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terça-feira, 10 fevereiro, 2026
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Falsa médica é condenada no Amazonas após usar carimbo furtado para atender crianças com cardiopatia

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O Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) condenou a educadora física Sophia Livas de Morais Almeida, de 32 anos, pelo crime de exercício ilegal da medicina. Presa desde maio deste ano, ela ficou conhecida por se apresentar como médica especialista em cardiopatia infantil, manter um podcast sobre o tema e utilizar o carimbo e o registro profissional de uma residente em medicina para realizar atendimentos ilegais em Manaus. A decisão judicial foi divulgada nesta segunda-feira (22), mas o tempo total da pena não foi informado.

Segundo a sentença, Sophia deverá cumprir a pena em regime semiaberto. Como já se encontra presa desde o início do ano, a Justiça determinou a substituição da prisão por medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica, a restrição ao perímetro urbano de Manaus, a proibição de contato com vítimas e familiares — mantendo distância mínima de 500 metros —, além da impossibilidade de deixar a comarca sem autorização judicial.

A decisão do TJAM também reconheceu a prática de outros crimes previstos no Código Penal Brasileiro, como perigo para a vida ou saúde de outrem, comunicação falsa de crime ou contravenção e estelionato. Até a última atualização desta reportagem, a defesa de Sophia Livas não havia sido localizada para comentar a condenação.

Esquema envolvia uso indevido de carimbo médico

As investigações conduzidas pela Polícia Civil do Amazonas apontaram que Sophia furtou, dentro do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), o carimbo de uma médica residente que compartilhava o mesmo primeiro nome. De posse do carimbo e do número de registro profissional no Conselho Regional de Medicina (CRM), ela passou a realizar consultas de forma independente, se passando por médica especialista em cardiopatia infantil.

De acordo com o delegado Cícero Túlio, responsável pelo caso, Sophia conseguiu se infiltrar em ambientes frequentados por profissionais da área da saúde e conquistar a confiança de médicos experientes. “Ela acabou se infiltrando em uma comunidade de médicos que faziam parte de um grupo de pós-graduação. Ganhou a confiança desses profissionais, fazendo com que acreditassem que ela era médica. A partir de então, foi convidada a integrar um programa de assistência e acompanhamento de crianças com cardiopatia grave”, afirmou o delegado.

Prestígio falso nas redes sociais

Antes de ser presa, Sophia Livas utilizava intensamente as redes sociais para construir uma imagem de prestígio profissional. Ela se apresentava como médica, divulgava supostos projetos científicos e mantinha um podcast voltado à área da saúde, especialmente sobre doenças cardíacas em crianças.

Em uma das publicações, a falsa médica aparece atendendo um paciente e comemorando um “importante avanço na ciência”. Na legenda, afirma: “Hoje iniciamos as coletas do projeto Renomica Brasil, que investiga, por meios genéticos, doenças cardiovasculares hereditárias ou não”.

Após a deflagração da operação policial que desmascarou o esquema, todos os perfis de Sophia na internet foram apagados.

Falsa relação com o prefeito de Manaus

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a tentativa de Sophia de associar sua imagem a figuras públicas. Nas redes sociais, ela afirmava ser sobrinha do prefeito de Manaus, David Almeida, o que, segundo a Secretaria Municipal de Comunicação, não é verdade.

Em nota oficial, a prefeitura esclareceu que o prefeito não possui qualquer parentesco com Sophia Livas. Além disso, imagens utilizadas por ela para reforçar a falsa proximidade também foram desmentidas. Uma foto publicada pela educadora física, em que aparece uma criança ao lado do prefeito, foi apresentada por ela como se fosse sua própria filha. Na realidade, a criança é Fernanda Aryel, filha de David Almeida.

Outra imagem divulgada por Sophia ao lado do prefeito tratava-se apenas de uma selfie tirada em local público, situação comum quando o gestor é abordado por populares para fotografias.

