Por Cleber Lourenço
Relatórios encaminhados pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal mostram que, enquanto o banqueiro Daniel Vorcaro tentava convencer as autoridades a aceitar sua primeira proposta de colaboração premiada, familiares de Felipe Mourão, conhecido como ‘Sicário’, passaram a pressionar Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro, por pagamentos que consideravam devidos após a morte do operador.
Segundo as investigações, ‘Sicário’ seria o homem encarregado por Vorcaro para praticar ameaças e ações violentas contra desafetos.
“Acabo com a delação do filho, do cunhado e ainda jogo ele atrás das grades também.” A frase, enviada por Joana Machado de Moraes Mourão, irmã de Felipe Mourão — conhecido nos autos da Operação Compliance Zero pelo codinome “Sicário” — tornou-se um dos pontos de maior atenção para a Polícia Federal durante uma das fases mais delicadas da investigação que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro.
Ao mesmo tempo, os parentes de “Sicário” afirmavam possuir acesso a arquivos armazenados na conta iCloud utilizada por Mourão e ameaçavam divulgar informações que, segundo eles, poderiam atingir diretamente integrantes da família Vorcaro e pessoas ligadas ao grupo investigado.
Os episódios aparecem em relatórios produzidos pela Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores da Polícia Federal, em análises de aparelhos celulares apreendidos durante a Operação Compliance Zero, em relatórios de extração telemática e em representações encaminhadas ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.

A documentação analisada pelo ICL Notícias revela uma sequência de mensagens, reuniões presenciais, cobranças financeiras, negociações patrimoniais e ameaças que se estenderam entre março e maio de 2026 — exatamente no período em que Daniel Vorcaro buscava construir sua primeira tentativa de acordo de colaboração com as autoridades.
Para os investigadores, os acontecimentos ajudam a compreender a preocupação demonstrada por integrantes do grupo diante da possibilidade de que familiares de Felipe Mourão tivessem acesso a informações consideradas extremamente sensíveis para a investigação.

Quem era Felipe Mourão, o “Sicário”
Embora apareça em diferentes momentos dos relatórios da Operação Compliance Zero, Felipe Mourão ocupa uma posição particularmente relevante na narrativa construída pela Polícia Federal.
Segundo os investigadores, ele atuava como um dos operadores mais próximos da estrutura investigada, mantendo interlocução com Daniel Vorcaro e com integrantes dos núcleos conhecidos como “A Turma” e “Os Meninos”.
A PF sustenta que esses grupos desempenhavam funções estratégicas dentro da organização investigada, incluindo monitoramento de alvos, obtenção de informações sigilosas, articulação operacional e execução de tarefas consideradas sensíveis.
Por essa razão, qualquer conteúdo armazenado em seus celulares, computadores, contas digitais ou serviços de armazenamento em nuvem passou a ser visto pelos investigadores como potencial fonte de provas.
A morte de Mourão, portanto, não o excluiu da investigação. Pelo contrário.
Os relatórios mostram que o acesso posterior de familiares aos arquivos digitais deixados por ele passou a gerar preocupação entre pessoas ligadas ao grupo investigado.
“Ela passou a noite em claro abrindo o iCloud dele.”
A primeira referência explícita a essa preocupação aparece em uma conversa registrada pela Polícia Federal em 11 de março.
Naquele dia, Keysom Lúcio Silveira Moreira envia uma mensagem a Manoel Mendes Rodrigues relatando que Joana Mourão havia passado horas acessando os arquivos armazenados na conta iCloud utilizada pelo irmão.
A mensagem reproduzida nos relatórios é curta, mas considerada significativa pelos investigadores.
“Ela passou a noite em claro abrindo o iCloud dele e aí viu coisa demais aí.”
A frase passou a ser tratada pela PF como um indicativo de que familiares de Mourão poderiam ter encontrado documentos, mensagens, registros financeiros, fotografias, contatos ou outros conteúdos potencialmente relevantes para a investigação.
Embora os relatórios não detalhem exatamente quais arquivos teriam sido acessados, os investigadores destacam que a simples percepção de que Joana havia encontrado informações relevantes provocou preocupação entre pessoas ligadas ao grupo.
