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quarta-feira, 18 março, 2026
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Intervenção dos EUA na Venezuela Reacende debate sobre a Doutrina Monroe na América Latina

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A operação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, no dia 03 de janeiro de 2026, reacendeu debates sobre o papel histórico de Washington na América Latina e levantou comparações com a chamada Doutrina Monroe (1823), política externa formulada no século XIX para afirmar a influência norte-americana no hemisfério ocidental. A ação gerou reações diplomáticas e questionamentos sobre soberania regional e equilíbrio geopolítico.

 

A operação militar dos EUA em território venezuelano

A campanha de Donald Trump foi marcada pelo slogan “Make America Great Again” (Faça a América grande novamente), que expressava a promessa de restaurar o poder econômico, político e militar dos Estados Unidos. A retórica defendia políticas nacionalistas, com fortalecimento da economia interna, restrições à imigração e uma política externa mais assertiva. Nesse contexto, o discurso também serviu para legitimar uma atuação mais dura dos Estados Unidos no cenário internacional, especialmente em regiões consideradas estratégicas para seus interesses geopolíticos.

Nesse sentido, a intervenção em território venezuelano ocorreu no início de janeiro e levou à captura do ditador Nicolás Maduro durante uma operação conduzida por forças dos Estados Unidos. O episódio provocou uma crise política imediata no país e abriu caminho para a formação de um governo interino liderado por Delcy Rodríguez.

Após a ação, Washington anunciou medidas voltadas para uma transição política e econômica na Venezuela, incluindo acordos relacionados ao setor energético e planos de estabilização institucional. Nos meses seguintes, Estados Unidos e Venezuela passaram a restabelecer gradualmente as relações diplomáticas, com o objetivo declarado de apoiar uma transição política e promover a recuperação econômica do país. Apesar dessas iniciativas, a operação militar gerou críticas de analistas e autoridades internacionais, que apontam possíveis violações ao princípio da soberania nacional e ao direito internacional.

No entanto, por mais surpreendente que possa ter sido, a prática intervencionista e de tutela política por parte dos EUA para com os países da América Latina possui precedentes históricos que remontam ao século XIX, quando fora proclamada a Doutrina Monroe.

 

O que foi a Doutrina Monroe?

Marcada pelo emblemático lema “America for Americans” (América para os americanos), a política afirmava que o hemisfério ocidental deveria permanecer autônomo, respeitado em relação às suas reivindicações de liberdade política e livre de novas colonizações europeias. A Doutrina Monroe, arquitetada pelo Secretário de Estado John Quincy Adams e proclamada pelo presidente James Monroe em sua mensagem presidencial de 02 de dezembro de 1823, pode ser descrita de maneira conceitual como uma proibição, por parte dos Estados Unidos, à interferência europeia na política do Novo Mundo. Este preceito foi o resultado de uma política de paz e patriotismo que buscava manter os Estados Unidos afastados das disputas do Velho Mundo e, ao mesmo tempo, afirmar a igualdade da América em relação à Europa. Entre os pilares sustentados pela Doutrina Monroe, destacavam-se:

  • Não-colonização: O continente americano, devido à condição livre e independente que assumiu durante o período de independências das colônias, não deveriam mais ser consideradas como sujeitos a futuras colonizações de qualquer natureza por nenhuma potência europeia.
  • Não-intervenção europeia na América: O sistema político das potências aliadas europeias era considerado essencialmente diferente do americano, de modo que qualquer tentativa da Europa de estender seu sistema monárquico e absolutista para o hemisfério ocidental seria vista como perigosa para a paz e segurança dos Estados Unidos.
  • Isolacionismo americano: Os Estados Unidos da América reafirmaram a sua política de não interferir nas questões internas ou nas guerras das potências da Europa (princípio que, um século mais tarde se mostraria quebrado com a participação dos EUA na Primeira Guerra Mundial).

 

Da proteção ao ataque: pretensões dos EUA direcionadas à América Espanhola durante a Doutrina Monroe e durante a recente campanha militar na Venezuela

Não obstante, a política norte-americana não refletia apenas em provisões externas. A Doutrina Monroe estabeleceu que as Américas deveriam permanecer livres da intervenção europeia, enquanto o Destino Manifesto sustentava a ideia de que os Estados Unidos tinham uma missão histórica embasada na suposta “vontade divina” de expandir sua influência pelo continente. Juntas, a elaboração da política externa (Doutrina Monroe) e sua visão política interna (Destino Manifesto) ajudaram a moldar a política hemisférica norte-americana ao longo do século XIX.

Ao longo dos séculos XIX e início do XX, diversos conflitos armados envolvendo os Estados Unidos e países da América Hispânica foram frequentemente interpretados pela historiografia como expressões práticas da lógica hemisférica inaugurada pela Doutrina Monroe. Episódios como a Guerra Mexicano-Americana, as sucessivas intervenções em Cuba após a Guerra Hispano-Americana, o apoio norte-americano à separação do Panamá em relação à Colômbia em 1903, bem como as ocupações militares da República Dominicana (1916-1924) e da Nicarágua (1912-1933), evidenciam a progressiva transformação de uma doutrina originalmente formulada para dissuadir intervenções europeias em um instrumento político que legitimou a ampliação da influência de Washington no Ocidente. Nesse contexto, tais conflitos não apenas revelam disputas territoriais ou estratégicas isoladas, mas também expressam uma dinâmica mais ampla de consolidação da hegemonia norte-americana, na qual a Doutrina Monroe foi reinterpretada como fundamento ideológico e diplomático para a intervenção e para o condicionamento da soberania dos Estados da América Espanhola.

