Como nos lembra Chico Alves – em coluna neste portal – há algo de profundamente assombroso na paisagem política brasileira quando nos deparamos com a imagem de Flávio Bolsonaro despontando como pré-candidato à Presidência da República em 2026. A cena evoca um teatro do absurdo, onde o ator principal, sorridente e empertigado, parece ter apagado de seu roteiro pessoal todas as nódoas de um passado recente e traumático. A candidatura do “01”, ungida pelas mãos de um pai inelegível, não é apenas um movimento político, é um ensaio sobre a amnésia coletiva que a extrema-direita – e seus amigos “isentões” do centrão – tenta impor ao país.
Flávio apresenta-se ao eleitorado como uma tábula rasa, uma figura limpa e desvencilhada dos escombros deixados pelo governo de Jair Bolsonaro. Faz vídeos sobre o amor que tem pela família, pelas filhas, pela esposa dedicada, chora, faz jogo de cena, é patriota e cidadão de bem. Contudo, a memória nacional não pode ser tratada como um arquivo corrompido que se apaga com um simples comando. A trajetória do senador fluminense está umbilicalmente ligada às páginas mais sombrias da crônica policial e política do Brasil contemporâneo. Como esquecer o escândalo das “rachadinhas”, aquele esquema paroquial de desvio de salários de servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj)? A figura de Fabrício Queiroz, o ex-assessor e faz-tudo que movimentou quantias incompatíveis com seus rendimentos, permanece como um espectro insepulto a assombrar a narrativa de probidade do clã.
O caso Queiroz não foi um mero desvio de conduta administrativa, foi a porta de entrada para o submundo das relações perigosas da família Bolsonaro. A investigação revelou que a mãe e a esposa do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como chefe do grupo de extermínio “Escritório do Crime”, estiveram lotadas no gabinete de Flávio na Alerj. A intimidade com as milícias do Rio de Janeiro, grupos paramilitares que aterrorizam comunidades sob o pretexto de oferecer segurança, é uma mancha indelével na biografia do candidato. A prisão de Queiroz na casa do advogado da família, Frederick Wassef, coroou um enredo de compadrio e proteção mútua que desafia qualquer pretensão republicana.
A blindagem jurídica que salvou o Flávio Bolsonaro das garras da Justiça, através de decisões controversas de tribunais superiores que anularam provas cruciais, não apaga os fatos políticos. Apenas ilustra as fraturas do sistema de responsabilização brasileiro, onde o poder e a influência frequentemente superam as evidências. É munido dessa impunidade que Flávio ousa alçar voos mais altos, não ignorando o legado desastroso de seu pai, pelo contrário, surfando no próprio desastre, mas desta feita sem leite condensado e comendo com garfo e faca. Como lembrou a própria esposa, Fernanda, o “01” é o Bolsonaro vacinado. E é aí que mora o perigo. O Senador Flávio Bolsonaro sabe jogar o jogo e sabe cumprir os ritos do cargo. Vale dizer, ele é a “menina dos olhos” de um centrão e de uma extrema-direita que não vê a hora de entregar de vez o Brasil para a gringa, diga-se, para a sanha atroz do império americano de Donald Trump. E fará tudo isso com o devido tom de solenidade, como se fosse um grande nacionalista e libertador do Brasil.
Lembremos. O governo de Jair Bolsonaro foi um experimento de destruição institucional em larga escala. A gestão da pandemia de Covid-19, marcada pelo negacionismo científico e pela sabotagem de medidas de contenção, resultou em uma tragédia humanitária sem precedentes na história do país. O meio ambiente foi tratado como um estorvo, com o desmonte de órgãos de fiscalização e o avanço predatório sobre a Amazônia e os povos indígenas. A diplomacia brasileira, outrora respeitada, foi reduzida a um alinhamento ideológico tacanho e isolacionista, com Ernesto Araújo abraçado ao pútrido cadáver das ideias de Olavo de Carvalho.
Mas a obra máxima do bolsonarismo foi o ataque sistemático e metódico à nossa quase sempre mambembe democracia. Durante quatro anos, o país foi submetido a uma retórica golpista diária, com ameaças veladas e explícitas às instituições, em especial ao Supremo Tribunal Federal e ao sistema eleitoral. O ápice dessa razão autoritária materializou-se no dia 8 de janeiro de 2023, quando hordas de extremistas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. A intentona golpista, alimentada pela recusa em aceitar o resultado das urnas, foi o epílogo previsível de um projeto de poder que sempre flertou com a ruptura.
E Flávio Bolsonaro, o filho mais velho, supostamente mais “sério” e menos falastrão que os demais – agora repaginado como presidenciável – esteve ao lado do pai em cada passo dessa jornada de destruição. Sua candidatura é a continuidade do caos, é manter viva a bílis cruenta de um movimento que se nutre do ressentimento, da desinformação, da política da morte e do enfraquecimento do Estado de Direito. Aceitar a normalidade dessa postulação é condescender com o apagamento da História e validar a impunidade como método político. Não há desculpas que bastem. Com Flávio Bolsonaro no poder, adeus universidades, adeus imprensa “livre”, adeus toda forma aberta e democrática de manifestação. Mais do que o pai, Flávio sabe corroer as instituições democráticas com a mesma desfaçatez e “pantomima” de um Collor, mas sem o compromisso de negociar com as elites quatrocentonas de sempre. Uma vez no poder, algo muito pior e sombrio tomará de assalto a nossa tantas vezes triste e achincalhada nação.



