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Líder de doações em 2026, Rei do Gás aparece em vídeo com Bell Marques e Ronaldo Caiado em festa privada

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Por André Uzêda

Em um vídeo de 21 segundos, do qual o núcleo investigativo do ICL Notícias  teve acesso com exclusividade, o cantor Bell Marques aparece bem à vontade em um ambiente festivo, cercado por copos e taças, cantando a música “Faraó”.

Apesar de ser um dos grandes nomes do carnaval baiano, não é o ex-vocalista da banda Chiclete com Banana que mais chama a atenção. Na mesma mesa, ao lado de Bell Marques, estão outros dois figurões da política nacional: o megaempresário Carlos Suarez, conhecido como o Rei do Gás pelo controle que exerce no setor, e Ronaldo Caiado, então governador de Goiás e hoje candidato à presidência da República pelo PSD.

As imagens foram gravadas durante o fim do ano de 2024, dentro da Ilha dos Frades, uma área paradisíaca de oito quilômetros de extensão localizada na Baía de Todos os Santos e pertencente à cidade de Salvador. O Ministério Público da Bahia e o Ministério Público Federal, em uma ação civil pública movida contra Suarez em 2022, apontam que a Ilha dos Frades passou a ser “dominada” pelo Rei do Gás.

É lá que o megaempresário, de perfil discreto, costuma receber políticos de diferentes colorações partidárias em eventos privados. A capacidade de transitar entre muitos partidos políticos pode ser comprovada pelas doações feitas pelo Rei do Gás nestas eleições. Até aqui, Carlos Suarez já fez repasses de R$5,7 milhões, que o colocam em primeiro lugar no ranking de maior doador como pessoa física em 2026.

Carlos Suarez, megaempresário de 74 anos, é o maior doador individual das eleições de 2026

Carlos Suarez, megaempresário de 74 anos, é o maior doador individual das eleições de 2026

As quantias mais vultosas foram repassadas para os diretórios nacionais das legendas. O Rei do Gás doou, separadamente, um milhão de reais para PSD (de Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab), MDB, União Brasil, PP, e PSDB. O PSB recebeu pouco menos, R$700 mil.

Conexão entre Caiado e Suarez

A relação entre Suarez e Caiado vai muito além de encontros informais embalados por antigos sucessos da Axé Music. A reportagem levantou e cruzou dados públicos que revelam que, durante os sete anos e meio em que Caiado esteve à frente do governo de Goiás, entre janeiro de 2019 a março de 2026, uma série de projetos de lei e medidas administrativas favoreceram o avanço dos negócios de Suarez no setor de gás no estado. 

Hoje, a empresa TermoGás, que pertence a Carlos Suarez, detém 74,129% do capital total da Agência Goiana de Gás Canalizado, mais conhecida pela sigla GoiasGás. A Termogás também tem amplo poder de indicação e contratação dentro da estrutura administrativa, com participação ativa nas decisões.

De acordo com relatório independente divulgado pela própria Goiasgás, a antiga estatal fechou 2025 com R$10,7 milhões de capital social acumulado, mas precisou cobrir rombo acumulado de R$11,2 milhões – terminando o ano com saldo negativo. 

Os relatórios de administração da GoiasGás destacam que, no momento, a empresa permanece em estágio pré-operacional, mantendo uma “estrutura enxuta”. 

Por outro lado, em razão de um projeto de lei sancionado pelo próprio Caiado, há uma expectativa de retomada dos negócios a longo prazo. O governo de Goiás firmou um contrato de concessão com a empresa para fornecimento exclusivo de gás no estado até 2055, renovável até 2085.

Procurada, a assessoria de campanha do presidenciável do PSD disse que “não há qualquer favorecimento” ao empresário Carlos Suarez nas ações tomadas pelo Governo de Goiás na gestão de Ronaldo Caiado (leia mais abaixo).

Caiado atuou para flexibilizar a GoiasGás

Logo no primeiro ano como governador, em dezembro de 2019, Ronaldo Caiado enviou um projeto de lei à Assembleia Legislativa autorizando a desestatização de cinco empresas – entre elas, a GoiasGás.

O projeto foi aprovado e sancionado pelo governador no mês seguinte, flexibilizando as regras para que empresas privadas pudessem ter mais autonomia em sociedades mistas – com transferência total ou parcial de participação societária, incluindo o poder de eleger a “maioria dos administradores da sociedade” dentro da empresa.

Os efeitos práticos dessa mudança foram sentidos nos anos seguintes. Em 2022, documentos da própria GoiasGás mostram que o Comitê de Elegibilidade da empresa acatou indicações feitas pela Termogás para ocupar cargos para setores como Conselho de Administração, Conselho Fiscal, Diretoria Técnico Comercial e Diretoria Administrativo Financeiro. Como a empresa está em em estágio pré-operacional, é a Termogás quem banca os salários dos diretores que indicou.

