27.3 C
Manaus
quarta-feira, 20 maio, 2026
InícioBrasilFlávio abandona fantasia moderada e encarna o Bolsonaro pai

Flávio abandona fantasia moderada e encarna o Bolsonaro pai

Date:


Por Cleber Lourenço

A coletiva convocada por Flávio Bolsonaro para tentar conter a crise envolvendo Daniel Vorcaro terminou produzindo o efeito oposto: desmontou de vez a tentativa de vender o senador como uma versão “moderada” do bolsonarismo para 2026.

Pressionado pelas revelações sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, Flávio reapareceu diante da imprensa reproduzindo exatamente o comportamento político do pai em momentos de crise: ataques à Polícia Federal, suspeitas sem provas contra investigadores, tentativa de transformar a investigação em perseguição política e esforço para arrastar Lula para dentro do escândalo.

O cenário da coletiva já dava o tom da estratégia adotada pelo senador. Após reunião com parlamentares do PL, Flávio avisou que faria apenas “comunicados” e não responderia perguntas da imprensa.

Na prática, a coletiva funcionou como uma operação de contenção de danos. Mas, ao tentar minimizar sua relação com Vorcaro, o senador acabou reforçando justamente o ponto mais delicado da crise: a dependência financeira do filme em relação ao dono do Banco Master.

Logo no início da fala, Flávio tentou apresentar Vorcaro como alguém “acima de qualquer suspeita”.

“Era uma pessoa que circulava em todas as rodas aqui em Brasília, em eventos com ministro do Supremo, alta roda de empresários”, afirmou.

O problema é que a própria coletiva desmontou essa tentativa de distanciamento.

Flávio admitiu que Vorcaro deixou de cumprir pagamentos ligados ao filme ainda em maio de 2025 e reconheceu que continuou cobrando respostas do banqueiro meses depois.

“Ele me dizia sempre que iria honrar com o contrato integralmente”, declarou.

Ou seja: segundo a própria versão apresentada pelo senador, já existiam sinais claros de problemas financeiros antes mesmo da prisão do ex-banqueiro.

Ainda assim, a relação permaneceu ativa.

O momento mais sensível ocorreu quando Flávio confirmou que esteve pessoalmente com Daniel Vorcaro depois da prisão do dono do Banco Master, quando ele já usava tornozeleira eletrônica e estava proibido de deixar São Paulo.

“Eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história”, afirmou.

Segundo o senador, o encontro teria servido para cobrar uma definição sobre o financiamento do filme e avisar que buscaria outros investidores.

A justificativa, porém, abriu novas dúvidas políticas e jurídicas.

Se a intenção era apenas encerrar uma relação comercial, Flávio não explicou por que precisou ir pessoalmente ao encontro de um banqueiro recém-preso, nem por que isso não foi tratado por advogados, ligação ou notificação formal.

O problema para o senador é que as informações já reveladas sobre o filme mostram que Vorcaro não era um investidor secundário dentro do projeto.

Reportagem publicada pelo Intercept Brasil revelou que Flávio negociou com o banqueiro um aporte de US$ 24 milhões para financiar Dark Horse. Segundo os documentos obtidos pela publicação, ao menos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — foram efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025.

Já reportagem publicada pelo g1 aprofundou ainda mais a dimensão financeira da relação entre o senador e o ex-banqueiro.

Segundo Karina Ferreira da Gama, dona da produtora GoUp, o orçamento executado até agora no filme gira em torno de US$ 13 milhões. O próprio Flávio já havia admitido anteriormente que Vorcaro colocou pouco mais de US$ 12 milhões no projeto.

Na prática, isso significa que mais de 90% do orçamento já executado do filme foi financiado por recursos ligados ao dono do Banco Master.

A informação desmonta diretamente a tentativa de Flávio de reduzir Vorcaro à condição de mero “intermediador”. O filme dependia quase integralmente do banqueiro.

Foi justamente nesse momento de fragilidade que Flávio tentou deslocar o foco do caso para Lula.

Durante a coletiva, o senador citou uma reportagem envolvendo Lula, Gabriel Galípolo e Daniel Vorcaro para sugerir proximidade entre o presidente da República e o ex-banqueiro.

“Foi a matéria no domingo que saiu (…) mostrando que o próprio presidente da República aconselhava o dono do Banco Master a não vender o seu banco”, afirmou.

Na sequência, elevou o tom:

“Você vê o envolvimento, aí sim, o envolvimento do próprio presidente da República, o Lula, praticamente aconselhando o presidente do Banco Master.”

A tentativa de comparação, porém, esbarra em um problema central.

Enquanto Flávio tenta colocar um suposto diálogo político de Lula no mesmo patamar da sua relação com Vorcaro, o caso do senador envolve diretamente o recebimento de recursos ligados ao banqueiro para financiar um projeto político sobre Jair Bolsonaro.

Não se tratava apenas de conversa institucional ou aproximação política. Flávio era tomador de dinheiro do ex-banqueiro para viabilizar o filme sobre o pai.

Outro trecho que evidenciou a guinada completa de Flávio ao estilo político do pai foi o ataque direto à Polícia Federal.

“Infelizmente, não está dando para contar 100% com a Polícia Federal, porque uma parte dela bastante aparelhada”, declarou.

Na sequência, para fugir dos questionamentos sobre Vorcaro, o senador passou a comentar a troca do delegado responsável por investigações relacionadas ao caso dos descontos indevidos do INSS e insinuou, sem provas, que o investigador poderia ter sofrido pressão ou ameaça.

“O delegado que quebrou o sigilo do Lulinha na investigação do roubo do INSS foi trocado na mão grande. Eu só não sei se ele foi ameaçado e saiu porque quis ou se foi obrigado a sair de lá de alguma outra forma”, afirmou.

A fala reproduz exatamente o padrão político consolidado pelo bolsonarismo nos últimos anos: levantar suspeitas graves contra instituições e investigadores sem apresentar qualquer elemento concreto que sustente as acusações.

No fim, a coletiva que deveria reduzir danos acabou reforçando justamente aquilo que aliados tentavam evitar.

Nos últimos meses, setores do PL trabalhavam para vender Flávio Bolsonaro como um nome mais pragmático e menos radicalizado do que Jair Bolsonaro.

Sob pressão, porém, o senador reagiu exatamente como o pai costuma reagir diante de crises: atacando investigadores, levantando suspeitas sem provas, tentando transformar investigações em perseguição política e evitando qualquer questionamento direto.

Ao tentar salvar a fantasia de moderado, Flávio terminou reaparecendo diante das câmeras como o herdeiro político mais fiel do bolsonarismo original.





ICL Notícias

spot_img
spot_img