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terça-feira, 24 março, 2026
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Filho, Neto, Júnior: como os mesmos sobrenomes dominam o poder no Brasil

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Por que o Brasil não renova sua política: sobrenomes, heranças e o custo do voto

A cada eleição, o discurso é o mesmo. A população está cansada dos políticos de sempre. O eleitor quer mudança. As redes sociais transbordam de candidatos que se apresentam como “nova política”, distantes do establishment, sem compromisso com o passado. E, no entanto, quando a apuração termina e os eleitos tomam posse, algo chama atenção: os sobrenomes.

Não os rostos. Os sobrenomes.

Existe uma diferença fundamental entre trocar quem governa e renovar como se governa. O Brasil tem feito, com regularidade, a primeira operação. A segunda, raramente. E isso é consequência de um sistema que, na prática, recompensa a continuidade e penaliza quem tenta entrar no jogo sem herança acumulada.

O voto que não renova

Quando um eleitor deposita seu voto, ele está, na maioria das vezes, tomando uma decisão com base em informações limitadas. Reconhecimento de nome, lembrança de gestão anterior, influência de lideranças locais. Não por ignorância, mas porque o custo de se informar profundamente sobre cada candidato é alto demais para a maioria das pessoas.

Esse mecanismo tem uma consequência direta: candidatos conhecidos levam vantagem desproporcional sobre candidatos novos. E no Brasil, “conhecido” muitas vezes quer dizer “da família de alguém que já governou”.

O eleitor que vota em João porque o pai de João foi bom prefeito não está sendo irracional. Está usando um atalho cognitivo legítimo. O problema é que esse atalho, multiplicado por milhões de votos e décadas de eleições, produz um resultado sistêmico: o poder tende a permanecer dentro de um número reduzido de famílias, enquanto a renovação real fica represada.

O mapa dos sobrenomes

Para entender a dimensão do fenômeno, basta percorrer os estados brasileiros com atenção aos nomes.

O Pará é governado por Helder Barbalho, filho do senador Jader Barbalho e irmão do ministro Jader Filho. Uma família, três postos simultâneos distribuídos entre executivo estadual, legislativo federal e ministério. Trata-se de arquitetura política construída ao longo de décadas.

Na Paraíba, os Cunha Lima acumularam passagens pelo governo do estado, pelo Senado, pela Câmara dos Deputados, pela Assembleia Legislativa e pelo Tribunal de Contas ao longo de pelo menos três gerações. Os Vital do Rêgo fizeram o mesmo percurso institucional: Assembleia, Câmara, Senado, TCU. Três gerações, quatro instituições, um estado.

No mesmo estado, Hugo Motta, atual presidente da Câmara dos Deputados, um dos postos de maior influência institucional do país, também carrega uma genealogia política densa. Pelo lado materno, é neto do ex-deputado federal Edvaldo Motta e da deputada estadual Francisca Gomes Araújo Motta. Pelo lado paterno, seu pai, Nabor Wanderley da Nóbrega Filho, foi deputado estadual e prefeito de Patos. Motta chegou à presidência da Câmara com menos de 40 anos. O que poderia ser lido como renovação geracional é, também, a expressão mais acabada do sistema: um jovem político que acumulou, antes mesmo de se candidatar pela primeira vez, o capital político de duas famílias com décadas de mandatos acumulados.

Hugo Motta e Arthur Lira, os presidentes da Câmara durante Lula 3
Crédito: Mário Agra/Câmara dos Deputados

Em Alagoas, Benedito de Lira transitou pela Assembleia, pela Câmara e pelo Senado. Seu filho Arthur Lira chegou à presidência da Câmara dos Deputados. No mesmo estado, Renan Calheiros, que presidiu o Senado por múltiplos mandatos, tem em Renan Filho um ministro e ex-governador. Duas famílias, dois cargos de cúpula, um estado inteiro partilhado entre os mesmos sobrenomes.

Fernando Collor chegou à presidência da República carregando um nome que já havia produzido um governador e um deputado federal antes dele. Em Minas Gerais, os Andrada e os Cardoso reproduzem o padrão. No Distrito Federal, Roriz Neto representa a terceira geração de uma família que moldou a política local desde que Joaquim Roriz dominava o cenário candango.

Filhotismo: quando a herança vira estratégia

Fenômeno nomeado inicialmente por Antônio Augusto de Queiroz, é a prática de transferir, dentro de uma mesma família, o capital político acumulado ao longo de gerações. Mandatos, bases eleitorais, redes de aliados, acesso a financiadores, influência sobre a máquina pública. Nada disso é formal. Nenhuma lei garante que o filho de um senador terá mais votos do que um candidato sem tradição familiar.

Construir uma base eleitoral do zero exige tempo, dinheiro, visibilidade e capilaridade em municípios pequenos. O filho de um político experiente começa com tudo isso já pronto. O nome é reconhecido. A rede de aliados está formada. Os financiadores já confiaram no pai. Os eleitores associam o sobrenome à ideia de governo. A vantagem competitiva é tão acentuada que candidatos sem herança raramente conseguem chegar aos cargos de maior relevância.

Quando uma família ocupa simultaneamente o governo estadual, o Senado e um ministério, ela está controlando fluxos de recursos, indicações de cargos, concessões e acesso à agenda federal. Qualquer candidato que tente disputar espaço dentro desse estado enfrentará uma estrutura de poder que atravessa todos os níveis da administração pública.

O resultado prático é que a renovação política no Brasil tende a ser superficial. Os rostos mudam. As agendas, não.

A eleição presidencial como espelho

O que acontece nos estados chega, com naturalidade, ao centro da política nacional. A eleição presidencial de 2026 deve expressar, com nitidez, essa mesma dificuldade de renovação.

Do lado da esquerda, Lula segue como o eixo gravitacional em torno do qual toda a construção política se organiza. Passadas décadas de protagonismo e três mandatos presidenciais, o PT ainda não produziu um sucessor com visibilidade e viabilidade equivalentes. A renovação dentro do campo esbarra na ausência de uma liderança alternativa com capital eleitoral suficiente para disputar fora da sombra do presidente.

Do lado da direita, Flávio Bolsonaro ocupa cada vez mais o papel de principal herdeiro político do pai. Ao redor dele, os irmãos mantêm mandatos que funcionam como base de sustentação e amplificação da franquia familiar.

Dois campos que somados reúnem a maioria do eleitorado brasileiro. O mesmo problema nos dois: dificuldade de produzir lideranças que não dependam de um nome já consagrado.

O filhotismo é uma consequência previsível de um sistema que recompensa a acumulação de capital político no tempo e pune a renovação institucional. Enquanto as regras do jogo continuarem produzindo esses incentivos, Filho, Neto e Júnior continuarão sendo os títulos mais rentáveis da democracia brasileira.

A questão, no fundo, é de design. E o eleitor que acredita estar escolhendo o rosto novo pode estar, sem perceber, perpetuando o mesmo modelo político.





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