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quarta-feira, 25 fevereiro, 2026
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Governo aposta em Motta para reduzir dependência de Lira na Câmara

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Por Cleber Lourenço

O governo decidiu adiar a votação da LDO para ganhar tempo político, reorganizar a base e redefinir o equilíbrio interno na Câmara. A estratégia, segundo membros da articulação do Palácio do Planalto, evita que o calendário de liberação de emendas seja antecipado e mantém nas mãos do Executivo o poder de negociação e pressão sobre as bancadas.

O raciocínio é direto: ao segurar a LDO, o governo retém também o gatilho de liberação de recursos, instrumento que volta a funcionar como fator de disciplina na base. “Quando você aprova a LDO, você carimba o calendário das emendas. Então, quem reclama, na prática, está ajudando o governo”, avaliou um dos articuladores.

Nos bastidores, o diagnóstico é de que o humor político na Câmara mudou. Deputados que orbitavam o Centrão voltaram a se aproximar do governo após exonerações de indicados e o recado de Lula de que a articulação passaria a ser mais direta e controlada.

As movimentações recentes foram interpretadas como uma reconfiguração do tabuleiro, com sinais claros de que o Planalto retomou o comando das relações institucionais.

“Quer estar comigo, janta comigo, tira foto comigo e volta comigo. Quem está comprado em Lula está com ação mais valorizada”, disse um integrante do grupo político do Planalto, resumindo a nova lógica de aproximação.

Desgaste de Lira

O Planalto reconhece que Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, ainda é uma figura de relevância política, especialmente pelo histórico de votações que conduziu e pela influência sobre líderes partidários, mas a avaliação interna é de que a relação com ele se tornou desgastada e pouco funcional.

A percepção de ministros e assessores é que Lira perdeu parte da autoridade e da capacidade de controle, enquanto Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Câmara, vem ocupando esse espaço com uma liderança mais discreta e pragmática.

Desde a crise das ocupações bolsonaristas no Congresso, assessores de Lula passaram a defender que não é saudável para a democracia ter a Câmara sem comando político efetivo ou um presidente enfraquecido.

Essa leitura levou o governo a investir numa transição gradual de poder que fortalece Motta e reduz a dependência direta de Lira, pavimentando um novo arranjo político entre o Executivo e o Legislativo.

Hugo Motta X Deputado Arthur Lira, ex-presidente da Câmara - Foto: Divulgação

Redistribuição de poder

Além de segurar a LDO, o Planalto tem adotado medidas paralelas para consolidar a influência de Motta. A Casa Civil e o Ministério das Relações Institucionais vêm calibrando a liberação de cargos e recursos regionais de modo a atender demandas que passam diretamente pelo presidente da Câmara, e não mais pelo grupo de Lira.

Essa redistribuição de poder é vista internamente como uma forma de fortalecer o novo interlocutor e descentralizar a mediação política, reduzindo riscos de chantagem e instabilidade.

Interlocutores do Planalto afirmam que Motta tem se mostrado um aliado mais previsível e disposto ao diálogo institucional, aproveitando o momento para construir sua própria rede de apoios. O deputado, segundo um dos articuladores, “está se afastando da tutela de Lira e buscando consolidar uma base leal e autônoma”.

Essa rede envolve deputados de partidos médios e bancadas temáticas, sobretudo da área de infraestrutura e agricultura, que vinham se sentindo marginalizados na distribuição de espaço político e agora se aproximam da Mesa Diretora.

Sinal de confiança

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, já havia se manifestado sobre a importância de uma Câmara com comando firme durante o episódio do motim da oposição que tentou paralisar o Legislativo. Na ocasião, ela afirmou:

“Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, agiram corretamente diante do motim da oposição, que tentou impedir o funcionamento do Poder Legislativo. Retomaram o comando das Casas, deixando claro que os interesses do país e do povo não podem ser submetidos às chantagens”.

A fala dela reforçou a preocupação do governo em ter um presidente da Câmara com autoridade política e capacidade de reação, especialmente diante de crises institucionais.

Essa postura também foi reconhecida publicamente por José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara, em 8 de outubro de 2025, durante a discussão da MP que compensava a faixa de isenção do Imposto de Renda.

Na ocasião, o petista destacou o papel de Motta no diálogo político e afirmou estar “elogiando a construção coletiva e a participação que V.Exa. teve como Presidente do Poder Legislativo pela responsabilidade no diálogo com todas as forças”. O elogio foi interpretado dentro do Planalto como um sinal explícito de confiança e alinhamento.

Novo equilíbrio

Entre assessores próximos de Lula, o movimento é visto como parte de uma estratégia de médio prazo. O Planalto aposta que o fortalecimento de Motta pode não apenas garantir estabilidade nas votações de 2025, mas também criar um novo equilíbrio de poder para o próximo ciclo legislativo, quando se definirá a sucessão no comando da Câmara.

Ministros e líderes governistas enxergam na aproximação com Motta uma forma de prevenir rupturas e reduzir o custo político das negociações, que durante a era Lira se tornaram mais onerosas e imprevisíveis.

Essas movimentações refletem o novo cálculo político do Planalto: o fortalecimento de Motta é visto como essencial para que o governo volte a ter previsibilidade e controle sobre a Câmara, evitando que crises políticas se transformem em bloqueios institucionais.

O Palácio entende que a governabilidade depende de uma Câmara funcional e de um presidente comprometido com a estabilidade, não de uma relação de dependência com um único líder. A avaliação é que, se bem consolidada, essa transição pode redefinir o modelo de articulação política no Congresso — menos centralizado, mais técnico e mais afinado com os interesses do Executivo.

Nos bastidores, o consenso é que a era de domínio absoluto de Arthur Lira chegou ao fim. O governo aposta em um novo ciclo, mais descentralizado, no qual a sintonia entre Lula e Hugo Motta se tornará o eixo central do equilíbrio político em Brasília.

A transição, dizem aliados, será lenta e cuidadosa, mas já é perceptível nos gestos, nas agendas e nas decisões administrativas. Como resumiu um interlocutor do Planalto: “O vento virou, e o Planalto voltou a ter influência no jogo”.





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