A Arquidiocese de Cuiabá divulgou uma nota de repúdio após uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ser encontrada sem a cabeça junto à Cruz do Chilão, no bairro Santa Helena, em Cuiabá (MT). A escultura foi localizada danificada na noite de sexta-feira (25). A instituição pediu que o caso seja apurado e que eventuais responsáveis sejam identificados.
A Cruz do Chilão é considerada um marco da religiosidade popular cuiabana e reúne elementos da tradição católica e da cultura de povos de matriz africana. Para a Arquidiocese, o local integra a memória religiosa, histórica e cultural da cidade.
Em nota, a instituição afirmou que a liberdade de consciência e de crença, assim como o livre exercício dos cultos religiosos, são direitos garantidos pela Constituição. Também destacou que atos de intolerância, discriminação e violência motivados por religião podem configurar crimes e devem ser investigados pelas autoridades.
“Repudiamos toda forma de intolerância religiosa, vandalismo e violência contra símbolos de fé.”
A Arquidiocese também defendeu o respeito aos símbolos, espaços sagrados e manifestações de fé de diferentes tradições religiosas. A instituição pediu a apuração do episódio, a identificação dos responsáveis e a adoção das medidas cabíveis.
A Polícia Civil de Mato Grosso informou que não havia localizado registro de ocorrência relacionado ao caso. Também não havia informações sobre quem danificou a imagem, quando o dano ocorreu ou qual teria sido a motivação.
Nossa Senhora no centro da disputa política
A controvérsia se intensificou na reta final da campanha, às vésperas de 12 de outubro, data dedicada a Nossa Senhora Aparecida. Nas redes sociais, circulou a informação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O senador negou a intenção, e o caso chegou à Justiça Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal.
A controvérsia recuperou um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, que propunha substituir na legislação a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada em 2008. Galli, porém, ocupou posteriormente um cargo de assessor especial no governo de Jair Bolsonaro, relação que voltou a ser explorada nas redes durante a atual campanha.
A discussão ganhou dimensão política e religiosa. Flávio Bolsonaro também afirmou que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Em meio à polêmica, o candidato acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de terem ajudado a disseminar a informação sobre Nossa Senhora Aparecida, sem apresentar provas. A entidade negou a acusação.
Outro caso de vandalismo em Mato Grosso
Em março deste ano, um homem de 47 anos foi detido após ser flagrado destruindo uma imagem de Nossa Senhora Aparecida com um machado em uma capela de Jauru, a 463 quilômetros de Cuiabá.
Segundo a polícia, o homem afirmou ter agido a mando de espíritos e disse ter se arrependido posteriormente. Ele foi ouvido e liberado após assinar um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), enquanto o machado utilizado na ação foi apreendido.
Leia a nota da Arquidiocese
“A Arquidiocese de Cuiabá manifesta seu profundo repúdio à vandalização da imagem de Nossa Senhora Aparecida, localizada junto à Cruz do Chilão, no bairro Santa Helena, em Cuiabá.
A imagem foi encontrada quebrada na noite da última sexta-feira (25), em um espaço que integra a memória religiosa, histórica e cultural de nossa cidade. A Cruz do Chilão é um importante marco da religiosidade popular cuiabana e carrega uma história que atravessa gerações, reunindo elementos da tradição católica e da cultura dos povos de matriz africana.
A Arquidiocese de Cuiabá reforça que a liberdade de consciência e de crença, bem como o livre exercício dos cultos religiosos, são direitos assegurados pela Constituição Federal. Atos de intolerância, discriminação e violência motivados pela religião podem configurar crimes e devem ser devidamente apurados e responsabilizados pelas autoridades competentes.
Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, é, para nós, católicos, Mãe protetora e intercessora. Durante o mês de outubro, nossas paróquias e comunidades se unem em diversas celebrações e atividades para honrar aquela que é um dos maiores símbolos da fé católica no Brasil. Sua imagem merece respeito, assim como devem ser respeitados os símbolos, espaços sagrados e manifestações de fé de todas as tradições religiosas.
Repudiamos toda forma de intolerância religiosa, vandalismo e violência contra símbolos de fé. Reafirmamos, ainda, a importância do diálogo, do respeito, da responsabilidade na comunicação e da busca pela verdade, especialmente em um momento de Sede Vacante, período de transição vivido pela Arquidiocese de Cuiabá.
Esperamos que o episódio seja devidamente apurado pelas autoridades competentes, que os responsáveis sejam identificados e que a justiça seja feita. Não à intolerância religiosa! Sim ao diálogo, à fraternidade e ao amor!
Arquidiocese de Cauiabá-MT”