Paralelo a isso, naquele mesmo ano, a empresa de Suarez ampliou sua participação dentro da Goiasgás ao comprar as cotas da Commit. A venda foi autorizada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), autarquia vinculada ao Ministério da Justiça, e aconteceu em quatro estados: Amapá, Piauí, Rondônia e Goiás. A Commit possuía as cotas da antiga Gaspetro, braço da Petrobras que cuidava do setor de gás, mas que em 2021 foi privatizada pelo governo de Jair Bolsonaro.

Com a compra, a Termogás passou a deter a maioria esmagadora do capital total da GoiasGás: 74,129%. O estado tem 17%. Outras cinco empresas dividem pouco menos de 9% das ações restantes.

A Termogás passou a ser dona também de 49% das ações ordinárias da empresa – aquelas que dão direito a voto no conselho administrativo. Por lei, o estado domina estas ações, concentrando 51%. O atual presidente, Erik Figueiredo, foi indicado pelo governo de Goiás.

A GoiasGás foi constituída em 2001, na gestão do então governador Marconi Perillo (PSDB). O modelo aprovado previa que o estado tivesse o controle do capital votante, mas com abertura para participação de empresas privadas escolhidas por licitação. Os vencedores foram a Gaspetro (então pertencente à Petrobras) e a GásGoiano – empresa formada pela multinacional Shell e a CS Participações Ltda, de propriedade e com as iniciais Carlos Suarez. 

Na época da formação da GoiasGás, o governo de Goiás tinha 51% das ações totais; a Gaspetro 19,5% e a GásGoiano outros 29,5%. Em 2004, a Shell vendeu suas ações, dando início à escalada de domínio de Suarez na empresa. 

Além de Goiás, Suarez é sócio de oito empresas distribuidoras de gás no país, com autorização de transporte por gasoduto em estados do Nordeste (Piauí e Maranhão), Norte (Amazonas, Pará, Rondônia e Amapá) e Centro-Oeste (Goiás), além do Distrito Federal.

Projeto de gasoduto com mesmos diretores da GoiasGás

Em 2023, já reeleito governador, Caiado propôs uma reforma administrativa reorganizando a nova gestão. Com a mudança, a GoiasGás passou a fazer parte da Secretaria-Geral de Governo, atuando mais ativamente na estrutura administrativa e estratégica do estado.

Com mais autonomia, a GoiasGás, ao lado da Gasmig (de Minas Gerais) e da CebGas (de Brasília) lançaram em 2024 uma chamada pública para receber propostas de empresas interessadas em fornecer gás nos pontos de entrega atendidos pelo sistema de transporte da Transportadora de Gás Brasil Central (TGBC).

A TGBC é uma empresa fundada em 2002 com sede em Goiânia e criada para planejar, construir gasodutos e distribuir gás natural no centro do Brasil. Ela é 100% controlada pela CS Participações, de Suarez.

 A TGBC tem como diretores André Macedo e José Carlos Garcez, respectivamente diretor e presidente da Termogás, a empresa que detém a maior parte do capital total da GoiasGás. Garcez, ao lado de Suarez, é também sócio da Termogás.

Pelo organograma da própria GoiasGás, Macedo ocupa atualmente dois cargos dentro da empresa. É diretor administrativo e financeiro e diretor técnico e comercial. Os mandatos começaram em 2024 e se estendem até dezembro deste ano.

O projeto da TGBC ainda não saiu do papel. Em dezembro do ano passado, o Ibama emitiu uma Licença de Instalação para o início das obras. O projeto prevê a construção do gasoduto de transporte partindo da cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, passando pelo Triângulo Mineiro, por Goiás, até chegar no Distrito Federal. O edital da GoiasGás, CebGas e Casmig prevê a compra de 9,4 milhões de metros cúbicos de gás por dia. O início de fornecimento está previsto para janeiro de 2031.

Um relatório interno da própria GoiasGás, assinado pelo presidente Erick Figueiredo pelo diretor André Macedo, indica que “a alternativa de transporte por gasoduto, quando disponibilizada, é a que dará a condição para a operação comercial definitiva da GoiasGás”. O documento ainda frisa que a empresa tem acompanhado o desenvolvimento do projeto do Gasoduto do Brasil Central. 

No seu penúltimo ano no Palácio das Esmeraldas, Caiado sancionou a lei que concede à GoiasGás o direito de explorar, com exclusividade, os serviços de gás canalizado do estado por 30 anos, com possibilidade de renovar o contrato por mais três décadas. A concessão inclui a exploração de gás natural, biometano e atendimento a consumidores livres, autoprodutores, autoimportadores e geração termelétrica.

As empresas GoiasGás, Termogás e TGBC foram procuradas para comentar os pontos levantados pela reportagem, mas não enviaram respostas. O espaço segue aberto para posicionamentos.

