Por Cleber Lourenço
O senador Flávio Bolsonaro divulgou nesta terça-feira uma nota pública em que admite ter mantido relação financeira com o banqueiro Daniel Vorcaro para viabilizar o filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. Na manifestação, o parlamentar tenta enquadrar o episódio como uma relação exclusivamente privada e sem qualquer conexão com recursos públicos ou intermediação institucional.
A nota foi divulgada após a repercussão de mensagens e áudios revelados pelo Intercept Brasil mostrando Flávio cobrando parcelas milionárias para conclusão do filme e tratando Vorcaro com elevado grau de proximidade.
Horas antes da divulgação da nota, porém, Flávio Bolsonaro havia negado qualquer relação com Daniel Vorcaro ao ser questionado por jornalistas do Intercept Brasil durante entrevista coletiva após reunião com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin.
“De onde você tirou essa informação? É mentira”, respondeu o senador ao ser questionado sobre a relação com o controlador do Banco Master.
Posteriormente, na manifestação enviada à imprensa, o próprio senador reconheceu ter mantido relação financeira com o controlador do Banco Master para viabilizar o filme sobre Jair Bolsonaro.
“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos”, afirmou o senador.
Na sequência, Flávio sustenta que o caso envolvia apenas “patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, acrescentando que houve “zero de dinheiro público” e “zero de lei Rouanet”.
O senador também afirma que conheceu Daniel Vorcaro apenas em dezembro de 2024, “quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”.
A declaração, porém, ocorre em meio ao avanço de informações que mostram que o Banco Master já acumulava sinais de alerta ao longo de 2024, inclusive dentro de órgãos públicos e do sistema financeiro.
Na própria nota, Flávio não nega a relação com Vorcaro nem os pedidos de recursos para o filme. O senador também confirma que voltou a procurar o banqueiro após atrasos nos pagamentos necessários para a conclusão da produção.
“O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme”, escreveu.
Flávio ainda afirma que não ofereceu vantagens em troca do patrocínio e nega qualquer atuação institucional em favor do controlador do Banco Master.
“Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”, declarou.
A parte mais política da nota aparece no trecho em que o senador tenta deslocar o foco da crise para o governo Lula.
“Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do Master Já”, afirmou.
A estratégia do senador é tratar o episódio como uma negociação privada legítima para financiamento audiovisual, enquanto aliados do governo e parlamentares da oposição ao bolsonarismo tentam associar a proximidade entre Flávio e Vorcaro ao escândalo envolvendo o Banco Master.
Nos bastidores de Brasília, a avaliação é que a nota também funciona como uma tentativa de antecipar possíveis questionamentos sobre influência política, intermediação institucional e eventual contrapartida indireta na relação entre o senador e o banqueiro.
Banco Master já era alvo de alertas
Apesar da afirmação de Flávio Bolsonaro de que não existiam suspeitas públicas sobre Daniel Vorcaro no fim de 2024, o Banco Master já aparecia em reportagens econômicas, documentos públicos e debates do mercado financeiro relacionados a risco, liquidez e crescimento acelerado.
Um dos principais episódios ocorreu em julho de 2024, quando veio à tona a tentativa da Caixa Asset de comprar R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master.
A operação gerou crise interna na gestora da Caixa após questionamentos técnicos e denúncias encaminhadas ao Tribunal de Contas da União.
Documentos públicos ligados ao caso mostravam que técnicos classificaram a operação como “atípica” e “arriscada”, apontando preocupação com exposição elevada ao banco, prazo da operação e risco de solvência.
O episódio acabou se tornando um dos principais focos públicos envolvendo o Banco Master naquele ano e antecedeu a demissão de Pablo Sarmento da presidência da Caixa Asset, em novembro de 2024.
Ao longo de 2024, o mercado financeiro também passou a discutir o crescimento acelerado do banco, especialmente por meio da emissão de CDBs com remunerações elevadas.
Reportagens econômicas da época destacavam preocupações relacionadas à forte dependência de captação no varejo, ao ritmo de expansão do conglomerado e à exposição potencial do Fundo Garantidor de Créditos.
Em setembro de 2024, mudanças regulatórias do Banco Central envolvendo regras ligadas ao FGC chegaram a ser interpretadas pelo mercado como uma resposta indireta ao crescimento do Banco Master.
Posteriormente, reportagens também revelaram que o Banco Central já monitorava o banco ao longo de 2024, cobrando reforço de liquidez, revisão de práticas de governança e melhorias nos controles internos.
O balanço de 2024 do próprio Banco Master ainda mostrava provisões bilionárias para perdas e elevada exposição a direitos creditórios e precatórios, pontos tratados pela auditoria como temas centrais de atenção.
Embora a dimensão criminal e policial do caso só tenha ganhado força posteriormente, os episódios de 2024 já haviam colocado o Banco Master no centro de questionamentos públicos envolvendo sustentabilidade financeira, liquidez e governança.
Confira a íntegra da nota
Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet.
Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme.
Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do MASTER JÁ.



