Por Mariana Boujikian
Em seu famoso ensaio sobre as etapas de um genocídio, o Dr. Gregory Stanton, fundador da Genocide Watch, afirma que a fase final de todo processo genocida é a sua negação. De fato, o negacionismo em relação às violações massivas de direitos humanos foi registrado em diferentes processos históricos: Hermann Göring, o número 2 de Hitler, negou ao longo de todo o julgamento em Nuremberg que ele ou o Fuhrer soubessem das políticas de extermínio que aconteciam nos campos de concentração nazistas.
Para o comandante, os campos eram apenas “medidas de segurança” e “realocações”. Milosevic, o ex-presidente sérvio responsável pelo genocídio contra bósnios nos anos 1990, não apenas negou qualquer tentativa de destruição étnica, como inverteu a responsabilidade: alegou em tribunal que desconhecia massacres e que os sérvios eram as verdadeiras vítimas de perseguição.
Um dos casos mais sistemáticos de negacionismo é o da Turquia: há 111 anos o país promove políticas de Estado para apagar o genocídio armênio (1915-1923) de sua memória histórica: proíbe acesso à arquivos; financia trabalhos acadêmicos pautados na negação e persegue aqueles que ousam desafiar a narrativa oficial sobre o período. Trata-se de uma recusa completa em reconhecer a responsabilidade sobre o extermínio de cerca de 1,5 milhão de armênios durante o Império Otomano.
Assim como os nazistas, turcos negacionistas também usam o eufemismo “realocação”. Os armênios foram expulsos de suas casas; deslocados à força de suas terras nativas; perderam suas propriedades e testemunharam a morte de comunidades inteiras, mas a narrativa oficial afirma que as lideranças otomanas queriam apenas que fossem “realocados” de suas vilas.
Não satisfeita em propagar um discurso que insulta as vítimas e seus descendentes, a Turquia faz ameaças diplomáticas contra países e pessoas públicas que reconhecem o genocídio armênio. Recentemente, a cineasta curda Rojhilat Aksoy foi levada a julgamento por violar o artigo 301 do código penal e “diminuir a turquicidade”. Seu crime, na realidade, foi apenas um: organizar uma sessão do premiado filme “Aurora’s Sunrise” (2022), que conta a história da jovem armênia Aurora Mardiganian, sobrevivente do genocídio.
Na última sexta-feira de abril, quando a comunidade armênia rememorou seus antepassados assassinados, o prefeito de Nova Iorque Zohran Mamdani foi alvo de protestos simplesmente por ter tuitado condolências às vítimas e nomeado os eventos do século passado de genocídio.
A reação virulenta ao seu post revela como mais de um século de negação transformou um evento histórico amplamente documentado em uma “batalha de narrativas”. Trata-se da erosão da confiança no conhecimento, que ignora evidências sólidas para transformar fatos em uma mera disputa de opinião.
As tentativas de silenciamento e censura não se restringem, contudo, à Turquia de Erdogan e aos genocídios que mancharam seu passado. O mesmo modus operandi negacionista está sendo orquestrado hoje por Israel para esconder o genocídio contra o povo palestino.
Enquanto o negacionismo turco atua sobretudo no campo da memória histórica, o negacionismo relativo à Palestina opera em tempo real, com imagens, relatos de vítimas e avaliações de especialistas internacionais sendo desqualificados. Há uma articulação política clara e muito similar à adotada pelo Estado turco na criminalização e pressão diplomática para silenciar vozes críticas.
Pesquisadores respeitados e com imensa contribuição à defesa dos direitos humanos estão sendo alvo de perseguição institucional em diferentes partes do globo. Recentemente, o clima persecutório ganhou espaço no Brasil através do projeto de lei 1424/2026 apresentado por Tabata Amaral: sob o pretexto de combater o antissemitismo, a lei dá margem para censurar críticas legítimas ao Estado de Israel pelo genocídio de 80 mil palestinos e o bloqueio humanitário criminoso em Gaza.
A negação contínua de genocídios, sejam eles eventos do passado ou do presente, abre um precedente perigoso. Ela ativamente deslegitima o sofrimento das vítimas, absolve os perpetradores e cria as condições ideológicas para que novas atrocidades ocorram.
Como afirma Israel Charmy, “são avisos e convocações para a renovação da violência — seja em direção ao mesmo povo vítima ou a outros povos“. Genocidas distorcem fatos documentados e tentam censurar aqueles que ousam denunciar seus crimes contra a humanidade. Na Turquia, em Israel e em todas as partes do mundo, é imperativo rechaçar a negação como gesto de responsabilidade moral e respeito à memória das vítimas.
*Mariana Boujikian é cientista social e mestra em Antropologia Social pela USP. É doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas e autora do livro “Memórias de um genocídio” (Tirant Lo blanch)



