistir a jogos de futebol torcendo pela tática, pelo melhor elenco, pelo desequilíbrio de gênios em campo e deixando para me destruir emocionalmente apenas nos jogos do Santa Cruz (isso já me assegura imensa dose de sofrência todos os anos, anos a fio).

Atendendo a um pedido de nosso editor do site do ICL Notícias, Chico Alves, um jornalista ligado na tomada e com visão 360º sobre o panorama do mundo, bem à moda antiga, dos tempos em que fazíamos Jornalismo de alta octanagem nas revistas semanais, organizei para você, caro leitor, uma lista com três dicas de séries às quais assisti nesse 2025 que ora acaba e de três livros que li. Mas, como achei que um trio de indicações seria pouco para elencar um rol de sugestões, tomei a liberdade de propor um bônus track de dois outros títulos em cada categoria. Fundamento em breves resenhas o porquê de eu estar sugerindo cada uma das dicas a seguir.

 

Séries:

1.    O Urso, Disney Plus. Este foi o ano da 3ª temporada, a melhor das três. Em 2026 teremos a 4ª temporada e provavelmente será melhor que atual. A 2ª conseguiu superar a 1ª, que surgiu como um estouro do streaming em 2021, logo depois de termos vencido a pandemia. A série se passa em torno da transformação de uma lanchonete tradicional de Chicago, “The Original Beef”, onde eram servidos sanduíches de carne assada num molho peculiar e original, num restaurante de alta gastronomia que disputa estrelas do Guia Michelin. Carmy, o ator Jeremy White, assume o negócio da família depois da morte repentina do irmão. Ele regressa de Nova York, para onde havia ido trabalhar no Eleven (um estrelado restaurante novaiorquino) e, além de aprender a tocar uma casa com culinária de alto nível, escapar dos dramas familiares que sempre foram a marca de três irmãos, tios, primos e amigos de bairro. Os pais de Carmy sempre foram abusivos, egóicos e compulsivos. O pai, alcoólatra, só surge na série por referências – morreu anos antes do irmão mais velho, que tocava o The Original Beef. A árdua trajetória percorrida para a obtenção das estrelas Michelin é apenas pano de fundo para revelar dramas, contradições e histórias ocultas na vida de cada um dos personagens. É uma série para ser assistida com foco e atenção e perceber como o próprio espectador vai se descobrindo e desvendando seus próprios dramas pessoais. É absolutamente imperdível.

2.    Os Donos do Jogo, Netflix. Tomando por base a história real da troca de gerações do jogo do bicho no Rio de Janeiro, tema da série documental “Estava Escrito”, da Globoplay, os produtores Manuel Rangel e Heitor Dhalia (que também é o diretor da produção) criaram esta série ficcional que eu digo ser uma espécie de spin off do documentário das Organizações Globo. Em minha opinião, e a melhor série produzida para o streaming brasileiro e conquistou enorme mercado no exterior. As ações criminosas dos bicheiros do Rio não são tangenciadas nem romantizadas nessa série. Ao contrário, são apresentadas em sua crueldade real. Mas, sem excessos e sem apelos que façam a violência transbordar para o insuportável. O elenco é um dos pontos altos da produção da Paranoid, produtora em que Dhalia e Rangel são sócios, e a construção do campo semântico da criminalidade carioca em que estão assentados os diálogos da série é algo que sobressai de forma esplendorosa para quem se dedica a maratonar Os Donos do Jogo. A segunda temporada está já autorizada e em fase de roteirização. Provavelmente chegará ao streaming antes do fim do ano de 2026. Mergulhe sem medo e sem reservas nessa dica, pois é diversão garantida e de qualidade.

3.    The Morning Show, Apple TV. Em 2025 desembarcou nas telas dos assinantes da Apple TV a 4ª temporada dessa série que foi lançada em 2019 e teve sua sequência interrompida pela pandemia por coronavírus Covid-19. Jeniffer Aniston, Reese Whiterspoon e Steve Carell, os protagonistas que atravessam transversalmente as quatro temporadas e estarão na 5ª, já anunciada para 2027, vivem o drama diário de cuidar da qualidade e manter de pé o principal programa de TV aberta dos Estados Unidos e estruturar o canal onde trabalham e do qual alguns deles terminam por se tornarem sócios. Conflitos éticos, temas contemporâneos como misoginia, assédios e disseminação de fake news e de discursos de ódio, além do embaçamento do cenário norte-americano com o crescimento da extrema-direita, estão presentes nos roteiros de forma muito bem colocada. Há também uma abordagem muito procedente sobre a influência das big techs e das empresas financeiras na determinação da pauta dos noticiários e no trabalho dos jornalistas e apresentadores. É uma série para ser maratonada com o cuidado de cotejar, constantemente, o que está na ficção com nossa vida real – a daqui, brasileira, e a dos EUA. Recomendo fortemente.

