Nesta segunda-feira (4), o presidente Lula (PT) anuncia o lançamento do que vem sendo chamado como Desenrola 2.0, programa que visa apresentar saídas para o crescente endividamento da população brasileira. Entre os endividados, desponta os jovens, que, com fácil acesso a crédito bancário, tem colocado o futuro das finanças em risco.
A maioria usa os créditos para quitar dívidas para voltar a consumir, mantendo um ciclo que vira uma bola de neve lá na frente, com impacto direto na capacidade de planejamento financeiro e na construção de patrimônio.
O principal vilão é o uso contínuo do cartão de crédito, somado a limites elevados na conta bancária e facilidade de contratação de crédito, ingredientes que acabam funcionando como uma barreira invisível a objetivos como financiar um imóvel, adquirir um veículo ou reorganizar as finanças.
Dados do Banco Central mostram que o número de jovens com acesso ao crédito dobrou em oito anos, passando de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024. A expansão é mais intensa entre pessoas de menor renda: cerca de 70% recebem até dois salários mínimos.
Múltiplas contas, menor controle
A digitalização ampliou as portas de entrada no sistema financeiro. Atualmente, cada brasileiro mantém, em média, entre seis e sete relacionamentos com instituições financeiras, incluindo bancos tradicionais, fintechs e aplicativos. Na prática, isso se traduz em múltiplos cartões, contas e limites disponíveis simultaneamente.
O avanço tecnológico também transformou a forma como o dinheiro é percebido. Com a predominância do celular como principal canal bancário — e crescimento expressivo das transações digitais nos últimos anos —, o consumo se tornou mais imediato e menos tangível. Ferramentas como pagamento por aproximação, crédito instantâneo e limites pré-aprovados reduzem a percepção do gasto.
Na experiência de jovens usuários, a ampliação automática de limites e a facilidade de pagamento contribuem para uma perda de controle. Estratégias como desativar funções de pagamento rápido, impor limites próprios e utilizar ferramentas de organização financeira nos aplicativos têm surgido como tentativas de retomar o equilíbrio.
Endividamento precoce acende alerta
O aumento do acesso ao crédito já se reflete nos índices de inadimplência. Dados recentes mostram que o Brasil soma mais de 80 milhões de pessoas com dívidas em atraso. Entre os jovens, a participação ainda não é majoritária, mas aparece de forma relevante logo no início da vida financeira — o que levanta preocupações sobre a persistência desse endividamento ao longo do tempo.
O descompasso entre renda e limite disponível é um dos principais fatores de risco. Há casos em que o crédito concedido supera amplamente a capacidade de pagamento, criando uma “bolha” de consumo difícil de sustentar. Quando associado a despesas familiares ou emergenciais, o crédito deixa de ser complementar e passa a ser estrutural.
Levantamentos sobre comportamento financeiro indicam que cerca de um terço da população brasileira gasta mais do que ganha. Nesse grupo, a incidência de dívidas em atraso é maior, enquanto a formação de reserva de emergência e investimentos é menos frequente. O impacto vai além das finanças: níveis elevados de estresse relacionados ao dinheiro atingem uma parcela significativa da população.
Design dos aplicativos e “anestesia” do consumo
Especialistas apontam que o próprio desenho das plataformas financeiras influencia o comportamento do consumidor. Interfaces simplificadas, linguagem acessível e processos rápidos reduzem barreiras — mas também diminuem o tempo de reflexão antes da decisão de gasto.
Um exemplo recorrente é a forma como o crédito parcelado é apresentado: o valor da parcela ganha destaque, enquanto o custo total aparece em segundo plano. Esse tipo de estrutura reforça decisões baseadas no curto prazo e dificulta a percepção do impacto acumulado da dívida.
Do ponto de vista psicológico, o consumo digital reduz a chamada “dor do pagamento”. Compras feitas por aproximação ou parceladas fragmentam o valor total, criando uma sensação de gasto menor do que o real. O efeito é descrito como uma espécie de anestesia financeira, que só se dissipa quando múltiplas parcelas se acumulam.
Entre os jovens, esse ambiente se combina a fatores como construção de identidade, pressão social e busca por pertencimento. O consumo passa a desempenhar também um papel simbólico, amplificado pelas redes sociais. Nesse contexto, o crédito funciona como ponte entre o padrão de vida desejado e a capacidade real de consumo.
Inclusão financeira e desafios estruturais
A expansão do crédito não é, por si só, um fenômeno negativo. Ferramentas como transferências instantâneas, contas digitais e fintechs ampliaram a inclusão financeira, reduziram custos e democratizaram o acesso a serviços bancários.
Ao mesmo tempo, há sinais de avanço no comportamento financeiro. A participação de investidores na população brasileira cresceu nos últimos anos, com destaque para a Geração Z, que apresenta maior diversificação de aplicações. Ainda assim, a base é considerada frágil: a maior parte dos jovens possui reservas de curta duração, insuficientes para lidar com imprevistos prolongados.
A educação financeira também avança, mas ainda de forma limitada. Apenas uma parcela dos jovens teve acesso a cursos ou treinamentos na área, o que indica lacunas na preparação para lidar com crédito, planejamento e investimento.
Entrada invertida no sistema financeiro
O modelo tradicional de inserção no sistema bancário — baseado em progressão gradual, da conta básica ao crédito — vem sendo substituído por um acesso imediato a produtos mais complexos. Hoje, muitos jovens iniciam sua vida financeira diretamente pelo cartão de crédito, parcelamentos ou empréstimos pré-aprovados.
Essa inversão representa uma antecipação do ciclo de crédito, em que o consumo ocorre antes da consolidação da renda. O resultado é um cenário em que autonomia financeira e risco de endividamento caminham lado a lado, exigindo maior atenção de reguladores, instituições e dos próprios usuários.



