Por Patrícia Calderón
(Folhapress) – Uma hora de agressões físicas e psicológicas. Tapas na cara, arma na boca, chutes e puxões de cabelo. É o que relata ter passado uma jovem de 19 anos, acusada de furto de um anel por uma empresária para quem trabalhava como empregada doméstica. Os maus-tratos teriam ocorrido em 16 de abril, na região metropolitana de São Luís, no Maranhão.
A suspeita está presa e deve prestar depoimento nesta sexta.
O caso repercutiu depois que áudios que seriam da própria suspeita, contando os detalhes da agressão, vazaram em grupos de WhatsApp. A vítima narrou à reportagem como teria sido coagida por Carolina Sthela Ferreira dos Anjos a admitir o furto da joia. Segundo a investigação, a empresária teria chamado um amigo policial para juntos participarem dos atos de violência e intimidação.
“Quando estava caída no chão, o policial colocou a arma na minha boca. Fiz de tudo pra defender a minha barriga”, afirma a jovem, grávida de cinco meses.
A defesa de Carolina admite a agressão, mas afirma que “nos áudios ela acaba falando coisas que ela não fez”.
Segundo a vítima, o crime aconteceu no 15º dia de trabalho, e a doméstica receberia R$ 1.500 no final de 30 dias. Depois do ocorrido, Carolina fez o distrato de trabalho com a funcionária e pagou a metade do combinado.
“Ela fez isso pra me incriminar e não pagar pelo serviço”, afirma.
A jovem relata, ainda, que trabalhava numa jornada exaustiva de dez horas por dia, de segunda a sábado, com apenas meia hora de pausa.
“Tô passada e muito dolorida. Estava precisando do trabalho, tive que aceitar o serviço pesado, mesmo no meio de uma gestação sensível”, conta.
Enquanto obrigavam a doméstica a devolver o objeto desaparecido, relata, os agressores a ameaçavam de morte.
“O policial, amigo dela, deu uma coronhada na minha cabeça, apontou a arma pra mim e disse que ia dar um tiro na minha perna. Ele me jogou no chão e colocou a arma na minha boca. Eles insistiam que eu deveria devolver o anel, me chamaram de vagabunda e mau caráter. Eu não peguei esse anel, ele estava jogado num cesto de roupas sujas. Eu abri todas as minhas bolsas e provei que não roubei nada”, afirma.
Empresária já foi condenada por calunia contra babá
A empresária foi presa na madrugada desta quinta-feira (7), no Piauí. Segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública) do estado, Carolina estava hospedada na casa de um parente em Teresina e foi capturada no momento em que abastecia o carro para fugir da cidade. A defesa nega a intenção de fuga.
A advogada Nathaly Moraes afirmou que Carolina teria levado o filho de seis anos para o Piauí a fim de que a criança ficasse com familiares em segurança.
A defensora também disse que sua cliente não alega inocência.
“Ela admite lesão corporal, mas não tortura. E nos áudios ela acaba falando coisas que ela não fez. É a postura, o comportamento dela ser assim”, afirmou.
Ela e o marido foram condenados a dois anos e oito meses de reclusão por furto qualificado mediante fraude. O casal cumpriu pena em regime aberto com prestação de serviços à comunidade e limitação de fim de semana.
A reportagem teve acesso a documentos que apontam que Carolina já teve mais de dez processos contra ela. Entre as denúncias estão calúnia, por acusar falsamente uma babá de furtar uma pulseira de ouro dela. A vítima ganhou na Justiça o direito de receber R$ 4.000 em danos morais.
O delegado responsável pelo caso de tortura, Walter Wanderley Silva, afirma que a suspeita deve prestar depoimento nesta sexta (8).
O policial citado nas denúncias também foi preso em São Luís. Segundo a PM, ele responde a procedimento instaurado pela Corregedoria da corporação para apuração de sua conduta e responsabilidade no caso.
“O policial militar confessou a prática das agressões e que estava no momento dos maus-tratos junto de Carolina”, afirma o delegado.



