A escalada do conflito no Oriente Médio já é considerada um marco negativo para o setor de energia global. Segundo Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, a crise atual representa “o mais grave choque energético de todos os tempos”.
Em entrevista ao Financial Times, Birol afirmou que a normalização do fluxo de petróleo e gás na região pode levar pelo menos seis meses — ou até mais, dependendo da extensão dos danos às infraestruturas.
O epicentro da tensão está no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo. Por ali passa cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumidos globalmente. O bloqueio e os ataques na região vêm comprometendo severamente o transporte de energia.
Com apenas 34 quilômetros em seu ponto mais estreito, o corredor é altamente vulnerável, obrigando embarcações a trafegarem próximas ao território iraniano. Nas últimas semanas, diversos navios foram atingidos, elevando ainda mais a tensão e impulsionando os preços do petróleo acima de US$ 110 por barril.
Infraestrutura energética do Oriente Médio sob ataque
A guerra tem causado danos significativos a instalações estratégicas no Golfo Pérsico. Refinarias, campos de petróleo, portos e unidades de processamento de gás foram atingidos por mísseis e drones.
Entre os episódios mais críticos estão os ataques ao campo de gás de South Pars, no Irã — uma das maiores reservas do mundo — e à instalação de Ras Laffan, no Catar, considerado o maior polo global de exportação de gás natural liquefeito.
Outros países também foram afetados. Infraestruturas energéticas na Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos sofreram danos ou interrupções, enquanto portos importantes passaram a operar com restrições devido ao risco de novos ataques.
Impacto global pode ser prolongado
De acordo com Birol, a dimensão da crise atual supera eventos históricos. O volume de gás interrompido já é maior do que o perdido pela Europa após a redução do fornecimento russo em 2022. Já o petróleo retido no Golfo ultrapassa o impacto dos choques da década de 1970, que levaram a recessões globais e racionamento de combustível.
Mesmo que o conflito seja encerrado em breve, a retomada da produção não será imediata. Muitas instalações foram danificadas ou paralisadas, o que deve atrasar o retorno à normalidade. “Algumas levarão seis meses para voltar a operar, outras podem demorar ainda mais”, afirmou o executivo.
Efeitos vão além do petróleo
A crise não afeta apenas o mercado de energia. O fornecimento global de fertilizantes, insumos petroquímicos, enxofre e hélio também está sendo impactado — produtos essenciais para setores como agricultura, indústria e tecnologia.
Para a Agência Internacional de Energia, o cenário ainda pode se agravar. O risco de novos ataques e a manutenção das restrições no Estreito de Ormuz mantêm a pressão sobre os mercados e elevam as preocupações com a segurança energética mundial.
Apesar da escalada, Birol avalia que governos e investidores ainda não dimensionaram totalmente a gravidade da situação. Segundo ele, cada dia de interrupção no fluxo energético amplia os impactos econômicos globais.