A partir daquele momento, seu nome passa a aparecer repetidamente nas comunicações monitoradas pela investigação.
O início das cobranças
Poucas semanas depois do acesso aos arquivos, as conversas passam a girar em torno de questões financeiras.
Segundo os documentos analisados pelo ICL Notícias, Joana começa a reclamar da falta de retorno de Henrique Moura Vorcaro.
Em mensagens reproduzidas pela Polícia Federal, ela demonstra crescente insatisfação com a ausência de respostas.
“Henrique não me responde.”
Na sequência, detalha dificuldades financeiras que enfrentava naquele momento.
“Em 5 dias bate 40.000 de financiamento na minha conta.”
“Em 18 dias tem a prestação da casa.”
“Estou desesperada já.”
As mensagens foram encaminhadas a Manoel Mendes Rodrigues, apontado pela investigação como integrante da estrutura investigada.
Nesse estágio, os diálogos ainda parecem concentrados em cobranças financeiras relacionadas à morte de Felipe Mourão e a compromissos que a família acreditava ter direito de receber.
Mas os acontecimentos evoluiriam rapidamente para um cenário muito mais delicado.
A ameaça que chamou atenção da Polícia Federal
Em 26 de abril, Joana envia uma sequência de mensagens que passaria a ocupar posição central nos relatórios produzidos pela Polícia Federal.
Primeiro, volta a reclamar da ausência de pagamentos.
“HV não se manifesta com nada $.”
Logo depois, faz uma ameaça que os investigadores consideraram especialmente relevante.
“Acabo com a delação do filho, do cunhado e ainda jogo ele atrás das grades também.”
A mensagem é seguida por outra declaração ainda mais contundente.
“Tenho material para acabar com a família inteira.”
Para os investigadores, as frases sugerem que Joana acreditava possuir informações capazes de atingir diretamente integrantes da família Vorcaro.
Os relatórios não afirmam categoricamente quais documentos ou arquivos fundamentariam essa convicção. No entanto, a Polícia Federal relaciona as ameaças ao acesso que ela dizia ter obtido aos conteúdos armazenados por Felipe Mourão.
O contexto temporal também chamou atenção dos investigadores.
As mensagens foram enviadas justamente quando Daniel Vorcaro tentava negociar sua primeira proposta de colaboração premiada.
Embora a PF não afirme que as ameaças integravam formalmente as negociações da delação, os investigadores destacam que os episódios ocorreram simultaneamente e envolviam pessoas diretamente ligadas ao núcleo central da investigação.
A viagem para Belo Horizonte
Dois dias após as ameaças, ocorre um movimento considerado relevante pela Polícia Federal.
Segundo os relatórios, Manoel Mendes Rodrigues viajou para Belo Horizonte para se reunir com familiares de Felipe Mourão.
Os investigadores identificaram pelo menos dois encontros realizados em 28 de abril.
Durante as reuniões, Manoel mantinha interlocutores atualizados sobre o andamento das conversas.
Em uma das mensagens reproduzidas pela PF, ele informa:
“Tô com a irmã do amigo aqui.”
A resposta recebida demonstra que o tema financeiro continuava em discussão.
“Cobrei HV.”
“Disse que até quinta.”
Mais tarde, Manoel comunica que também estava reunido com a mãe de Felipe Mourão.
“Estamos conversando com a mãe aqui.”
Na sequência, descreve o assunto tratado.
“Vamos passar os contratos dos ativos pertinentes ao nosso amigo, no nome dela mãe, para resolver a questão.”
Para a Polícia Federal, a conversa sugere que havia uma tentativa de construir uma solução patrimonial para as reivindicações apresentadas pela família de Mourão.
Os investigadores destacam que a referência à transferência de contratos e ativos demonstra que as negociações ultrapassavam simples conversas informais e envolviam discussões concretas sobre patrimônio e direitos atribuídos ao operador falecido.
Uma aparente pacificação
Após os encontros em Belo Horizonte, os diálogos indicam uma breve redução das tensões.