Bônus track de séries:

1.    O Caçador de Marajás, Globoplay. É uma série documental em sete episódios dirigida primorosamente por Charly Braun e produzida pela Boutique Filmes. Braun e a Boutique, financiados pelas Organizações Globo, que bancou a produção, terminaram por realizar o melhor documentário sobre a vertiginosa ascensão e a ruidosa queda de Fernando Collor de Mello – o primeiro presidente brasileiro eleito pelo voto popular depois da ditadura militar que durou de 1964 a 1985 e, também, o primeiro presidente a ser cassado por impeachment em toda a História das repúblicas no mundo. A série revisita a Alagoas governada por Collor, narra a formação de seu grupo político, mostra as fragilidades de sua construção como “caçador de marajás” com o auxílio da mídia tradicional brasileira e termina por ser o local onde as Organizações Globo fazem o mais relevante mea culpa histórico da relevância que tiveram no resultado das eleições de 1989 em razão de terem levado ao ar uma versão distorcida do último debate presidencial daquele pleito. Os muitos erros e os escassos acertos da agenda de Collor como presidente também são apresentados de forma didática no documentário. A partir do 5º episódio, até o 7º, final, a produção trata de focar na derrocada do governo e da aura política de Fernando Collor a partir das denúncias formuladas pelo irmão dele, Pedro Collor de Mello. A presença de Paulo César Farias, o PC, caixa de campanhas de Collor desde Alagoas e antagonista de Pedro na condução de grandes lobbies financeiros, é sentida por toda a série. Os depoimentos de Thereza Collor legitimam tudo o que sempre foi perguntado sobre as motivações das denúncias iniciais de Pedro Collor à revista Veja, na bombástica entrevista concedida por ele em abril de 1992 e que iniciou a chamada “CPI do PC”. Vale muito a pena sentar em frente à TV e maratonar O Caçador de Marajás para saber mais sobre a história contemporânea do Brasil.

2.    Ângela Diniz, Amazon. Livremente baseada no podcast de imenso sucesso “Praia dos Ossos”, da Rádio Novelo, a série produzida pela Conspiração Filmes tem nos desempenhos de Marjorie Estiano, que faz o papel d’A Pantera de Minas, e de Thiago Lacerda, um monumental Ibrahim Sued apresentado no esplendor de suas contradições, pontos altos. Porém, no capítulo final, a cena do julgamento de Doca Street, onde se enfrentaram Evandro Lins e Silva, brilhantemente protagonizado na ficção por Antônio Fagundes, e Evaristo de Moraes Filho, encarnado por Emílio de Melo, é desde já uma sequência antológica do streaming brasileiro. Trechos desse episódio final surgem como teasers dos sete episódios anteriores. Contudo, tornou-se de imediato um clássico antológico a forma visceral como Fagundes reproduz a apaixonada e abjeta sustentação oral de Lins e Silva (talvez a maior oratória da advocacia criminal brasileira) na defesa da tese de “crime em defesa da honra” que levou o Tribunal do Júri de Cabro Frio (RJ) a dar ao assassino de Ângela Diniz uma pena ínfima de pouco mais de dois anos e início de cumprimento dela em liberdade. Fagundes, cujo corpanzil e gestos largos em nada se parece com o Evandro Lins e Silva magro, baixo e contido da vida real, foi um espetáculo em cena. “Ângela Diniz” vale a viagem dos oito episódios. Não fosse pelo já escrito, ao menos para se rever a Belo Horizonte pacata e recatada e o Rio de Janeiro baladeiro do início dos anos 1970.

Livros:

1.    Trincheira Tropical, Ruy Castro, Cia das Letras. Num relato histórico cujo protagonista central é o Brasil de Getúlio Vargas tendo por ator coadjuvante o movimento integralista (de extrema-direita, fascista) brasileiro, o autor, um craque da escrita biográfica e um de nossos melhores textos vivos, traça um panorama do país do início dos anos 1930 até a deposição do ditador que havia manipulado os integralistas e também o Partido Comunista Brasileiro para governar a golpes de demonstre das Constituições. A história retratada nesse que é um dos melhores livros já escritos pela pena refinada de Castro corre em paralelo à ascensão e à queda do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha. Por instinto de sobrevivência, ardilosamente, como todos sabemos, Getúlio é obrigado a girar a chave de sua posição ideológica e, a partir de 1942, mover as peças do tabuleiro internacional e põe o Brasil como aliado central dos Estados Unidos no confronto com o Eixo. Ruy Castro narra, na obra, os bastidores dessa conversão brasileira no sentido de tornar a aliança militar e econômica com o governo de Franklin Roosevelt em algo verdadeiramente essencial para a manutenção da liberdade no mundo. É um novo resgate de pedaço de nossa história contemporânea feito com a originalidade estilística e o rigor de apuração de Castro, autor de O Anjo Pornográfico (biografia de Nelson rodrigues), Estrela Solitária (biografia de Garrincha), A Onda se Ergueu do Mar (a história da Bossa Nova), Chega de Saudade (também um relato sobre a Bossa Nova e as parcerias surgidas a partir dela), entre outras obras essenciais da literatura brasileira.

