O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou, durante entrevista coletiva na quinta-feira (26), que a direção do Banco de Brasília (BRB) tem se empenhado para encontrar uma solução para o rombo decorrente das transações com o Banco Master, em um caso que expôs fragilidades no sistema financeiro e segue sob monitoramento da autoridade monetária.
Segundo Galípolo, o problema enfrentado pela instituição está relacionado ao patrimônio, e não à liquidez, o que exige uma resposta do controlador — no caso, o governo do Distrito Federal.
“Eu tenho assistido o empenho da gestão atual do BRB para tentar equacionar a questão e achar uma solução, que é uma questão que está menos na mão da gestão efetivamente do BRB. Porque é uma questão hoje de patrimônio e não de liquidez, que o banco tem que solucionar. E, sendo uma questão de patrimônio, envolve uma solução fornecida pelo acionista do banco”, disse.
Pelas regras do Banco Central, o banco precisa apresentar até 31 de março, junto com o balanço, uma saída concreta para as perdas associadas aos ativos herdados do Master. O descumprimento pode resultar em sanções.
Galípolo ressaltou ainda que o BC atua com rigor técnico e dentro de limites institucionais bem definidos.
“E a verdade é que a coisa aqui é muito demarcada por trilhas e coisas que precisam ser feitas a partir de eventos”, afirmou.
Crise do Master e impacto institucional
O caso do Banco Master provocou forte reação interna no Banco Central. Galípolo descreveu o episódio como motivo de “consternação” entre os servidores e afirmou que a instituição atravessa um processo de “luto”. Isso porque o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização da autarquia, são investigados por suspeita de atuarem como consultores informais do empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do banco, em troca de vantagens indevidas, segundo apuração da Polícia Federal.
“Eu não gostaria de fazer nenhum tipo de comentário que reduzisse a consternação que gerou dentro do Banco Central. Para todos os servidores do Banco Central, a ética é um valor muito caro”, disse.
Ele acrescentou que a resposta da instituição buscou preservar o rigor técnico. “A casa respondeu, como sempre, de maneira muito pronta, correta, buscando sanear todos os problemas e tendo, acima de tudo, esse valor que está do Banco Central”, frisou.
Ao comentar a atuação do BC no caso, Galípolo destacou que o processo seguiu os ritos legais, com tempo necessário para coleta de evidências e comunicação às autoridades. “Não vai ter salvador da pátria para um momento como este”, disse.
Segundo ele, a atuação da instituição ocorreu com “mais absoluto rigor”, sem extrapolar competências nem buscar protagonismo.
O BC decretou a liquidação do Banco Master em novembro do ano passado.
Juros elevados e desafio estrutural
Na mesma coletiva, Galípolo chamou atenção para o alto custo do crédito no Brasil, classificando como “punitivos” os juros do rotativo do cartão de crédito.
De acordo com o presidente do BC, ao considerar diferentes modalidades, a maior parte da população paga taxas superiores a 100% ao ano.
“Assim como outras distorções que a gente tem, não são simples de endereçar, não tem uma receita simples. E acho que a gente precisa trabalhar cada vez mais em alternativas que vão fornecer e garantir à população que ela tenha uma escolha que ofereça mais vantagens”, disse.
Ele também destacou a necessidade de reduzir a percepção de risco por parte das instituições financeiras e ampliar o acesso a linhas de crédito mais adequadas.
“E quem toma o crédito tem que ter mais facilidade para acesso a uma linha de crédito mais compatível com a necessidade do cidadão”, acrescentou.
O tema dialoga com a preocupação do governo federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou recentemente a dívida das famílias como um problema que ofusca o desempenho da economia e afirmou ter solicitado estudos ao Ministério da Fazenda para enfrentar a questão.