A obra do pintor norte-americano John Gast representa o Destino Manifesto dos EUA em conferirem civilização aos demais povos da América. American Progress (1872).

A formulação da doutrina ocorreu em um momento crítico em que colônias espanholas, como México, Colômbia, Chile, Peru e Buenos Aires, lutavam e alcançavam a sua independência. Havia o temor real de que a Santa Aliança (uma liga de monarcas absolutistas europeus que incluía Rússia, Áustria e Prússia) e a França intervissem militarmente para subjugar essas novas repúblicas e devolvê-las ao domínio da Espanha. Em relação à América Espanhola, a Doutrina declarou expressamente que os Estados Unidos não poderiam ver com indiferença qualquer interposição europeia que tivesse o propósito de oprimir essas novas nações ou de controlar os seus destinos, considerando tal ato como uma manifestação de disposição hostil contra os próprios Estados Unidos. Apesar dessa retórica de proteção aos “irmãos do sul”, a doutrina era, antes de tudo, uma política pragmática de autodefesa e não parte do Direito Internacional ou um tratado de aliança militar com a América Espanhola.

Paralelamente, o portal The Times publicou uma matéria no dia 10 de março de 2026 em que afirma que a intervenção dos EUA na Venezuela em janeiro de 2026 foi justificada pelo governo do então presidente Donald Trump com um discurso que combinava segurança internacional, combate ao narcotráfico e defesa da democracia. Segundo a narrativa oficial, a operação teria como objetivo remover um governo acusado de corrupção, violações de direitos humanos e envolvimento com redes internacionais de drogas, além de “restaurar a estabilidade e a liberdade política” na Venezuela. Ademais, no mesmo dia da operação militar na Venezuela, Donald Trump após a captura de Nicolás Maduro, afirmou “Nós vamos administrar o país até o momento em que pudermos, temos certeza de que haverá uma transição adequada, justa e legal. Queremos liberdade e justiça para o grande povo da Venezuela”.

Contraditoriamente, a captura de Maduro foi acompanhada por discussões sobre reabertura do mercado petrolífero venezuelano e eventual privatização de setores da indústria de energia, o que reforçou as críticas de que a operação militar não teria sido apenas motivada por razões humanitárias ou democráticas. Ainda, numa matéria publicada no portal Ecos do Norte, em 07 de janeiro de 2026, foi exposto o interesse velado do governo Trump no setor petrolífera venezuelano, em que o presidente afirmou “Tenho o prazer de anunciar que as autoridades interinas da Venezuela entregarão entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade”, sem, no entanto, explicar como se daria isso.

Portanto, a intervenção evidencia uma contradição recorrente na política externa norte-americana: enquanto o discurso oficial enfatiza a promoção da democracia e a proteção de populações civis, a prática revela fortes motivações geopolíticas, energéticas e estratégicas, especialmente em regiões ricas em recursos naturais.

Assim como no século XIX, o objetivo das intervenções dos EUA não necessariamente se expressam uma solidariedade altruísta, afinal, as figuras centrais do governo americano desconfiavam dos líderes sul-americanos e viam pouca afinidade de princípios com eles, como aponta W. F. Reddaway, acadêmico britânico em sua obra The Doctrine Monroe (1898), e de maneira semelhante, na atual conjuntura, o governo norte-americano expressa publicamente seu descontentamento com os governos sul-americanos, seus “irmãos do sul”, em permitirem supostos desvios como o narcotráfico, privação de liberdade e ameaças à democracia, motivos que utiliza com frequência como justificativa para suas campanhas intervencionistas.

 

Um cenário ainda em aberto

Apesar do discurso oficial de Trump priorizar a liberdade e o progresso da Venezuela por meio do ataque militar executado em janeiro e da posterior tutela política fornecida, desde 2022, o salário mínimo oficial na Venezuela permanece fixado em 130 bolívares, valor que hoje equivale a aproximadamente 30 centavos de dólar, fator que impede a prosperidade e subsistência de muitas famílias.  Além disso, o cenário atual de conflitos e ameaças de guerra envolvendo os EUA e os países do Oriente Médio fortalece a insegurança e a incerteza de milhões de venezuelanos que esperam ansiosamente pela melhoria da qualidade de vida em seu país.

Com base nos precedentes históricos discutidos até aqui e diante da atual configuração política que acompanhamos diariamente sobre o tema, tanto o lema do século XIX “America for americans”, quanto o presente “Make America Great Again”, não representam de forma literal o sentimento de integração, identidade ou grandiosidade das nações que compõem o continente em pauta, mas sim, os Estados Unidos enquanto potência global em sua insaciável sede por dominação e poder.

Sobre o autor: Vinícius de Matos Valente
Licenciado em História e Mestrando em História, pela UFAM
PPGH/UFAM

Sobre o Conexões de Saberes: O PET, Programa de Educação Tutorial, é um programa gerenciado pela CAPES/MEC e, no âmbito da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é desenvolvido em grupos e organizado a partir de cursos de graduação das unidades acadêmicas, orientados pelo princípio da indissociabilidade entre o ensino, pesquisa, inovação e extensão. As atividades extracurriculares que compõem o programa devem proporcionar aos alunos oportunidades de vivenciar experiências que atendam plenamente às necessidades dos cursos de graduação e/ou ampliar e aprofundar os objetivos e os conteúdos programáticos que integram sua grade curricular, além de contribuir para a sociedade onde atuam. O PET Conexões de Saberes é tutoriado pelo Prof. Dr. Manoel Carlos de Oliveira Júnior (FES/UFAM) e tem alunos de História, Geografia, Pedagogia e Letras.

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