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quinta-feira, 12 fevereiro, 2026
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Frente Parlamentar de Memória, Verdade e Justiça foi instalada em frente ao Dopinha em Porto Alegre — Brasil de Fato

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Cerca de 60 pessoas acompanharam a instalação da Frente Parlamentar de Memória, Verdade e Justiça na tarde de sábado (11). Na sua maioria militantes de movimentos sociais e sobreviventes daquele período de nossa história atenderam ao chamado do vereador de Porto Alegre Pedro Ruas (Psol).

“Escolhemos esse local para fazer a solenidade porque este casarão, na rua Santo Antônio, 600, representou a clandestinidade da clandestinidade. Esse local conhecido como Dopinha foi o primeiro centro clandestino para sequestro, interrogatório, tortura e morte de presos políticos do Cone Sul.” Com essas palavras, o vereador Pedro Ruas (Psol) iniciou seu discurso na abertura do evento.

O objetivo da frente, criada no início deste ano, é levantar delitos praticados no período da ditadura militar, entre os anos de 1964/1985, visto que centenas de pessoas ainda buscam o reconhecimento e reparações do sofrimento, prisões, ameaças, perdas de emprego, cargos públicos e até mesmo tortura e sumiço de familiares que foram presos.

O criador da Frente Parlamentar leu a placa colada no chão da calçada em frente ao número 600 da Santo Antônio, na qual consta o “curriculum” do sobrado que fica na divisa entre os bairros Independência e Bom Fim. “O nosso ato aqui é muito significativo, pois esse casarão foi o primeiro centro clandestino do Cone Sul. Aqui, funcionou a estrutura paramilitar para sequestro, interrogatório, tortura e extermínio de pessoas presas pelo regime militar de 64. Aqui o major Luiz Carlos Mena Barreto liderou um grupo de 28 militares e de policiais civis do Dops que cometeram atrocidades de 1964 até 1966, quando o corpo do sargento Manuel Raimundo Soares apareceu boiando nas águas do rio Jacuí, morto, com as mãos amarradas.”

Lembrou ainda que CPI aberta pela Assembleia Legislativa, para analisar o Caso do Crime das Mãos Amarradas apontou para o Dopinha, onde Manoel Raimundo resistiu 152 dias de torturas, atrocidades, até ser morto e descartado no rio. “Por essa razão, também lutamos para que esse espaço seja transformado em um Centro de Memória e Justiça. Já conseguimos, em datas anteriores, trazer aqui o governador do Estado Tarso Genro, a ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário e o prefeito de Porto Alegre José Fortunati. Apesar daquele movimento, não foi possível a compra do imóvel. Mas a luta continua”, disse Ruas. Ele também destacou as ações do promotor de justiça Carlos Tovo, que devido a sua posição firme em fazer justiça, acabou sofrendo represálias.

O presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke, falou sobre a alegria pela instalação da frente. “É extremamente importante porque estamos na estaca zero. É necessário avançarmos em nossa luta pelos direitos humanos, visto que estamos num impasse”, declarou. Krischke, assim como Pedro Ruas, lembraram que a placa que denuncia crimes da ditadura militar afixada no passeio público em frente ao casarão – e que faz parte do projeto Marcas da Memória, parceria entre o Executivo municipal e o Movimento de Justiça e Direitos Humanos – havia sido cimentada, “um retrocesso”. Colocada na calçada em 2015, foi necessário buscar o Ministério Público para mandar repor.

Também se manifestaram o coordenador da Comissão dos Direitos Humanos Sobral Pinto da OAB-RS, Roque Reckziegel, que destacou a atuação da Frente Parlamentar de Memória, Verdade e Justiça. Conforme ele, a frente  vai contribuir para fazer justiça aqueles que tombaram e, com a criação do Memorial, será possível apoiar projetos de educação às novas gerações, de forma que essas sejam informadas do que representou a ditadura.

