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Três semanas após a entrada em vigor do tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o governo federal conclui que os impactos mais severos devem recair sobre a indústria de transformação. Já no agronegócio, a avaliação é mais otimista: boa parte da produção está sendo redirecionada para outros mercados, e algumas cadeias conseguiram até manter contratos com os norte-americanos, apesar da alíquota de 50% sobre os produtos.
Essa percepção se baseia em dados e relatos dos primeiros dias após a implementação da sobretaxa, que já alterou rotas comerciais. Exportadores de carnes, café e açúcar — produtos com alto peso na pauta exportadora brasileira —, têm conseguido contornar as barreiras com relativa agilidade. A venda de mangas, por exemplo, segue ativa com os EUA, que optaram por testar o mercado mesmo com preços mais altos.
Por esse motivo, o governo não deve incluir esses produtos no programa emergencial de compras públicas, desenhado para absorver estoques que ficarem sem destino após o tarifaço. Já setores como o têxtil, de calçados, máquinas, autopeças e equipamentos enfrentam um cenário mais desafiador, com perdas consideráveis e dificuldade de adaptação técnica para novos mercados.
“Produtos industriais têm especificações técnicas voltadas ao mercado americano. Adaptar a produção leva tempo”, explicou Uallace Moreira, secretário do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
CNI lidera articulação com setor privado e missão nos EUA
A CNI (Confederação Nacional da Indústria) tem desempenhado papel central nas articulações para tentar reverter ou mitigar os impactos do tarifaço. A entidade lembra que, embora a China seja o maior parceiro comercial do Brasil em volume, os Estados Unidos são os principais compradores da indústria de transformação brasileira — um setor mais sensível e com menor margem de manobra frente a mudanças abruptas.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, e o vice-presidente, Geraldo Alckmin. Crédito: Júlio César Silva/MDIC
O presidente da CNI, Ricardo Alban, reuniu-se nesta semana com o vice-presidente, Geraldo Alckmin, para detalhar os planos da missão empresarial a Washington, marcada para os dias 3 e 4 de setembro.
O objetivo é intensificar o diálogo com autoridades e o setor produtivo americano, na tentativa de incluir novos produtos na lista de exceções da tarifa adicional de 40% imposta por Donald Trump no início de agosto — que se somou aos 10% de abril, totalizando uma sobretaxa de 50%.
“Nosso objetivo é sensibilizar o lado americano com propostas concretas de interesse mútuo”, disse Alban.
A agenda prevê reuniões com escritórios de lobby, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), a Câmara de Comércio Americana (US Chamber), e empresários dos dois países.
A delegação brasileira contará com representantes de associações setoriais, federações estaduais e grandes empresas, como Embraer, Stefanini, Siemens Energy, Tupy e Novelis. Propostas de interesse dos EUA também estarão na mesa, como parcerias em etanol e combustível sintético, mineração de terras raras e instalação de data centers no Brasil.
Redirecionamento no agro e medidas emergenciais
Na área do agronegócio, o governo mantém atenção especial a nichos mais frágeis da cadeia, como o pescado e os pequenos produtores inseridos em sistemas de exportação indireta. Mas, no geral, a percepção é de que o setor conseguiu se reorganizar com relativa rapidez.
Fernanda Machiavelli, secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, destacou que o programa Brasil Soberano está pronto para apoiar setores que não consigam redirecionar sua produção.
Ainda assim, medidas de socorro anunciadas pelo governo seguem, em sua maioria, pendentes de regulamentação. O CMN (Conselho Monetário Nacional) deve definir nesta semana as regras para liberação de uma linha de crédito de R$ 30 bilhões a juros mais baixos. Já a concessão de garantias para pequenas exportadoras depende de um projeto de lei no Congresso.
Além disso, o plano de compras públicas, que pretende absorver alimentos perecíveis como mel, manga, tilápia, açaí e castanhas, ainda aguarda a publicação de regras operacionais. A ideia é evitar perdas na cadeia produtiva e garantir renda a produtores que dependiam do mercado norte-americano.



