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Por Heloisa Villela
A Palestina enterrou hoje os cinco jornalistas da rede Al Jazeera que Israel matou no último domingo. Anas al-Sharif era um deles. Ele estava em uma barraca, na entrada principal do hospital al-Shifa, com mais quatro colegas de trabalho, quando o governo de Benjamin Netanyahu escolheu a equipe da Al Jazeera como alvo do extermínio em curso na Faixa de Gaza. O regime israelense não quer testemunhas e muito menos quem conte ao resto do mundo o que se passa ali.
Anas tinha 28 anos. Nessa carreira curta, mas marcante, narrou os horrores que a população de Gaza enfrenta todos os dias. Mostrou adultos desmaiando nas ruas por causa da fome. Chorou ao vivo porque também, quem aguenta tanto sofrimento? Pouco antes de morrer ele fez uma postagem na rede X contando que Israel havia dado início a um bombardeio concentrado no Leste e no Sul da cidade de Gaza. Em um último vídeo do jornalista, é possível ouvir o som das fortes explosões de mísseis nas proximidades.
Como tantos palestinos, o jornalista Anas sabia que a vida estava por um fio. Podia se acabar a qualquer segundo. Por isso, deixou uma carta, escrita no dia 6 de Abril, para ser divulgada caso morresse em mais um dos ataques israelenses. Para além dos protestos do Comitê de Proteção aos Jornalistas, do Clube Nacional de Imprensa, da Fundação pela Liberdade de Imprensa e de milhões de seres humanos, é importante ouvir Anas, em suas próprias palavras.
O jornalista Anas al-Sharif foi morto pela forças israelenses
“Esta é a minha vontade e a minha mensagem final. Se estas palavras chegarem até você, saiba que Israel conseguiu me matar e silenciar a minha voz. Primeiramente, que a paz esteja com você e a misericórdia e as bênçãos de Alá.
Alá sabe que dediquei todos os meus esforços e todas as minhas forças para ser um apoio e uma voz para o meu povo, desde que abri os olhos para a vida nos becos e ruas do campo de refugiados de Jabalia. Minha esperança era que Alá prolongasse minha vida para que eu pudesse retornar com minha família e entes queridos à nossa cidade original, Asqalan (Al-Majdal), ocupada. Mas a vontade de Alá veio primeiro, e Seu decreto é final. Vivi a dor em todos os seus detalhes, experimentei o sofrimento e a perda muitas vezes, mas nunca hesitei em transmitir a verdade como ela é, sem distorção ou falsificação — para que Alá possa testemunhar contra aqueles que permaneceram em silêncio, aqueles que aceitaram nossa matança, aqueles que nos sufocaram e cujos corações não se comoveram diante dos restos mortais dispersos de nossas crianças e mulheres, sem fazer nada para impedir o massacre que nosso povo enfrenta há mais de um ano e meio.
Confio a vocês a Palestina — a joia da coroa do mundo muçulmano, o coração de cada pessoa livre neste mundo. Confio a vocês seu povo, suas crianças injustiçadas e inocentes que nunca tiveram tempo para sonhar ou viver em segurança e paz. Seus corpos puros foram esmagados sob milhares de toneladas de bombas e mísseis israelenses, dilacerados e espalhados pelos muros.
Peço-lhes que não deixem que as correntes os silenciem, nem que as fronteiras os impeçam. Sejam pontes para a libertação da terra e de seu povo, até que o sol da dignidade e da liberdade nasça sobre nossa pátria roubada. Confio a vocês o cuidado da minha família. Confio a vocês minha amada filha Sham, a luz dos meus olhos, que nunca tive a oportunidade de ver crescer como sonhei.
Confio a vocês meu querido filho Salah, a quem eu desejava apoiar e acompanhar pela vida até que ele se tornasse forte o suficiente para carregar meu fardo e continuar a missão.
Confio a vocês minha amada mãe, cujas orações abençoadas me trouxeram até aqui, cujas súplicas foram minha fortaleza e cuja luz guiou meu caminho. Rogo a Alá que lhe conceda força e a recompense em meu nome com a melhor das recompensas.
Confio-lhe também minha companheira de longa data, minha amada esposa, Umm Salah (Bayan), de quem a guerra me separou por muitos dias e meses. Mesmo assim, ela permaneceu fiel ao nosso vínculo, firme como o tronco de uma oliveira que não se curva — paciente, confiante em Alá e assumindo a responsabilidade na minha ausência com toda a sua força e fé.
Peço-te que os apoies, que sejas o seu apoio diante de Alá Todo-Poderoso. Se eu morrer, morrerei firme em meus princípios. Declaro perante Alá que estou satisfeito com Seu decreto, certo de encontrá-Lo e seguro de que o que está com Alá é melhor e eterno.
Ó Alá, aceita-me entre os mártires, perdoa meus pecados passados e futuros e faz do meu sangue uma luz que ilumine o caminho da liberdade para o meu povo e minha família. Perdoa-me se falhei e reza por mim com misericórdia, pois cumpri minha promessa e nunca a alterei ou a traí.
Não se esqueça de Gaza… E não se esqueça de mim em suas orações sinceras por perdão e aceitação.
Anas Jamal Al-Sharif
06.04.2025″



