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Diante da ruptura na ordem internacional e na ambição declarada do governo dos EUA na América Latina, o Brasil arma uma estratégia para tentar conter a implementação sem freios da “Doutrina Donroe” – a ideia de Donald Trump de retomar o controle do Hemisfério por meio da força, pressão e chantagem comercial.
A prioridade da política externa brasileira em 2026 não está fora do país. O objetivo número 1 é o de garantir que a eleição no final do ano não seja alvo de ingerências externas e preservar a democracia. Para isso, a ordem é a de acelerar a diversificação de parceiras e estabelecer uma aproximação até mesmo com governos de direita do continente.
A meta é a de se evitar que um bloco ultraconservador seja criado na região, isolando o Brasil e permitindo que uma pressão continental seja estabelecida contra o país, justamente em um ano no qual os temores de uma ingerência no processo eleitoral são reais.
A estimativa do governo é de que, em 2025, o Brasil conseguiu resistir aos ataques de Trump. Apesar das tarifas e sanções, o país terminou o ano com um volume recorde de exportação. O entendimento em Brasília é de que a tática de Lula de não ceder diante de Trump funcionou.
Mas as ameaças não terminaram e o risco de isolamento é real. Ainda que o Palácio do Planalto tenha entendido logo no começo de 2025 que Trump colocaria ênfase numa ofensiva na América Latina durante seu mandato, foi a publicação em novembro do ano passado da estratégia de defesa nacional da Casa Branca que confirmou as piores previsões dos diplomatas brasileiros.
Trump, sem qualquer constrangimento, anunciava que usaria se necessário até mesmo seu poderoso exército para romper as relações estratégicas da China com a América Latina. Ao mesmo tempo, usaria sua presença na região para pressionar por um amplo e irrestrito acesso aos recursos naturais da região.
O ataque contra a Venezuela, assim, se transformou na implementação da Doutrina Donroe, uma mistura de Monroe com o nome do atual presidente, Donald Trump.
Salvar o Mercosul
Para o governo brasileiro, porém, a ofensiva não irá se limitar à Venezuela e, por meses, o Planalto vem buscando “antídotos” para se proteger.
Um deles foi a decisão de acelerar a conclusão de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Ainda que o pacto seja modesto para os exportadores nacionais, foi seu caráter estratégico que pesou.
O acordo cumpre pelo menos duas funções geopolíticas. A primeiro é a de ampliar a perspectiva da diversificação dos parceiros comerciais do Brasil, principalmente num momento de protecionismo.
O outro objetivo foi o de impedir que o Mercosul desaparecesse. Com a extrema direita no poder na Argentina e aliados de Javier Milei no Paraguai e Bolívia, o temor do Brasil era de que o projeto de integração chegasse ao final.
Mas o acordo com a UE – de amplo interesse do setor agrícola da Argentina – apenas poderia existir se fosse assinado com o Mercosul completo. Assim, na visão de muitos em Brasília, o pacto com os europeus salvou o Mercosul.
A ironia é que, no fundo, foi Trump que permitiu que, depois de 25 anos de negociações, o acordo finalmente fosse fechado.
Estrela de Davos, canadense visitará Lula
Mas a estratégia brasileira não se limita em salvar o Mercosul. Ainda no primeiro semestre de 2026, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fará uma visita ao Brasil. Ele ganhou destaque mundial em Davos, nesta semana, quando proferiu um discurso no qual criticou os esforços de hegemonia dos EUA e sugeriu que potências médias construíssem suas independências diante do poder americano.
Em pelo menos duas ocasiões, Carney já disse ao presidente Lula que quer acelerar um acordo de livre comércio com o Mercosul e aproximar as economias do Brasil e do Canadá. Sob a mira de Trump e até desconvidado do Conselho da Paz, ele também busca na diversificação sua própria defesa da soberania.
Direita latino-americana e Panamá
O governo Lula ainda estabeleceu como eixo de sua diplomacia a intensificação da relação comercial e política com governos latino-americanos, mesmo aqueles que sejam de direita. Bolívia, Paraguai e Equador são três focos de atenção, justamente para minar a capacidade de Milei de organizar a região entorno dos interesses da extrema-direita e, claro, da Casa Branca.
Não por acaso, Lula recebeu há poucos meses o presidente do Equador, Daniel Noboa, busca uma aproximação ao novo presidente boliviano e quer conter a aliança dos EUA no Paraguai.
O Brasil, portanto, quer se apresentar como uma alternativa regional à Doutrina Donroe, oferecendo aos países vizinhos a possibilidade de mais uma via para além da submissão aos interesses de Washington. A ideia é a de trabalhar “sem ideologia”.
Outra perna dessa estratégia será implementada no final do mês, quando Lula viajará ao Panamá. Um dos objetivos é o de fortalecer a presença do país na América Central, foco do governo Trump.
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