O governador de Santa Catarina Jorginho Mello, conhecido pelas bandeiras radicalizadas do bolsonarismo desde que assumiu o mandato de senador, em 2018, tem uma empresa que mantém negócios há mais de uma década com lideranças do PT no Estado. A sociedade aparece dias após a campanha dos candidatos ao senado, Décio Lima (PT) e Afranio Boppré (PSOL), apoiados por Lula, levar a público uma foto de Jorginho ladeado por lideranças petistas em um registro público de 2009. A ex-presidenta e então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, também está na imagem.
A holding JSM Participações Societárias Ltda, que Jorginho mantém com os filhos Bruno Mello e Filipe Mello e da qual é sócio majoritário, tem uma cota na Foz do Uvá Energética Ltda, empreendimento do setor elétrico ativo desde 2010, localizado em Itá. O ex-prefeito de Rio do Sul e ex-deputado estadual pelo PT, o médico e empresário Jailson Lima, é um dos administradores do negócio junto do filho do governador, o dentista e vice-presidente do PL no estado, Bruno Mello.
Sob o nome fantasia de Central Geradora Hidrelétrica Panapaná, a sociedade foi firmada em 2010, mas a licença ambiental de instalação foi tornada pública no Diário Oficial do Estado apenas em 2021. A empresa de Jorginho detém uma cota de R$ 600 mil, o equivalente a 20% do capital. O negócio ainda não está em operação.
A parceria inusitada envolve também o petista histórico Nacir Marchesini, que tem cota em uma das outras empresas que compõem o negócio e que esteve à frente dele até pelo menos 2020, quando houve uma reestruturação. Nacir já foi vereador em Chapecó e é conhecido pela sua militância no partido há décadas.
Os personagens da sociedade ressurgiram na foto postada pela campanha petista que remonta a um registro de quando Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil, esteve na Assembleia Legislativa de Santa Catarina para falar sobre o pré-sal. Naquela ocasião, ela foi recebida justamente por Jorginho Mello, então presidente da casa e no PSDB, partido do qual sairia já no primeiro mandato de Dilma, quando estava próximo do PT.
Os registros já revelam uma proximidade. Jorginho Mello não saiu do lado da então ministra, que falava sobre a viabilidade do pré-sal e a divisão dos recursos entre os estados. Além dele, nas imagens, destacam-se outras personalidades conhecidas do PT catarinense, como a ex-senadora e ministra Ideli Salvatti, o deputado federal e líder do PT Pedro Uczai, a deputada federal Ana Paula Lima e o sócio do governador, Jailson Lima.
Essa época também é lembrada nos bastidores do PT como um momento de proximidade com Mello, que estava de saída do PSDB quando lideranças do partido convenceram Valdemar Costa Neto, à época aliado, a deixá-lo com o PR local, que mais tarde se transformaria no PL. Foi um passo definitivo para a carreira do governador, que hoje tenta esconder as antigas relações.

Jorginho Mello nunca expôs publicamente o negócio com os rivais, formalizado menos de um ano após a foto e até 2020 administrado por Nacir, enquanto Mello se alinhava à tropa de choque de Jair Bolsonaro na CPI da Covid-19. Nem Nacir Marchesini, nem Jailson Lima quiseram comentar o assunto.
A sociedade de Mello com “inimigos” ideológicos também entra em conflito com a agenda eleitoral de quem selou a aliança dele com o bolsonarismo: a deputada federal Julia Zanatta. Responsável por aproximar Jorginho Mello de Eduardo Bolsonaro e da família, a parlamentar tem empreendido uma verdadeira caçada ao que chama de “melancias”, que são políticos que tentam simular uma agenda conservadora para captar o eleitor bolsonarista.
Nessa empreitada, ela tem exposto candidatos com conexões com o PT e com a agenda progressista, ignorando a proximidade do governador, em termos de negócios, com correligionários do presidente Lula. A equipe de Jorginho Mello também foi procurada a respeito da sociedade, mas não retornou o questionamento da coluna.



