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segunda-feira, 11 maio, 2026
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Guardião de memórias

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Rio de memória – Guta Yung

Ele ia e vinha.
Aflito, incomodado com o que não podia controlar.
Eu? Só podia observar.

Ele andava, marcando a margem com o rastro de quem não sabe o que fazer, que decisão tomar.

Não vou mentir: tantas vezes tive vontade de abraçá-lo, de embalá-lo como em sua outra forma. Mas… só podia oferecer o que me era permitido.

Ele sentou-se no chão, despreocupado com a lama da margem manchando a calça branca.
Pousou o chapéu no tronco velho e deixou a cabeça encostar, mirando o céu.

Acho que a decisão estava tomada. Ele não iria a lugar algum esta noite.

Abriu a camisa, revelando o torso suado. Passou as mãos pela testa e as subiu, segurando os cabelos em uma súplica silenciosa.

Ao levantar a cabeça e olhar para mim, pude ver quando seus olhos se encheram de água.

E pronto.

Bastaram alguns minutos de contemplação. Minha. Dele.

Agitei-me, criando pequenos redemoinhos onde seus olhos alcançavam a superfície. Queria que ele soubesse que eu seria, para sempre, a sua casa, se fosse essa a sua escolha.

Seus olhos translúcidos verteram a água guardada, misturando-se à que escorria de seus poros.

A escolha nunca lhe pertenceu. Ele era, por natureza, um ser de carne e de água, um misto de forma e fluidez.

Cada molécula sua, feita para existir magicamente entre dois mundos.

Mas, como todo ser encantado, perdia a consciência em alguns momentos e a recuperava em outros, quando andava sobre as duas pernas.

Nunca invejei essa condição de poder viver duas vidas, suspensas no limiar da magia. Tudo o que tinha de fantástica, tinha de dolorosa.

Quantas lágrimas me alcançaram?
Quantas memórias carrego em mim?

Dentro do tempo que não conto da minha existência, guardo lembranças doces e amargas. Tenho em mim o poder de preservar histórias de quem as viveu.

E ele viveu muitas.

Mas nunca uma como a que vivia hoje, uma em que chorava, perdido entre escolhas, antecipando as saudades da casa que deixaria para trás.

Depois do que me pareceu um longo momento imerso em dor, ele levantou-se.

As mãos desabotoaram calmamente os botões da camisa impecavelmente branca.

Assim que ela tocou o chão, ele se ocupou das calças.

O rosto, banhado pela luz prateada da lua, transparecia tristeza quando ele avançou, pé ante pé, para dentro de mim.

Ele caminhava de memória. Ele lembrava.

Nascido quase como um segredo, um sussurro que surge entre o fundo, a superfície e a luz da lua.

Meu toque calmo e morno correu pelo seu corpo ávido de cura.

A pele dourada se transformou, aos poucos, no tom mais pálido de cor-de-rosa, brilhando ao luar.

Braços, nadadeiras.
Pernas, cauda.

O rosto raro, transformado nas feições selvagens e doces de seu corpo animal.

Abracei-o, finalmente, acolhendo a sua decisão.

Embalei-o entre os movimentos vagarosos e plenos de todo o meu ser.

E entre um suspiro e outro, ele sumiu em minha escuridão.

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