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quarta-feira, 25 março, 2026
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Futebol e desencanto – ICL Notícias

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Nunca encarei o futebol como um mero jogo, esporte, divertimento. Futebol é cultura, faz parte de um campo de elaboração de símbolos, projeções de vida, construção de laços de coesão social, afirmação identitária e tensão criadora.

Nossas maneiras de vivenciar o futebol, jogando ou torcendo, revelam as contradições, violências, alegrias, tragédias, festas e dores que nos constituíram. A mesmíssima coisa vale para a cultura dos botequins e das escolas de samba.

O problema é que a coisa anda feia, numa briga entre a maré e o rochedo em que somos, os que amamos o futebol, mariscos acuados.

O processo de falência do futebol e do botequim como cultura reduz o jogo e a ida ao bar a meros eventos; para delírio das caravanas que parecem percorrer os bares com a curiosidade dos antigos imperialistas em incursões civilizadoras e dos espectadores que ficam fazendo selfies em estádios de futebol enquanto a bola rola. Me espanta ainda como isso se reflete no vocabulário, que perde as características peculiares do torcedor e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial.

Assistimos nos últimos anos ao processo de elitização dos grandes estádios, redefinidos como arenas frequentadas por uma clientela um tanto amorfa. Já escutei de uma amigo que frequentar os jogos importantes em camarotes é uma maneira de fazer “networking”.

As arquibancadas e gerais, como espaços coletivos de movimentações imponderáveis, soluções criativas no ato de torcer, lugares de abraços suados e eventuais porradas, resistem ainda aqui ou ali, mas sabe-se lá como. São cada vez mais raros o maluco fantasiado, o doido da geral, a torcedora cardiopata, o arremessador de chinelo no juiz, o vendedor de laranja-lima. A hora é a do espectador comportado, uma espécie de testemunha da partida, do tirador de selfies na hora do gol que precisa postar em tempo real o que está assistindo.

Saímos da fase do “só postei porque vivi” e já entramos na fase do “só vivi porque postei”.

Em um mundo absolutamente financeirizado, em que tudo é medido pela capacidade de circulação de capitais que a mais simples atividade humana pode ensejar, já não sei mais o que esperar do futebol dentro e fora do campo. As bets dominam tudo, a FIFA concede ao sociopata Donald Trump um prêmio da paz, o ódio engaja muito mais que o afeto, a virulência das redes alimenta e é alimentada por boçais e o futebol como evento da cultura é devorado pela cultura do evento.

Não, não estou largando o futebol. Mas cada vez mais busco refúgio na irrelevância das várzeas, na epopeia silenciosa dos derrotados, dos fracassados, dos frangueiros, dos frequentadores das arquibancadas precárias de madeira e cimento, que traçam certo painel afetuoso a respeito de um Brasil que me interessa. Coisas, enfim, capazes de aconchegar uma pessoa na sua aldeia quando tudo mais lhe parece vertigem de um mundo desencantado.

De mim não roubarão o amor pela cultura da bola. Não desisto. Se for pra morrer, que seja mandando bala, como bandido num sallon do Velho Oeste. Mas sou réu confesso. O futebol atual, esse dos grandes e feéricos espetáculos, disputado por bets e devorado por influenciadores piadistas ou furiosos, anda soando para mim feito a frase de um samba-canção sublime do Cartola: acontece que meu coração ficou frio.





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