Por Cleber Lourenço
O Comando do Exército prorrogou em janeiro de 2025, por mais dois anos, o contrato que permitia ao Banco Master operar empréstimos consignados para militares e pensionistas da Força. O novo prazo de vigência ia até janeiro de 2027, mas o vínculo acabou rescindido unilateralmente apenas dez meses depois, após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da instituição financeira.
Documentos obtidos pelo ICL Notícias mostram que o termo aditivo foi assinado em 15 de janeiro de 2025 e publicado no Diário Oficial da União em março daquele ano. O texto previa a “prorrogação de vigência do contrato de credenciamento por mais 02 (dois) anos” para prestação de serviços de empréstimo consignado aos militares e pensionistas vinculados ao Comando do Exército.
A renovação ocorreu em um momento em que o Banco Master já acumulava sinais públicos de alerta no mercado financeiro.
Em outubro de 2024, uma reportagem da revista piauí já descrevia a estratégia de crescimento acelerado da instituição e classificou os negócios conduzidos pelo banco como operações de risco. Na mesma época, análises do mercado financeiro passaram a chamar atenção para os CDBs emitidos pelo Banco Master com remuneração muito acima da média praticada pelo setor bancário.
Meses depois, o próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou publicamente que a autoridade monetária já havia identificado problemas de liquidez e dificuldades de captação no Banco Master ainda em novembro de 2024, período anterior à renovação do contrato assinada pelo Exército.
O contrato do Banco Master estava vinculado ao Edital de Credenciamento nº 001/2022 da Secretaria de Economia e Finanças do Exército, responsável por estabelecer os critérios para habilitação de instituições financeiras interessadas em operar consignados dentro da Força.
O edital previa uma análise econômico-financeira rigorosa das empresas interessadas em operar empréstimos consignados para militares e pensionistas.
Entre os documentos obrigatórios exigidos pelo Exército estavam “certidão negativa de falência, recuperação judicial ou extrajudicial”, além de “balanço patrimonial, demonstração de resultado de exercício e demais demonstrações contábeis dos 2 (dois) últimos exercícios sociais”.
As exigências faziam parte justamente da seção de “Qualificação Econômico-financeira” do edital, aplicada às instituições autorizadas a operar empréstimo, financiamento e assistência financeira dentro do sistema de consignações do Exército.
Além disso, o edital também estabelecia que o Exército poderia inabilitar empresas caso existisse “qualquer fato ou circunstância, anterior ou posterior à fase de habilitação, que desabone a qualificação técnica, habilitação jurídica ou regularidade fiscal” da instituição.
Apesar disso, o contrato do Banco Master foi renovado em janeiro de 2025 e prorrogado até 2027.
Em novembro de 2025, porém, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. O ato do BC apontou “comprometimento da situação econômico-financeira da instituição”, além de deterioração da liquidez, infringência às normas bancárias e descumprimento de determinações da própria autoridade monetária.
Seis dias depois da decisão do Banco Central, o Centro de Pagamento do Exército (CPEx) comunicou ao banco a rescisão unilateral do contrato de credenciamento.
No ofício enviado à instituição financeira, o Exército afirmou que a liquidação extrajudicial “impede a continuidade regular das operações financeiras realizadas por essa instituição e altera substancialmente sua capacidade jurídico-operacional”.
O documento também informa que o Banco Master foi bloqueado no Sistema de Consignações do Exército (EBconsig), ficando impedido de formalizar novos contratos com militares e pensionistas.
Apesar do bloqueio, os contratos antigos permaneceram ativos. Segundo o próprio Exército, os valores descontados em contracheque referentes aos empréstimos já contratados continuariam sendo repassados ao Banco Master até a quitação dos saldos devedores.
Em resposta enviada via Lei de Acesso à Informação (LAI), o Exército afirmou que o Banco Master foi credenciado “seguindo o rito padrão previsto no edital, aplicado a todas as demais organizações já habilitadas pelo Comando do Exército”.
A resposta, porém, não detalha quais análises econômico-financeiras foram realizadas antes da renovação contratual assinada em janeiro de 2025, nem informa se houve alguma reavaliação específica da situação financeira do banco antes da prorrogação do vínculo até 2027.
Levantamento publicado pelo g1 mostrou que as Forças Armadas repassaram mais de R$ 137 milhões ao Banco Master entre 2020 e 2026 por meio de operações de crédito consignado. O Exército concentrou a maior parte desse volume.



