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Governo Bolsonaro produziu mais de 100 boletins para sustentar tratamento precoce na pandemia

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Por Flávio VM Costa

O Ministério da Saúde da gestão de Jair Bolsonaro (PL) produziu ao menos 107 boletins reunidos sob a rubrica “Evidências Científicas”, com materiais sobre cloroquina, hidroxicloroquina e outras terapias sem eficácia comprovada durante a pandemia da covid-19.

O levantamento obtido pelo núcleo investigativo do ICL Notícias mostra como a estrutura institucional do governo federal foi usada para dar respaldo ao chamado “tratamento precoce”, que se comprovou cientificamente ineficaz. O Brasil registrou mais de 716 mil mortes pela doença.

O estudo foi realizado por Ergon Cugler, pesquisador do DesinfoPop (Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas) da FGV, e identificou ainda 142 notícias publicadas em portais oficiais do governo relacionadas à defesa direta ou indireta do tratamento precoce e do uso off label de medicamentos.

A conclusão do pesquisador é assertiva. “O governo Bolsonaro fraudou evidências científicas para empurrar cloroquina nas pessoas e atrasar as vacinas”, afirma.

Em setembro de 2025, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar fatos apontados no relatório final da CPI da Pandemia, que pediu o indiciamento de Bolsonaro por nove crimes, entre eles charlatanismo e infração a medidas sanitárias preventivas.

Seis anos após o início da pandemia de Covid-19, investigações sobre a condução da crise sanitária pelo governo Jair Bolsonaro ainda avançam lentamente no Supremo Tribunal Federal (STF).

A Polícia Federal chegou a solicitar prazo adicional para avançar nas apurações, mas até agora não houve novas decisões públicas sobre o andamento do caso, que segue sob sigilo.

Portais oficiais respaldavam tratamento precoce

A análise identificou que o ministério publicou ao menos 107 boletins classificados como “evidências científicas” para discutir possíveis tratamentos contra a Covid-19 —incluindo medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina.

Também foram encontradas 142 notícias publicadas em portais oficiais sob domínio “.gov” defendendo direta ou indiretamente o uso desses medicamentos.

Os documentos faziam parte de uma página oficial do ministério criada para reunir supostas evidências sobre tratamentos contra o coronavírus.

Ela funcionava como uma vitrine institucional de estudos favoráveis ao chamado tratamento precoce, mesmo enquanto agências regulatórias e grande parte da comunidade científica afirmavam que não havia comprovação de eficácia desses medicamentos.

A análise cruzou documentos publicados no portal do Ministério da Saúde, boletins técnicos e conteúdos divulgados em sites oficiais do governo federal.

Para isso, foram extraídos todos os materiais disponíveis em páginas do governo —incluindo sites de ministérios e autarquias— que mencionassem “cloroquina”, “hidroxicloroquina” ou “ivermectina” entre 2019 e 2022. Ao todo, foram identificados 1.868 conteúdos únicos, analisados individualmente.

“O primeiro interesse do governo Bolsonaro foi o acúmulo de poder a partir do controle da narrativa”, diz Cugler. “Eles compraram a tese da cloroquina e foram com ela até o final, mesmo sem evidências, polarizando contra a vacinação.”

Segundo o pesquisador, a estratégia envolvia também aliados do governo no Congresso, como senador Flávio Bolsonaro. “Enquanto o governo Bolsonaro fraudava documentos e evidências para empurrar cloroquina e atrasar vacina, Flávio era a ponta de lança no Senado que tumultuava o debate em torno da compra de vacinas e ajudava o governo de seu pai a atrasar a vacinação das pessoas que estavam em risco de morrer.”

Estudos frágeis apresentados como ‘evidência científica’

Parte relevante dos boletins se baseava em revisões não sistemáticas — método que permite reunir estudos sem aplicar critérios padronizados de qualidade científica.

Na hierarquia da medicina baseada em evidências, esse tipo de revisão é considerado menos robusto do que revisões sistemáticas ou meta-análises, que normalmente orientam diretrizes clínicas e políticas públicas de saúde.

Além disso, muitos dos estudos citados nos boletins estavam em fases iniciais de pesquisa ou sequer haviam passado pelo processo de revisão por pares, etapa em que outros cientistas avaliam a qualidade metodológica de um trabalho antes da publicação.

O levantamento identificou também um padrão temporal. Ao comparar as declarações públicas de Bolsonaro com a produção de documentos oficiais, foi possível observar que picos de defesa do tratamento precoce coincidiam com aumento na publicação de materiais institucionais sobre esses medicamentos.

Pessoas ligadas à gestão do Ministério da Saúde à época relatam que, diante da pressão pelo uso da cloroquina, a pasta chegou a buscar evidências científicas para avaliar a eficácia do medicamento.

