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Por Cleber Lourenço
Um relatório da Polícia Federal expõe em detalhes como a chamada “anistia light” — limitada apenas a participantes de menor relevância nos atos de 8 de janeiro — nunca fez parte dos planos do núcleo bolsonarista. Nas mensagens analisadas pelos investigadores, atribuídas a Eduardo Bolsonaro, fica claro que esse tipo de proposta era considerado ineficaz, já que apenas “mandaria a base para casa num semiaberto” e não resolveria o problema central: livrar Jair Bolsonaro de uma eventual condenação. O trecho divulgado nos autos deixa a lógica explícita:
“Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump. Eles não irão mais ajudar, afinal já teríamos encontrado a saída por nós mesmos. Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e ‘resgatar a democracia’ OU enviar o pessoal que esteve num protesto que evoluiu para uma baderna para casa num semiaberto. Neste cenário você não teria mais amparo dos EUA, que não teriam mais motivo algum para se intrometer, bem como estaria igualmente condenado final de agosto.”
A avaliação da PF é de que o objetivo dessa articulação nunca foi a pacificação do país nem o atendimento às centenas de apoiadores que responderam a processos criminais. O foco sempre esteve em garantir uma saída para o ex-presidente, que buscava preservar-se a qualquer custo. A militância, portanto, aparecia apenas como instrumento, usada como barganha em um cálculo político em que o único resultado desejado era a blindagem de Bolsonaro.
Conversa entre Eduardo e Jair Bolsonaro. (Foto: Reprodução)
Esse desprezo pela base não se restringiu às mensagens interceptadas. No interrogatório prestado ao Supremo Tribunal Federal em 10 de junho de 2025, Jair Bolsonaro verbalizou em público o que já demonstrava nos bastidores. Ao ser questionado sobre os pedidos de AI-5 e de intervenção militar, ele chamou de “malucos” os próprios apoiadores que haviam defendido tais pautas. A fala, registrada oficialmente, deixou claro que o ex-presidente não hesita em desqualificar aqueles que o seguiram quando sua sobrevivência política está em jogo.
O relatório da PF também traz informações sobre a preparação de uma campanha publicitária voltada a sustentar a narrativa da anistia. Essa campanha, segundo os documentos, foi organizada com forte participação de lideranças evangélicas ligadas ao bolsonarismo. Pastores aliados coordenaram a produção de vídeos e peças visuais que circulavam com slogans como “Anistia para todos! O Brasil da liberdade não será taxado”. O objetivo dessa comunicação era atrelar a pauta da anistia ao fim das sanções econômicas internacionais, numa tentativa de criar pressão política e social sobre o Supremo Tribunal Federal. Essa estratégia mostra como até mesmo a fé e a religião foram mobilizadas para dar verniz popular a uma articulação que, no fundo, buscava salvar o ex-presidente.
Relatório da PF e fala no STF revelam que ex-presidente priorizou salvar a si mesmo e tratou apoiadores como descartáveis
As evidências reunidas pela Polícia Federal desmontam a narrativa de solidariedade cultivada por Bolsonaro. As mensagens internas revelam um cálculo frio em que a militância é tratada como descartável; o depoimento no STF expõe a disposição do ex-presidente em ofender os próprios seguidores; e a campanha publicitária organizada demonstra como a base foi instrumentalizada para criar pressão política. O conjunto desses elementos desenha um quadro no qual o discurso público de união e companheirismo contrasta radicalmente com a prática política de autopreservação.
Ao longo dos últimos anos, Bolsonaro cultivou uma imagem de lealdade com sua base, apresentando-se como porta-voz das demandas de seus apoiadores. No entanto, os documentos e declarações analisados indicam o contrário: a base foi usada como massa de manobra, descartada quando necessário e acionada apenas como peça em uma engrenagem de autoproteção.



