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segunda-feira, 22 junho, 2026
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José Graziano: Na Copa, cardápio do torcedor brasileiro é puro ultraprocessado

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Por José Graziano da Silva*

 

Quem for a um dos estádios em que o Brasil jogou ou ainda vai jogar na Copa do Mundo de 2026 vai encontrar, com poucas variações, o mesmo cardápio: cerveja industrializada, refrigerante, hot dog, hambúrguer, batata frita, nuggets. Um levantamento de preços e oferta de alimentos realizado em cinco estádios — MetLife Stadium, Lincoln Financial Field, Hard Rock Stadium, NRG Stadium e o Estadio Monterrey — mostra que essa lista se repete quase sem exceção, independentemente da cidade ou do operador da concessão.

Pela classificação NOVA, referência oficial adotada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, praticamente toda essa oferta se enquadra na categoria de alimentos ultraprocessados: formulações industriais com pouco ou nenhum alimento integral, compostas por ingredientes fracionados e aditivos como corantes, aromatizantes e conservantes. Frutas, saladas e preparações com vegetais frescos são, no levantamento, praticamente inexistentes nos cardápios de concessão dos cinco estádios.

Caro lá fora, ainda mais caro lá dentro

O preço reforça o problema. Uma cerveja em lata chegou a custar US$ 18,50 dentro de Lincoln Financial Field, na Filadélfia — mais de cinco vezes o valor da mesma bebida em promoção em um bar nas proximidades. Em Hard Rock Stadium, em Miami, a diferença é menor, mas ainda relevante: de 17% a 100% a mais que em bares de bairro. Já no MetLife Stadium, em Nova Jersey, a comparação nem é possível: a área ao redor do estádio é dominada por estacionamentos, sem bares ou restaurantes a curta distância a pé.

Mas o preço alto não funciona como dissuasão eficaz, porque, na maioria dos estádios, não há alternativa: a entrada de alimentos e bebidas trazidos de fora é proibida, com exceções pontuais como água lacrada. O torcedor não escolhe entre um ultraprocessado caro e uma opção saudável mais barata — escolhe apenas entre marcas e porções dentro da mesma categoria de produto.

O espelho do prato brasileiro

O padrão observado nos estádios da Copa não é exceção: é,infelizmente , em proporção crescente, a norma do consumo alimentar fora de casa no Brasil. Dados do Vigitel, sistema de vigilância de fatores de risco do Ministério da Saúde, já registram avanço sustentado de indicadores associados a esse padrão — consumo regular de refrigerantes e doces, baixo consumo de frutas e hortaliças, excesso de peso — ao longo da última década nas capitais brasileiras.

Eventos de massa como a Copa do Mundo, nos quais o ambiente alimentar é temporariamente dominado por concessões de ultraprocessados sem alternativa de escolha, funcionam como uma versão concentrada e visível do ambiente obesogênico que já é cotidiano fora dos estádios.

Existe outro caminho — e ele já foi testado

O contraponto não é hipotético. Na Copa do Mundo de 2022, no Catar, a Organização Mundial da Saúde (OMS) formalizou parceria com o Ministério da Saúde catariano e a FIFA para garantir que mais de 30% dos itens vendidos nos estádios atendessem a critérios nutricionais da OMS — limites de calorias, gordura, açúcar e sódio por porção, com porções mínimas de frutas, vegetais e grãos integrais. Pratos populares foram reformulados: um salgado recheado teve a massa reduzida e o recheio de vegetais aumentado; uma porção de homus com palitos de vegetais teve a quantidade de homus cortada pela metade para reduzir a gordura.

A experiência foi documentada pela própria OMS em um guia técnico publicado em 2023, que detalha cinco frentes de ação possíveis: melhorar a oferta, ajustar preços para incentivar opções saudáveis, usar pequenos estímulos visuais de cardápio (como destacar e posicionar melhor os itens mais saudáveis), comunicar a iniciativa ao público e restringir a publicidade de produtos ricos em gordura, açúcar e sal. Nenhuma dessas frentes está presente, até o momento, no desenho de concessões dos estádios da Copa de 2026.

O que pode mudar

Não se trata de eliminar a cerveja ou o hambúrguer do torcedor — trata-se de garantir que exista alternativa.Entre as medidas com precedente concreto e aplicáveis a eventos de grande público no Brasil, como a Copa América e jogos do Brasileirão em estádios de grande porte, estão: exigência de cota mínima de opções in natura ou minimamente processadas nas concessões; pontos de água potável gratuita; atualização da Lei 9.294/1996, hoje considerada defasada para tratar do marketing indireto de bebidas alcoólicas em eventos esportivos; e extensão da rotulagem frontal de advertência — já obrigatória em produtos embalados no Brasil — aos cardápios afixados nos pontos de venda de grandes eventos.

A Copa do Mundo dura poucas semanas, mas o padrão alimentar que ela expõe em escala internacional já está instalado, em versão mais difusa e silenciosa, no dia a dia brasileiro. Tratar o cardápio do estádio como curiosidade turística é perder a oportunidade de discutir, com a visibilidade que só um megaevento esportivo proporciona, um problema de saúde pública que o Brasil já tenta — e, pelos próprios indicadores oficiais, ainda não consegue — reverter.

*Ex-ministro, ex-diretor-geral da FAO e atual diretor do Instituto Fome Zero 





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