Um estudo clínico conduzido no Brasil, porém, foi interrompido após pesquisadores identificarem aumento de arritmias cardíacas em pacientes que recebiam doses mais altas.

Mesmo após resultados negativos, de acordo com o levantamento, o medicamento continuou a ser citado em documentos oficiais.

Segundo Cugler, o governo bolsonarista tentou manter a narrativa pró-cloroquina até o último minuto.

“Parte dos documentos emitidos e ajustados foram inclusive no final do mandato, evidentemente para tentar manter a narrativa a favor da cloroquina em vias oficiais”, diz.

Página oficial reunia um ‘cardápio’ de tratamentos

A página criada pelo Ministério da Saúde reunia boletins que compilavam estudos e referências sobre diferentes abordagens terapêuticas para a Covid-19.

Em abril de 2020, por exemplo, um dos documentos citava uma pesquisa francesa amplamente divulgada no início da pandemia, que sugeria possível benefício da hidroxicloroquina na redução da carga viral. O estudo, no entanto, envolvia um número reduzido de pacientes e não tinha grupo controle adequado — limitações que levaram a críticas posteriores da comunidade científica.

No mesmo período, outro boletim chegou a listar medicamentos homeopáticos como alternativa para sintomas leves da doença, citando substâncias como Arsenicum album, Bryonia alba, China officinalis, Chininum arsenicosum e Phosphorus.

A recomendação se baseava em um estudo preliminar com apenas 27 pacientes, sem grupo de comparação e cujo próprio relatório reconhecia a necessidade de pesquisas mais robustas para confirmar qualquer efeito.

Diretrizes federais influenciaram estados e municípios

Além dos boletins, o Ministério da Saúde também publicou diretrizes administrativas relacionadas ao tratamento da doença.

Entre elas estava um termo de ciência e consentimento que poderia ser apresentado a pacientes diagnosticados com Covid-19 interessados no uso de hidroxicloroquina associada à azitromicina. O documento previa que o paciente declarasse estar ciente dos possíveis riscos do tratamento e autorizasse formalmente o uso dos medicamentos.

Ao permitir que a decisão fosse formalizada por meio de um documento padrão, o modelo institucionalizou o uso de um tratamento sem eficácia comprovada dentro da rede pública

Durante a pandemia, o ministério também chegou a enviar nota técnica a estados e municípios indicando a possibilidade de uso da cloroquina em determinados casos, além de promover a distribuição de milhões de unidades do medicamento.

Estratégia envolveu dinheiro público

A estratégia também teve impacto financeiro. Documentos analisados indicam a produção e distribuição de milhões de unidades de cloroquina, com apoio de laboratórios do Exército.

Também foram identificados contratos públicos, incluindo R$ 1,5 milhão em aquisições sem licitação. Além disso, o governo chegou a estudar a destinação de até R$ 250 milhões para distribuição de medicamentos do chamado “kit Covid”.

Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) aponta que o governo federal gastou cerca de R$ 290 milhões em campanhas de comunicação durante a pandemia, dos quais R$ 88 milhões foram destinados a ações que não estavam diretamente relacionadas ao combate à Covid-19, como campanhas sobre retomada econômica.

Comunicação oficial também promoveu medicamentos

O levantamento identificou ainda o uso sistemático da comunicação institucional do governo para divulgar conteúdos relacionados ao chamado tratamento precoce.

Entre 2019 e 2022 foram encontrados 1.868 materiais publicados em sites oficiais, incluindo reportagens, notas e comunicados que mencionavam cloroquina, hidroxicloroquina ou ivermectina.

Entre eles, 142 notícias publicadas em portais sob domínio “.gov” defendiam direta ou indiretamente o uso desses medicamentos —com conteúdos que destacavam, por exemplo, a produção de cloroquina por laboratórios das Forças Armadas, a redução de impostos para importação dos fármacos e declarações de médicos favoráveis ao tratamento.

Na prática, esse conjunto de publicações ajudava a dar respaldo institucional à estratégia adotada pelo governo, ao apresentar os medicamentos como alternativas possíveis no enfrentamento da pandemia.

Investigação continua sem desfecho

A atuação do governo federal durante a pandemia continua sob análise no STF.

O inquérito foi aberto a partir de uma decisão do ministro Flávio Dino, que determinou à Polícia Federal a apuração de possíveis irregularidades apontadas pela CPI da Pandemia.

Como o processo tramita sob sigilo, não é possível acompanhar os detalhes da investigação. Pelos registros públicos, a decisão foi tomada em setembro de 2025, e o caso segue sem novas manifestações.

A Polícia Federal é responsável por reunir o conjunto de provas —como documentos, depoimentos e registros das condutas investigadas— que irão embasar a análise do Supremo.

Após essa etapa, o material deve ser encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR), que avalia se há elementos suficientes para apresentação de denúncia. Só então o STF decide sobre a abertura de uma eventual ação penal.





ICL Notícias

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