Relação de Suarez com Kassab

Além de ter doado R$1 milhão para o PSD de Caiado, Suarez ainda guarda uma outra conexão com a principal liderança da legenda. O Rei do Gás é sócio indireto do sobrinho de Gilberto Kassab, presidente nacional do partido e candidato a vice na chapa de Caiado.

Pedro Grunauer Kassab é administrador e representante legal na holding Diamante Participações, que tem em seu guarda-chuva a empresa Diamante Geração de Energia. Já esta empresa é sócia da Termo Norte, de Carlos Suarez, na UTE Brasília.

A UTE Brasília é um projeto de construção de uma usina termelétrica na capital federal, que pretende construir uma unidade de geração de 1.470 MegaWatts, a partir da queima de gás natural. Para viabilizar o projeto, estão previstas três obras: a instalação da própria usina, a construção do gasoduto Brasil Central (TGBC) e um ramal de distribuição de energia para Companhia Brasiliense de Gás (Cebgás), com conexão para a GoiasGás e Gasmig.

Em nota, a assessoria nacional do PSD e de Gilberto Kassab disse que a doação “foi feita de maneira espontânea, e foi fruto de uma decisão unilateral do doador, aceita pelo partido”. E que tal repasse “obedeceu aos requisitos da legislação em vigor, não tendo nenhuma vinculação com o projeto citado”.

Em 2014, Maria Paula Lanat Suarez, esposa do Rei do Gás do segundo casamento, doou R$300 mil para a campanha de Caiado para o Senado. Na época, o político foi eleito com mais de 1,2 milhão de votos.

Já nestas eleições, Gracinha Caiado, esposa do ex-governador de Goiás, é candidata ao Senado este ano pelo União Brasil. E Daniel Vilela, que tenta a reeleição em Goiás pelo MDB, é apoiado por Ronaldo Caiado. Dois partidos que receberam R$1 milhão, cada, de doação de campanha de Carlos Suarez.

“Sem favorecimento”

Em nota, a assessoria de Ronaldo Caiado disse que não há nenhum contrato entre a empresa GoiasGás e o Governo do Estado – o que “descaracteriza qualquer suposição de favorecimento”.

A assessoria disse ainda que a CS Participações, de Suarez, integra a composição acionária da GoiasGás desde a sua criação, em 2001. Ou seja, antes da gestão Caiado.

Foi pontuado também que “a lei que criou a GoiasGás previa à empresa o direito de explorar o serviço de distribuição e comercialização de gás combustível canalizado, de produção própria ou de terceiros no estado de Goiás, podendo inclusive importar e participar de outros empreendimentos cuja finalidade esteja relacionada com seu objeto social”.

A assessoria de campanha de Ronaldo Caiado foi procurada para comentar os projetos de lei apresentados pelo então governador que ajudaram o avanço dos negócios de Carlos Suarez em Goiás, bem como a proximidade entre os dois. No entanto, não foram enviadas respostas até o fechamento desta edição.

O megaempresário Carlos Suarez também foi procurado por meio do seu advogado, Roberto Podval. Mas, segundo o mesmo, não foi possível localizá-lo pois ele está viajando. 

Por meio da assessoria, consultando a agenda de shows via empresário, foi informado que não há registro do cantor Bell Marques ter tocado no réveillon na Ilha dos Frades.

Confira a íntegra da nota de Caiado:

Não há qualquer favorecimento ao empresário nas ações tomadas pelo Governo de Goiás na gestão de Ronaldo Caiado.

O grupo CS integra a composição acionária da GásGoiás desde a sua criação, em 2001, então com 29,5%, junto com a Gaspetro (19,5%), cabendo ao Governo de Goiás os restantes 51%.

Posteriormente, houve a saída, primeiro, da Shell e, posteriormente, da Gaspetro. Essas participações passaram a ser detidas pela Termogás.

Embora a Termogás detenha 74,129% do capital total, o controle acionário continua sendo do Governo de Goiás, com 51% das ações ordinárias, com direito a voto.

A lei que criou a GásGoiás – repetindo, datada de 2001, portanto, muito antes da gestão Caiado – previa à empresa o direito de explorar o serviço de distribuição e comercialização de gás combustível canalizado, de produção própria ou de terceiros no estado de Goiás, podendo inclusive importar e participar de outros empreendimentos cuja finalidade esteja relacionada com seu objeto social.

Não há ainda hoje estrutura de gás canalizado em Goiás. Isso significa que a GoiásGás compete como uma empresa qualquer no estado. Além disso, importante registrar que não há nenhum contrato entre a empresa e o Governo do Estado – o que descaracteriza qualquer suposição de favorecimento.

Por fim, vale ter presente que a GoiásGás não gera lucro e a sua diretoria e conselhos não são sequer remunerados.





ICL Notícias

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