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Em um gesto interpretado como retaliação direta ao Brasil, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, afetando principalmente setores do agronegócio e da indústria. A justificativa oficial do republicano seria um suposto prejuízo comercial dos EUA com o Brasil, o que os dados não confirmam. Para o professor da ESPM Leonardo Trevisan, porém, o alvo verdadeiro está além das fronteiras brasileiras — e atende pelo nome de China.
“A China é o terceiro coelho que o Trump tenta matar com uma cajadada só”, afirma o cientista político, em entrevista ao videocast ICL Em Detalhes, nesta segunda-feira (14). Segundo ele, além de acenar à sua base ideológica e incomodar o governo Lula, Trump quer dar um recado direto ao avanço chinês na América Latina.
A movimentação ocorre em meio a um cenário de reconfiguração geopolítica. A China, que integra o Brics ao lado do Brasil, tem intensificado sua presença na região por meio de investimentos estratégicos. Um exemplo simbólico é o porto de Chancay, no Peru, modernizado com mais de US$ 3 bilhões e capaz de receber superpetroleiros e grandes navios de contêineres. “Esse porto reduz em até 17 dias o trajeto até a Ásia. É um marco logístico que muda as rotas do comércio global”, destaca Trevisan.
Ele lembra que a China já constrói conexões logísticas que cortam a América do Sul de leste a oeste. “A ferrovia bioceânica que liga Ilhéus [BA] a Goiás é só o começo. Os chineses estão dispostos até a furar os Andes, e têm tecnologia pra isso”, diz o professor. Segundo ele, a China “não está apenas fazendo comércio”, mas estabelecendo uma presença hegemônica na região.
Resposta da China ao tarifaço foi contundente
Apesar do barulho diplomático, a resposta chinesa ao tarifaço foi pontual e contundente no caso brasileiro. O governo de Xi Jinping, que raramente se manifesta publicamente nesses casos, declarou por meio de sua chancelaria que as tarifas são uma forma de intimidação e interferência em assuntos internos do Brasil. “A China nunca fala. Desta vez, falou. Isso mostra que o alerta soou forte em Pequim”, analisa Trevisan.
A posição cautelosa de setores tradicionalmente alinhados à direita, como a Federação da Agricultura, também chama atenção. “Eles não saíram correndo para defender o Bolsonaro. Estão de olho no mercado asiático, que é promissor. Ideologia pesa menos que a conta bancária”, diz o professor.
Mudança na postura de Tarcísio
A mudança de tom também foi observada no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que inicialmente endossou a narrativa trumpista, mas recuou após críticas e tentou dialogar diretamente com a diplomacia norte-americana, inclusive passando por cima do governo Lula. O estado é um dos mais afetados pelas tarifas, e a China já figura como seu maior parceiro comercial.
“A energia elétrica que usamos agora, aqui em São Paulo, é distribuída por uma empresa chinesa. A presença da China está espraiada no Brasil inteiro, não é teoria da conspiração. É fato”, afirma Trevisan.
Para o professor, o movimento de Trump ecoa sua estratégia clássica de criar múltiplas crises ao mesmo tempo. “É o conselho do Steve Bannon: jogue várias bombas no mesmo dia. A mídia vai se ocupar com isso, e você segue seu curso”, diz.
O tiro, no entanto, pode sair pela culatra. Casos anteriores, como os do Canadá, México e Austrália, mostraram que o nacionalismo local pode virar contra os interesses dos EUA. “Não é crime, é erro — e dos grandes”, sentencia Trevisan.
Veja no vídeo abaixo a entrevista completa de Leonardo Trevisan:




