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terça-feira, 29 setembro, 2026
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Livro revela ação de montadoras, bancos e metalúrgicas durante a ditadura militar

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Por Rodrigo de Andrade*

O livro-reportagem Repressão Sociedade Anônima – Como banqueiros, fabricantes de veículos e metalúrgicas agiram para reprimir trabalhadores na ditadura militar, dos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, reúne documentos inéditos, depoimentos e pesquisas sobre a colaboração de empresas com a repressão durante a ditadura militar brasileira. A obra investiga a atuação de montadoras, bancos e indústrias na vigilância e perseguição de trabalhadores entre 1964 e 1985.

O lançamento do livro ocorre nesta terça-feira (29), às 18h30, na Livraria da Alameda, em São Paulo, com participação dos autores em um debate sobre a pesquisa, a memória e as relações entre o setor empresarial e a repressão aos trabalhadores durante a ditadura militar.

Entre os documentos apresentados está uma lista do Serviço Nacional de Informações (SNI) com nomes de militares que ocupavam cargos nos setores de segurança de empresas do ABC paulista e da capital, incluindo instituições bancárias. O livro também revela a existência de uma unidade do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em São Bernardo do Campo, conhecida como “Dopinho do ABC”, localizada nas proximidades do Sindicato dos Metalúrgicos. Segundo a obra, o local era utilizado para prender e torturar trabalhadores.

Os autores apresentam ainda um orçamento detalhado do chamado “Plano de Mobilização Anti-Insurrecional”, elaborado durante a criação da Operação Bandeirante (OBAN). Segundo os cálculos apresentados no livro, o valor atualizado ultrapassaria R$ 83 milhões. A publicação também descreve a atuação do Clube Paulista, grupo que reunia empresários e banqueiros e que, segundo os autores, arrecadava recursos para financiar ações de repressão.

Grevistas acenam com cartazes que dizem ‘tudo parado na Scania’, em greve dos anos 1980 – Acervo Folhapress

Espionagem dentro das fábricas

O livro detalha o envolvimento de cinco montadoras (Ford, General Motors, Volkswagen, Scania e Mercedes-Benz) com o financiamento de ações repressivas e a colaboração com militares. A obra relata casos de espionagem, perseguição e compartilhamento de dados pessoais de funcionários com órgãos de repressão.

Um dos episódios citados envolve a Scania, onde um bilhete supostamente encontrado pela equipe de segurança no armário de um trabalhador teria motivado a abertura de inquéritos policial e administrativo contra o operário.

A publicação também aborda a influência da repressão sobre as condições de trabalho nas fábricas. Segundo os autores, a busca por produtividade e pela manutenção da produção durante o chamado “milagre econômico” contribuiu para um cenário de precarização, com acidentes de trabalho, mutilações e mortes de operários. Os casos chegaram a ser noticiados pela imprensa internacional, enquanto eram censurados no Brasil.

As mulheres também são citadas na obra como vítimas da cultura autoritária nas fábricas, com relatos de preconceito e de restrições a direitos trabalhistas.

Pesquisas internacionais

Além dos episódios de repressão no ambiente industrial, Repressão Sociedade Anônima apresenta pesquisas em arquivos internacionais sobre a influência dos Estados Unidos no cenário político e empresarial brasileiro durante a ditadura. O livro também aborda a trajetória de Franz Stangl, ex-integrante do regime nazista que trabalhou na Volkswagen em São Bernardo do Campo, e sua família.

Outro episódio investigado pelos jornalistas envolve articulações de empresários e integrantes da diplomacia sueca para impedir a concessão do Prêmio Nobel da Paz a dom Hélder Câmara, arcebispo-emérito de Olinda e Recife. A obra afirma apresentar documentos inéditos sobre tratativas e reuniões envolvendo uma montadora de veículos e o Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Para os autores, a publicação busca contribuir para o resgate da história da ditadura e de seus efeitos sobre os trabalhadores brasileiros, além de colaborar com iniciativas de reparação e justiça.

*Estagiário sob a supervisão de Schirlei Alves





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