Convênio com a Universidade

A deputada estadual Sofia Cavedon (PT) enfatizou a necessidade de serem encontradas formas capazes de concretizar a compra do sobrado, ainda neste ano. Destacou que em reunião promovida na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa o tema foi amplamente debatido e uma das conclusões tiradas foi a de que deverá ser formalizado algum convênio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), de forma que os diversos departamentos de pesquisas possam atuar no futuro Memorial, apoiar na política de manutenção. Inclusive já está marcada audiência com a reitora para tratar do tema.

O jornalista Guilherme Oliveira, da Casa Diógenes de Oliveira, na Cidade Baixa, apoiou a proposta de Sofia Cavedon. “Nós estamos mantendo a Casa Diógenes, realizando atividades variadas, reunindo os companheiros, porém é muito difícil. Creio que precisamos unir nossas experiências e buscarmos soluções que resultem na abertura efetiva desse espaço.” Segundo ele, está junto na luta para que o Dopinha seja um Centro de Memória.

O jornalista Wálmaro Paz, membro da Diretoria Executiva da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e do jornal Brasil de Fato, parabenizou a criação e instalação da frente, da mesma forma que lembrou sua trajetória profissional, prejudicada pela censura permanente nas redações, durante muitos anos.

O ex-deputado estadual Raul Carrion, representando o PCdoB, destacou que é imprescindível avançar nas lutas pela criação de espaços de memória, onde será possível promover a justiça, mediante a busca da verdade. Lembrou que em todo o Brasil estão sendo promovidos movimentos nesse sentido, e que é necessário se inspirar e apoiar. Lembrou que no Marabá a luta é pela desapropriação da Casa Azul, onde foram assassinados integrantes da guerrilha do Araguaia e moradores locais.

O presidente da Associação dos Ex-presos e Perseguidos Políticos, Sérgio Bittencourt, lembrou que além do sargento Raimundo, estiveram presos no Dopinha Carlos Heitor Azevedo e o jornalista Cói Lopes de Almeida, que foi chefe da Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal de Porto Alegre, onde faleceu em horário de trabalho. Também se manifestaram Marta Hass, atuadora do Grupo Oi Nóis Aqui Traveiz; a pastora metodista Mara Freitas (cuja família foi perseguida de forma cruel e sistemática em Santa Maria), Jacqueline Custódio, representando o Instituto Sigmund Freud (SIG) e Irmão Miguel Orlandi, presidente da Avesol.

Estiveram presentes, ainda, Edilson Nabarro, do Movimento Negro Unificado e jornal O Tição; Mirian Burguer, do Coletivo Testemunho e Ação/SIG; os jornalistas Ayres Cerutti, ARI, e Afonso Licks do MJDH; professora Jacqueline Junker, diretora da Escola Porto Alegre, entre outros.

O movimento para o Dopinha virar Memorial

A primeira ocupação do casarão de número 600, na rua Santo Antônio, em Porto Alegre, pelo Comitê Carlos de Ré da Verdade e Justiça-RS, foi em 18 de dezembro de 2013 e alcançou o objetivo desejado pelos articuladores. Teve a participação do governador Tarso Genro e do prefeito José Fortunati no ato político e cultural e garantiu o compromisso público das duas autoridades no sentido de assegurar a desapropriação do imóvel para ser transformado num Memorial que deverá ser chamado de Centro de Memória Ico Lisboa.

Entre as autoridades e personalidades presentes figuraram o desembargador Roberto Lôfego Canibal (TJRS); o procurador-geral do Estado, Carlos Henrique Kaiper; o secretário de Segurança Pública Airton Michels, o deputado Adão Villaverde, representando a Assembleia Legislativa; a vereadora Fernanda Melchionna, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores, Suzana Lisboa, viúva de Ico Lisboa, o jornalista Lino Brum, cujo irmão foi visto pela família pela última vez em 1971.

Nei Lisboa, Raul Ellwanger e o Ói Nóis Aqui Traveiz deram o suporte cultural político para o ato. Os dois músicos fizeram apresentações de obras de suas autorias ou de outros músicos que evocam a liberdade. O grupo teatral apresentou Onde? Ação nº 2, peça que fala sobre os desaparecidos de forma a conclamar a procura de muitos que ainda não foram encontrados.

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Fonte: Brasil de Fato

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