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O que fazer?
Deixei esta pergunta em aberto na última coluna. Embora ninguém saiba como responder com exatidão, arriscar hipóteses é fundamental, pois o ano de 2026 certamente será dominado pela guerra cultural da extrema direita. E, se por acaso triunfarem nas eleições, não sobrará pedra sobre pedra da incerta democracia brasileira. Incerta, mas ainda assim democracia – não se esqueça.
(Apocalipse aqui e agora, pois.)
Vamos lá: hora de propor alternativas.
Em primeiro lugar, deve-se entender que a extrema direita não é um acidente de percurso ou um efeito não planejado da atual crise do capitalismo. Não nos iludamos: a extrema direita veio para ficar, já que se associa intrinsecamente aos elementos constitutivos do universo digital, esteio da financeirização planetária que nos constrange: visão algorítmica do mundo; binarismo como sistema excludente de pensamento; economia da atenção como motor das ações nas redes sociais; estridência como dicção dominante; virulência como forma de sociabilidade; monetização de todos os aspectos do dia a dia.
Não é tudo: a extrema direita transnacional chega ao poder vencendo eleições livres e democráticas. A chave do êxito encontra-se na felicidade com que ela canalizou o legítimo sentimento antissistêmico que contagiou as décadas iniciais do século XXI e na habilidade com que se apropriou do discurso populista. Não é verdade que a eleição de Jair Messias Bolsonaro em 2018 é incompreensível se não entendermos que o excêntrico deputado do baixo clero conseguiu projetar a imagem de um político antissistema e, sobretudo, antipolítico? Pouco importa se a imagem é falsa: quando mais de 50 milhões de pessoas creem numa falsidade, ela se converte em fato político objetivo.
Se esses contornos parecessem precisos, podemos então pensar em caminhos.
(Sempre: passo a passo.)
Alternativas
A caracterização da força da extrema direita indica forma possíveis de superação da ameaça por ela representada.
Comecemos.
A apropriação do discurso populista pode ser um tiro no pé. Vale dizer, se tal sequestro promete sucesso eleitoral, ele também cria obrigações concretas que dificilmente serão satisfeitas, pois, como resposta à atual crise do capitalismo, a extrema direita não pretende contestar as premissas do sistema econômico vigente, mas, pelo contrário, forjar meios autoritários para sua preservação. As campanhas “Congresso da Mamata” e “Somos99%” revelam, pela primeira vez de modo claro, esse limite estrutural da extrema direita no Brasil. Intensificar essas e outras campanhas similares oferece uma perspectiva real de sua superação.
Mais uma vez, não é tudo: derrotar a narrativização absoluta da política exige paradoxalmente ultrapassar o nível puramente narrativo. Isto é, somente choques de realidade darão conta de esclarecer à população que a extrema direita abraça um populismo peculiar: populismo que despreza o povo! Dito de maneira direta: o governo da Frente Ampla necessita propor medidas firmes que avancem no terreno da justiça social. A base parlamentar da extrema direita tenderá a recusar esses projetos, a fim de defender os privilégios da elite. Poucas iniciativas serão tão efetivas na repolitização da pólis.
A adoção irrestrita da economia da atenção opera o resultado sem o qual a extrema direita dificilmente avança, qual seja, a hiperpolitização do cotidiano com o propósito de despolitizar a pólis. Desse modo, qualquer ato prosaico é transformado num eterno conflito, tanto mais incendiário em seus efeitos quanto menos substantiva for a causa do fenômeno. A consequência é a impossibilidade de discutir projetos de longo prazo ou ideais de nação, que são substituídos pela predominância narcísica de afetos de adesão incondicional ou de rejeição completa. Somente nesse caldeirão indistinto, isto é, nesse caos cognitivo, personalidades como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Javier Milei tornam-se elegíveis. Em condições normais de temperatura e pressão, teriam seu alcance limitado ao mundo do entretenimento. Mas o que fazer quando a política recorda um reality show?
(E assim caminha a humanidade na era digital.)
Então?
Na verdade, a campanha eleitoral de 2026 já principiou e o Congresso tomou partido: inviabilizar a reeleição do governo da Frente Ampla. Por que o fez de modo tão explícito? Porque a necessidade de defender os privilégios econômicos da elite obrigou a maioria dos parlamentares a essa decisão. Oportunidade única para o campo progressista esclarecer sua diferença e, especialmente, seu compromisso com a transformação de uma das sociedades mais desiguais do mundo numa nação próspera e solidária.
(País-Brasil, bem-sucedido, mas que nunca se esforçou para que finalmente surgisse a Nação-Brasil, fraterna.)
A elite brasileira abusou, tirou partido do país, abusou – e por muito tempo.
E, nesse caso, faz mal, fez mal demais – e por muito tempo.
Não é tão normal ter tanto desamor pelo próprio povo – e por muito tempo.
Por quanto tempo mais vamos esperar acontecer?