Joana envia uma mensagem de agradecimento.
“Obrigada por tudo! A você e ao André.”
Em seguida, acrescenta uma frase que sugere o desgaste emocional provocado pelos acontecimentos.
“Que Deus possa me trazer sabedoria para arrancar esse ódio do meu coração.”
Para os investigadores, a mensagem indicava que algum tipo de entendimento poderia estar sendo construído.
Mas a trégua duraria pouco.
“Vou colocar tudo no Fantástico.”
Menos de duas semanas depois, as ameaças reaparecem.
Em 7 de maio, Joana volta a mencionar Henrique Vorcaro em tom agressivo.
“Já foi o filho, o genro, hoje o sobrinho. No que depender de mim HV será o próximo.”
Logo depois, afirma que pretende divulgar publicamente as informações que diz possuir.
“Domingo já coloco tudo no Fantástico e no Cabrini dessa família maldita!!!”
A declaração passou a ser destacada pela Polícia Federal como mais um indicativo de que a irmã de Felipe Mourão acreditava ter acesso a informações potencialmente comprometedoras.
Os investigadores observam que, mesmo após reuniões, negociações e discussões sobre contratos e ativos, permanecia ativa a ameaça de exposição pública de conteúdos atribuídos aos arquivos deixados por Mourão.
O temor em torno dos arquivos digitais
Nos bastidores da investigação, o acesso ao iCloud de Felipe Mourão passou a ser tratado como um elemento particularmente sensível.
A razão é simples.
Segundo a narrativa construída pela Polícia Federal, Mourão ocupava posição estratégica dentro da estrutura investigada.
Caso tivesse armazenado registros de conversas, documentos financeiros, fotografias, contatos, planilhas, comprovantes ou mensagens trocadas com integrantes do grupo, esses materiais poderiam representar uma fonte relevante de informação para investigadores ou para eventuais colaboradores.
Os relatórios não detalham quais conteúdos efetivamente foram encontrados por Joana.
Também não há indicação de que os arquivos tenham sido entregues formalmente às autoridades.
Ainda assim, a percepção de que familiares do operador poderiam ter acesso a esse material aparece repetidamente nas comunicações analisadas pela PF.

O contexto da delação de Daniel Vorcaro
Todos esses acontecimentos ocorreram durante um momento particularmente delicado para Daniel Vorcaro, que apresentava às autoridades uma primeira proposta de colaboração premiada, que acabou rejeitada.
Na ocasião, os investigadores entenderam que o material oferecido não apresentava elementos efetivamente novos para o avanço das apurações.
Além disso, a proposta não teria contemplado compromissos considerados relevantes para a recuperação dos recursos investigados.
Foi justamente nesse período de negociações frustradas que surgiram as cobranças da família de Felipe Mourão, as discussões sobre pagamentos, as reuniões em Belo Horizonte e as ameaças relacionadas aos arquivos armazenados no iCloud do operador.
O que concluiu a Polícia Federal
Nos relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal sustenta que os elementos reunidos apontam para uma preocupação crescente de integrantes do grupo investigado com a possibilidade de familiares de Felipe Mourão colaborarem com as autoridades ou divulgarem informações consideradas sensíveis.
A avaliação dos investigadores é que tanto Joana quanto a mãe de Mourão passaram a ser vistas como potenciais fontes de informação após o acesso ao conteúdo digital deixado pelo operador.
Os documentos destacam que as cobranças financeiras, as discussões sobre contratos, os encontros presenciais e as ameaças de exposição ocorreram simultaneamente às tratativas de colaboração conduzidas por Daniel Vorcaro.
Para a PF, o conjunto dos episódios revela um ambiente de tensão crescente nos bastidores da investigação, marcado por disputas financeiras, tentativas de acomodação de interesses e pelo temor de que informações armazenadas por um dos principais operadores da estrutura investigada viessem a público.
É nesse contexto que os investigadores passaram a tratar as movimentações envolvendo a família de Felipe Mourão como um dos capítulos mais sensíveis e potencialmente explosivos surgidos ao longo da Operação Compliance Zero.



