Os movimentos de extrema direita fazem uma campanha internacional contra a candidata apoiada pelo Brasil para liderar a ONU, Michele Bachelet. A ex-presidente do Chile ficou seu o apoio de seu próprio país depois que o extremista José Antonio Kast venceu a eleição em Santiago. Mas Brasil e México optaram por manter seu nome no pleito e buscar votos.
Nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a falar sobre a candidatura de Bachelet com Vladimir Putin. O apoio logístico dado pelo Brasil ainda tem garantido que a chilena seja recebida por líderes em todo o mundo.
Para ser eleita, porém, ela precisa do voto da maioria dos governos no Conselho de Segurança. Mas, acima de tudo, que nenhum país apresente um veto. Hoje, seis nomes concorrem ao cargo máximo da ONU e a expectativa era de que, pela primeira vez na história, uma mulher possa ser eleita.
Com uma definição podendo começar a ganhar forma já no final de agosto, a campanha de movimentos ultraconservadores ganha força contra a chilena apoiada pelo Brasil.
Nos últimos dias, a entidade CitizenGo passou a divulgar nas redes sociais ataques contra Bachelet, misturando atos de seu governo com desinformação. Segundo o grupo, ela teria uma “agenda radical” que ameaça “instrumentalizar o direito internacional contra a família, vida e liberdade”.
Numa operação de fakenews, o grupo reacionário diz que uma eventual vitória de Bachelet significaria que ela iria “perseguir igrejas, escolas e pais”.
Na lista de “acusações”, o grupo insiste que ela defende o aborto como direitos humanos, ideologia de gênero e que tenta “minar a unidade familiar”.
Numa das campanhas, o rosto de Bachelet foi colocado na entrada da ONU, com uma bandeira do movimento LGBT nas mãos. A operação ainda pediu que a opinião pública reaja contra uma “feminista radical”.
Na ONU, não é a pessoa que ocupa a secretaria-geral quem define políticas ou ações. As medidas vêm de resoluções aprovadas e propostas pelos governos.
A orquestração é nítida. Uma petição contra Bachelet foi lançada, enquanto o grupo realiza lives nas redes sociais e publicidade. Num dos eventos online do movimento, o ativista reacionário Chris Elston acusa a chilena de ter defendido educação sexual para crianças de quatro anos, repetindo a narrativa que bolsonaristas usaram no Brasil contra movimentos progressistas.“Temos que conseguir a pessoa mais conservadora possível (para o cargo da ONU”, defendeu.
Na página brasileira do CitizenGo, a campanha ataca o governo Lula. “Bachelet não representa as aspirações do povo brasileiro”, diz uma das postagens.
Nas redes sociais, a mesma entidade faz campanhas contra brinquedos da Lego, banheiro unissex e defendeu uma “Copa do Mundo sem ativismo”.
Mas a CitizenGo também aparece ao lado de bandeiras do bolsonarismo e que vão muito além da defensa das pautas tradicionais. Numa das postagens, o grupo declara apoio à CPMI do Banco Master, antes das revelações sobre a ligação entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.
O deputado Carlos Jordy ainda aparece dizendo que a GitizenGo faz um “trabalho essencial para pautas tão essenciais para o nosso país”.
O mesmo grupo bancou campanha contra Alexandre de Moraes, defendeu o deputado Nikolas Ferreira contra uma suporta “perseguição”, e supostos ataques ao deputado Marcel van Hattem.
A entidade não é nova, Com mais de uma década de trabalho, ela vem atuando nos bastidores por uma agenda ultraconservadora e até mesmo treinando ativistas no Brasil, conforme revelou em 2019 o site The Intercept.
Mais recentemente, a CitizenGo se aliou ao Instituto Isabel para fazer um ato contra a indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Representantes do ato também visitaram os gabinetes de mais de 40 senadores, denunciando a “posição abortista” de Messias.