Hospital universitário nega atuação como médica

Em nota, o Hospital Universitário Getúlio Vargas informou que Sophia Livas nunca atuou como médica na unidade e que não há registros de atendimentos realizados por ela no hospital. A instituição explicou ainda que Sophia foi aluna de mestrado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), na condição de educadora física, mas que, após a conclusão do curso, não manteve qualquer vínculo com o hospital universitário.

A Polícia Civil destacou que o furto do carimbo ocorreu no ambiente hospitalar, mas que isso não significa que Sophia tenha atuado formalmente na unidade como médica.

Contradições entre depoimento e redes sociais

Durante depoimento na delegacia, Sophia negou ser médica. No entanto, as investigações reuniram uma série de provas que contradizem essa versão, especialmente as publicações feitas por ela nas redes sociais, nas quais se apresentava como profissional da medicina, especialista em cardiopatia infantil e pesquisadora vinculada a instituições renomadas.

Para a polícia, ficou caracterizada a intenção de induzir pacientes e familiares ao erro, obtendo vantagens financeiras e prestígio social a partir da falsa condição profissional.

Currículo acadêmico com informações falsas

Outro elemento central do inquérito foi a análise do currículo acadêmico de Sophia Livas, publicado na plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No documento, ela afirmava ser especialista em Saúde Coletiva pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), além de ter concluído cursos de extensão em doenças tropicais pela própria Fiocruz, em saúde pública pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Unidade de Saúde Pública Arnaldo Sampaio (UPAS), em Portugal.

Sophia também se apresentava como pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além de destacar atuação como professora voluntária na graduação da Ufam e na pós-graduação da Escola Superior Batista do Amazonas (Esbam).

As investigações, no entanto, revelaram que a formação real de Sophia se resume a um bacharelado em Educação Física pela Ufam, concluído em março de 2022, e a um mestrado em Ciências da Saúde pela mesma instituição. Todas as demais informações acadêmicas e profissionais listadas no currículo Lattes foram consideradas falsas.

Instituições desmentem vínculos

Em nota oficial, a Universidade de São Paulo confirmou que Sophia Livas nunca foi matriculada na instituição. A USP esclareceu ainda que o curso de extensão que ela alegava ter feito em 2020 foi cancelado, não havendo qualquer certificação emitida em seu nome.

Já a Escola Superior Batista do Amazonas informou que Sophia atuou apenas como professora convidada, ministrando dois módulos isolados em cursos de pós-graduação. A instituição explicou que a atuação ocorreu com base na formação apresentada por ela em Educação Física, especialização em Saúde Coletiva e mestrado em Ciências da Saúde.

Segundo a Esbam, a documentação entregue foi analisada e aprovada pela coordenação acadêmica, sem indícios de irregularidades à época. A escola ressaltou que não houve vínculo empregatício nem integração de Sophia ao corpo docente permanente e que os conteúdos ministrados não estavam relacionados à área médica.

Crimes reconhecidos pela Justiça

Na sentença, o TJAM reconheceu a prática dos seguintes crimes:

Exercício ilegal da medicina (art. 282 do Código Penal);

Perigo para a vida ou saúde de outrem (art. 132);

Comunicação falsa de crime ou contravenção (art. 340);

Estelionato (art. 171).

Para a Justiça, a conduta de Sophia colocou em risco pacientes vulneráveis, especialmente crianças com cardiopatias, além de causar prejuízos morais e materiais às vítimas e às instituições envolvidas.

Caso reforça alerta sobre falsos profissionais

O caso de Sophia Livas reacende o debate sobre a importância da verificação de credenciais profissionais, especialmente na área da saúde, onde o exercício ilegal pode trazer consequências graves e irreversíveis. As autoridades reforçam que pacientes e familiares devem sempre confirmar registros profissionais junto aos conselhos competentes antes de iniciar qualquer tratamento.

A Polícia Civil do Amazonas informou que o inquérito foi concluído com base em provas documentais, testemunhais e digitais, incluindo registros de atendimentos, publicações em redes sociais e informações acadêmicas falsas.

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