2.    Velar por Ela, Jean-Baptiste Andrea, Vestígio. Em 2024, Andrea recebeu o Prêmio Goncourt, o mais prestigioso do panorama literário da França, por esse livro que conta os mistérios em torno de uma obra-prima esculpida em mármore e guardada num Seminário católico no norte da Itália. O romance tem como atores centrais um casal de jovens diferentes em seus círculos sociais, desprezados pelas respectivas famílias e separados por diversos degraus na escala social italiana do fim de 1919 e de toda a década iniciada em 1920. Ou seja, no período entreguerras europeu. As ferramentas de descritivas do autor são sofisticadas, a maneira como escreve o transbordamento de emoções entre os personagens dessa história ficcional original é lida e digna de registro atento e o pano de fundo de toda a história surpreende pela originalidade. Velar por Ela é um livro que fala de religião, de catolicismo, de Deus, de conversão… mas vai muito além disso e das emoções epiteliais que possa causar. Vale o mergulho, vale a viagem.

3.    Ioga, Emmanuel Carrère, Alfaguara. Foi o livro que presenteei a minha esposa, instrutora de ioga em Brasília e promotora de cursos e retiros já há longos dez anos, no fim do ano passado. Depois, repeti o presente com uma de minhas filhas, também yoguine. É uma obra profunda, não é necessariamente para praticantes de ioga, é um livro sobre a vida, seus caminhose descaminhos; suas encruzilhadas e o peso de cada decisão tomada. Não é um romance. É um relato biográfico em primeira pessoa do mergulho Carrère naquilo que ele mesmo chama de “a minha loucura” e o ressurgimento de um novo homem depois de uma viagem à Grécia onde esperava buscar o seu “eu”. E o reencontrou. Espetacular autor de Limonov e O Reino, obras que lhe renderam o Goncourt francês, Emmanuel Carrère se apaixonou e entrou numa relação duradoura e estável que o levou a se aprofundar na meditação e na ioga e lhe tiraram o foco para a produção literária. No auge desse período, quando está num retiro de silêncio de dez dias no interior da França, recebe a notícia que um de seus melhores amigos havia sido assassinado no atentado do Charlie Hebdo. Ao regressar a Paris, ele encontra uma cidade em polvorosa e sua vida pessoal se desorganiza em meio àquele caos. A receber o diagnóstico de transtorno bipolar, tem a antevisão de que só a Grécia poderia salvá-lo – e salvou, dando-nos de presente um livro seminal para quem busca reencontros dentro de si.

Bônus track de livros:

1.    O Príncipe do Box, Fábio Altman, Seja Breve. É um livro monumental contido em escassas 81 páginas. Altman, redator-chefe da revista Veja há mais de duas décadas, tendo tido passagens pela própria Veja nos anos 1990, como correspondente em Paris, e depois na Rede Globo, na revista Época e na Placar, é dono de um dos mais perfeitos textos da imprensa brasileira. Também é um raro profissional de imprensa cuja reputação de bom caráter e de correção jornalística supera e torna dispensável o conceito e as opiniões das redações que o abrigam. Nesse curto “O Príncipe do Boxe”  traça o perfil do maior atleta do boxe brasileiro, Éder Jofre, o Galo de Ouro, campeão mundial dos pesos-pena e reconhecido em todo o planeta pela elegância de seus golpes. Também escreve, paralelamente, a trajetória fabulosa de Waldemar Zumbano, tio de Jofre e avô do próprio Fábio Altman. A ideia de escrever o livro surgiu a partir de uma visita feita por Altman a um Éder Jofre já castigado pela perda de memória provocada pelo Alzheimer. É uma obra-prima do perfil biográfico. Vale demais o mergulho.

2.    Roosevelt e Lindbergh – Aqueles Dias Raivosos, Lynne Olson, Globo Livros. No final dos anos 1930, um herói norte-americano, o aviador Charles Lindbergh, era a principal voz nos Estados Unidos a pregar o isolacionismo do país em relação aos conflitos emergentes na Europa inflamada pelo nazismo de Adolf Hitler e pelo fascismo de Benito Mussolini. Lindbergh pregava que os EUA deviam se manter de costas para a Europa e fundou o America First Comitee. Ou seja, uma espécie de movimento “MAGA” daqueles tempos tão estranhos como os atuais. O presidente norte-americano era Franklin Delano Roosevelt, formulador do New Deal que havia resgatado a economia nacional depois do crash da Bolsa de Nova York em 1929. No início de 1940, Lindbergh ensaiou uma candidatura presidencial para se contrapor àquele que seria o terceiro mandato consecutivo de Roosevelt. O desafio, porém, não foi adiante. Ainda assim, o antagonismo de Franklin Roosevelt e Charles Lindbergh serviu como pano de fundo para o romancista Philip Roth produzir uma de suas obras seminais, Complô Contra a América. O livro de Lynne Olson conta a história real daqueles tempos e do antagonismo entre os dois personagens históricos. É leitura densa, descritiva, mas, prazerosa para quem gosta de se aprofundar em passagens marcantes de nossos tempos contemporâneos e escrutinar o estilo de liderança de personagens fantásticos que caminharam conosco há tão pouco tempo. Vale, vale!



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